A matança desenfreada dos tubarões na Austrália

Por inúmeras razões, há dez anos me mudei para a Austrália.

O país foi escolhido por proporcionar diversos mergulhos com diferentes espécies de tubarões – a minha eterna paixão.

Aqui tenho a oportunidade de mergulhar com eles a qualquer momento. Além de trabalhar durante esses dez anos, viajei bastante pelo país e ao exterior. Os destinos escolhidos sempre foram aqueles que proporcionariam mergulhos com esse animal magnífico. Viajei para Fiji, Sul da África e Borneo. Aqui na Austrália, mergulhei em Port Lincoln, Ningaloo, Byron Bay, no mar de Coral e na Barreira de Corais, onde além de um simples mergulho turístico, também trabalhei como guia de mergulho enquanto fazia meu mestrado em ecoturismo marinho.

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Pelo mundo vi muita injustiça com esses animais, na pesca comercial ou recreacional, e nos atos bárbaros do finning, onde se cortam as barbatanas dos tubarões e jogam o animal ainda vivo de volta na água, morrendo por sufocamento.

Infelizmente a China é o maior consumidor de barbatanas. Primeiramente para fazer sopa, pois na antiguidade, só as pessoas do reinado conseguiam pagar o preço, que caríssimo, mas hoje, se tornou “chique” e barato. A segunda utilidade é para uso medicinal (sem evidências cientificas).

Atualmente moro no estado de Western Austrália (WA), na minha opinião um dos lugares mais bonitos daqui, e assim como toda Austrália, Western Austrália também é considerado líder em conservação marinha, já que temos a possibilidade de nos deparar com o tubarão baleia todos os anos, entre os meses de abril, maio e junho, gerando bastante retorno financeiro, ao turismo marinho.

Bem desenvolvido, o turismo com o tubarão baleia em Western Austrália é um exemplo mundial de turismo sustentável. Essa ótima fama de preservação era ótima até o começo de janeiro de 2014, e explico.

Com o passar dos tempos, a população daqui aumentou significantemente. A temperatura média gira em torno dos 30 °°C no verão, e cada vez mais as pessoas frequentam as praias, para aproveitar as atividades marinhas como o mergulho, o surf e até uma nadadinha para se refrescar. A consequência de tudo isso, foi o aumento de ataques de tubarão na costa.

Nos últimos 200 anos, a Austrália sofreu 194 ataques de tubarão, 15 acidentes por ano pela última década. Nos últimos 18 meses, Western Austrália sofreu 4 ataques fatais e três quase fatais.

Assustador certo ???

Mas vamos considerar alguns fatores. Além do crescimento da população, a prática da caça submarina já esta na cultura do pessoal local, e em Western Austrália, também possui um dos melhores pontos surf, em Margaret River onde o governo realiza um monitoramento com helicóptero, para avistar de tubarões na região, iniciando às 06:30h da manhã. Se nenhum tubarão for avistado, a praia fica aberta para o uso público. Este serviço ocorre diariamente no verão e durante todo o dia. Um dos problemas, é que surfista gosta de chegar cedo aos locais onde as ondas podem estar excelentes para a prática desse esporte, e acabam não esperando pela abertura das praias.

Os canais de mídia daqui, dramatizaram muito o assunto, e quem está sofrendo com isso, são os tubarões. Devido aos quatro ataques de tubarão, o governo sofreu certa pressão da população e teve que tomar uma providência, e acabou escolhendo a pior opção.

Sea-Shepherd2Desde janeiro de 2014, o governo instituiu 70 bóias entre o norte ao o sul de Perth, com enormes anzóis onde o departamento de pesca de Western Austrália faz uma checagem diária, colocando iscas e mais iscas. Tristemente, mais de 100 tubarões tigres já foram mortos até agora. É difícil aceitar esse programa de matar tubarões em Western Austrália por milhares de motivos: por ética, por valores morais, e por saber que muitos lugares foram privilegiados com o turismo de tubarões, inclusive com tubarões tigre, onde a própria Bahamas em 2011, lucrou U$ 82.000.

