Mara Hope – O gigante de Fortaleza

Desde criança, meu pai me colocou no mundo das águas, e um dos programas que eu mais gostava – e gosto até hoje – era quando íamos até a Ponte Metálica – antigo porto de Fortaleza. Passávamos a tarde inteira, simplesmente pulando e subindo por uma escada de corda. Nessa época, há uns 10 anos atrás, já me recordo da imagem daquele navio gigantesco parado ali, indiferente ao mar e aos olhos.

O tempo passou e eu cresci, porém velhos hábitos nunca mudam. Depois de adulto redescobri a Ponte Metálica e passei a frequentá-la com amigos, com os mesmo fins de quando era moleque: pular, nadar, subir pela escada de corda e acima de tudo me desafiar.

O gigantesco navio de quando eu era criança continua lá, talvez não tão grande como eu lembrasse, mais ainda sim enigmático. Um ano depois eu e um amigo criamos coragem e decidimos nadar até ele para acabar com o mistério. As estimativas (depois confirmadas), giravam em torno dos 700 metros a partir da Ponte Metálica.

Nadamos, nadamos muito, e sem máscaras ou nadadeiras, levamos uns 30 minutos até sua popa. Mais um pouco até a proa onde existe uma escada de ferro que dá acesso ao convés.

O Mara Hope, um petroleiro com mais de 150 metros de comprimento que encalhou, coincidentemente, em frente ao estaleiro em 1985, resultado de uma fundeação mal feita. Quando encalhou estava inteiro, apesar dos incêndios que sofrera em 1983 em um Porto do Texas, EUA. Estava sendo rebocado para reparos, quando o rebocador que o levava teve problemas e o fundeou na costa do Ceará.

Trazido para o porto do Mucuripe, onde novamente foi fundeou, pescadores contam que no meio da noite os cabos que o prendiam se partiram e o petroleiro desceu 2 km, derivando até encalhar.

Depois de inspecionado, foi dada perda total no navio, e nos anos seguintes, a empresa proprietária iniciou uma grande operação de desmonte, com o intuito de aproveitar tudo que pudesse. Auxiliada paralelamente pelos piratas locais, em 10 anos tudo que restou fora d´água, foi um grande pedaço de sua proa, onde ainda pode-se identificar o seu guindaste, e na popa quando a maré baixa, avista-se as ondas quebrando em seu motor.

Seu convés está completamente corroído pelo tempo. Buracos na estrutura e a camada de pó de ferrugem que o cobre, nos obriga a andar cuidadosamente. Vários buracos circulares com precárias escadas de ferro, nos levam até os seus imensos porões que antes carregavam petróleo, e agora, com alguns metros apenas de água pelo fundo.

Abaixo da superfície, quando a água limpa (o que é difícil devido à proximidade com a costa), são avistados toneladas de ferros retorcidos e cheio de corais. Ainda hoje é comum encontrar com mergulhadores retornando com fios de cobre, com a espessura de um punho fechado, e imensos registros de bronze, que são retirados para venda como metal. O número de peixes é escasso, devido à tropa de caçadores e pescadores que moram na região e que frequentemente lá estão.

O retorno para a Ponte Metálica é contra a maré, e apesar de cansativo, é a melhor opção, pois a distância do Mara Hope para a praia é o dobro. Levamos um poucos mais de 40 minutos para voltar. Hoje, depois de muito treino esse percurso é feito em até 15 minutos. Procuramos ir sempre, para acompanhar o fim do um gigante.

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.