O programa que o governou implementou custa em torno de AU$ 600.000 por 4 meses. E inacreditavelmente o governo já aplicou uma extensão de mais 3 anos, para ser aprovada.

Essa prática deixou a Austrália dividida entre matar ou salvar tubarões. Os conservacionistas (como eu) tentam provar o quanto essa prática será ineficaz, e pelas últimas duas semanas, tive a oportunidade de embarcar em um dos barcos do grupo Sea Shepherd para compreender melhor e ver com os próprios olhos, a dura realidade.

Bruce the Rib monitora o barco do departamento de pesca, e via Facebook, reporta quantos tubarões estão sendo mortos e a crueldade executada. Infelizmente vi matarem um tubarão tigre como se fosse um troféu.

Também vi a demora de 20 minutos para tirar um tubarão tigre menor do anzol, deixando o animal em sofrimento e agonia. A execução desse tipo de captura visa os tubarões das espécies tigre, cabeça chata e branco com comprimento superior aos 3m, e devolvendo os animais menores aos mar. O problema em tudo isso, é que além da técnica utilizada, há a pouca vontade em deixar o tubarão viver.

Voluntários do Sea Shepherd documentaram várias vezes, o tubarão tigre sendo devolvido em péssimas condições e quase sem chance de sobrevivência. Eles ainda resgataram um tubarão tigre que havia sido devolvido, porém havia afundado direto para o fundo do oceano. Os voluntários se reuniram, nadaram com o tubarão por mais de uma hora até revivê-lo.

Tudo está sendo documentado não só pela pagina do Bruce the Rib, como também, pela página Nowasharkcull.

Pessoalmente sempre admirei o trabalho da instituição Sea Shepherd. A maioria das pessoas que atuam com eles são voluntárias. Aqui em Western Austrália, todos os dias o Sea Shepherd sai da marina às 05:50h da manhã e geralmente retornam por volta das 16h, quando o departamento de pesca encerra o dia de trabalho. São horas e mais horas de dedicação.

Vejo Western Austrália com todo potencial de ser transformar em uma meca de mergulho com tubarões tigres, mas infelizmente, a opção até agora, foi exterminá-los.

Todos sabem que os tubarões são importantes para manter os oceanos saudáveis, já que eles são os grandes predadores. Tudo tem um balanço e a Terra e os oceanos, são sagrados. Dependemos deles e somos eles.

Tenho a esperança de que essa injustiça acabe, e para isso, precisamos de uma população com um mínimo de conhecimento sobre os tubarões. Eles estão no alto da cadeia alimentar e não somos parte do menu de alimentação deles.

Temos que aprender a viver em harmonia, com a Terra e suas criaturas, já que dependemos dela. Se não houver esse equilíbrio, o futuro será desastroso.

Sou extremamente agradecida ao Sea Shepherd por me proporcionar uma oportunidade que abriu ainda mais meus olhos. Uma experiência onde todos deveriam ter um dia. Seria muito egoísta de minha parte não tentar o que estou tentando… Criar uma consciência para o publico, sobre a atual realidade em Western Austrália.

O público merece saber sob que as circunstâncias estão sendo feitos as execuções e quanto mais esse conhecimento for difundido, maior será o nosso senso de humanidade em defesa dos tubarões.

Por favor, façam suas pesquisas e publiquem a realidade daqui.

Não estou fazendo isso por nome (que não tenho algum), mas sim, por puro amor ao tubarões.

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Abaixo, um vídeo do Sea Shepherd onde é possível ter uma idéia do que está sendo feito aqui.

Marta Espinheira

Marta Espinheira trabalhava em agências de propaganda no Brasil e se mudou para a Austrália em 2004.

Além do Brasil, já mergulhou na África do Sul, Singapura, Vietnam, Fiji, Bali e em toda a Austrália.