Mergulhando aos 100m e descobrindo o “Marcel’s Hole”

Como muitos de vocês já devem saber, Recife além de possuir uma grande quantidade naufrágios dentro dos limites do mergulho recreativo, também conta com vários pontos para a prática de mergulho técnico, onde podemos destacar, Corveta Camaquã, que descansa deitada em seu boreste, aos 57m de profundidade, sendo um belo navio da Segunda Guerra Mundial (na verdade, uma das baixas que a marinha brasileira teve nesta época); e o Vapor dos 48, que como o próprio nome indica, está aos 48m de profundidade, sendo um lindo vapor de rodas que ainda guarda o mistério de sua história (bem como o fato de possuir apenas uma de suas rodas).

Isso tudo sem deixar de lado, é claro, os outros rebocadores, navios à vapor e tantos outros tipos de embarcação que povoam as águas Recifenses.

Além dessa grande quantidade de pontos de mergulho, contamos ainda com um grupo de mergulhadores técnicos que se dedica a explorar novos pontos para a prática dessa atividade no Estado. Nosso grupo é composto pelos mergulhadores André Costa, Henrique Maranhão, Marcel do Espírito Santo, Rafael Coitinho, Marcelo Russell, Rogério Lippo, e este que vos escreve.

Atualmente, a grande maioria dos pontos identificados pelo grupo está localizado nas proximidades das paredes de Recife, que, para quem não sabe, é o final da plataforma continental, ou melhor dizendo, literalmente onde o chão acaba !

Alguns dos pontos encontrados pelo grupo foram:

O Jardim

Uma bela colina submarina situado aos 80m de profundidade, com um fundo composto de algas calcárias e, portando, completamente vermelho;

O Buraco do James

Um belíssimo degrau na parede, aos 90m de profundidade, onde é possível observar o próximo degrau que desce aos 120m. O nome desse ponto foi dado em homenagem a um querido dive master que trabalhou conosco na operadora Aquáticos;

A Colina

O mergulho nesse ponto começa nos 75m e é, literalmente, uma colina com inclinação constante, descendo até o azul infinito.

Marcels-Hole1

Encontrando “Marcel´s Hole”

O que eu vou relatar pra vocês hoje, é a descoberta do mais novo ponto de mergulho nas paredes do Recife, o “Marcel’s Hole”.

Nosso grupo fica sempre animado para explorar um novo ponto, e mais ou menos uma vez por mês, tentamos realizar um mergulho desses, onde na última operação, o pessoal estava numa animação maior ainda para descobrir um novo ponto, dado que o resultado de nossa última expedição havia sido um pouco frustrante.

Como esta expedição teria que valer por duas, decidimos que o ponto de partida seria a boca das paredes.

A primeira coisa que fizemos, foi a definição da equipe, que acabou sendo Rafael, Marcel, Henrique e eu. Diferentemente das expedições anteriores, para esta, utilizamos a lancha do nosso amigo Pedro que, aliás, prepara-se para ser um futuro membro do nosso grupo.

Tudo leva a crer, que esta lancha será nossa embarcação oficial para esse tipo de mergulho, afinal é uma CabrasMar com 42 pés de comprimento, totalmente equipada e com espaço de sobra para nosso equipamento, e quem realiza mergulho técnico, sabe a quantidade de equipamento que a gente leva !

Definida a equipe e o barco, faltava definir o ponto a ser explorado. Depois de algumas conversas, decidimos que iríamos explorar as proximidades do “Buraco do James”, pois queríamos ver o precipício, o azul infinito.

Marcamos o mergulho para uma segunda-feira, que é um dia mais calmo para nossa equipe conseguir sair para uma operação desse porte. Estávamos ansiosos para a chegada do grande dia, e contávamos os segundos.

Domingo foi o dia de preparar os gases para o mergulho e para essa etapa, contamos com todo o apoio da Aquáticos, operadora de mergulho em Recife, que trabalha com mergulho técnico. Como a profundidade alvo deste mergulho seria de 100m, os gases selecionados foram:

  • Trimix 12/55 para gás de fundo;
  • Trimix 20/20 para travel (que também foi usado na descompressão);
  • EAN 50 e O2 para descompressão.

O tempo de fundo escolhido foi de preciosos 15 minutos, com um runtime total de 102 minutos.

Finalmente chegou o dia do mergulho, estávamos todos doidos para mergulhar, apesar da operação parecer mais uma festa do que um dia de mergulho, dada à quantidade de comida que trouxemos à bordo. Parecia que estávamos com medo de passar fome !

Se não achássemos um bom ponto de mergulho, pelo menos não poderíamos reclamar da comida…

Bom, voltando ao que realmente interessa, nossa navegação foi bem tranquila, apesar do mar estar um pouco mexido e como esse novo ponto está localizado a cerca de 20 milhas náuticas do porto de Recife, foram mais de 2 horas de viagem.

Pense em duas horas que demoraram a passar !

O pior não foi isso, pois quando faltavam cerca de 500 metros para chegar ao nosso ponto de mergulho, a profundidade ainda era de apenas 50m.

Logo a angústia de pensar que tínhamos viajado tanto para nada desapareceu, dando lugar a uma grande euforia, quando a profundidade aumentou drasticamente, superando o 100m.

Marcels-Hole3Encontrado o ponto, realizamos uma varredura com o sonar para escolher o melhor local para a descida.

O procedimento de mergulho seria simples, jogaríamos um ferro com uma bóia para servir de referência de descida e subida e o barco ficaria solto para o caso de algum mergulhador “desgarrar” do cabo de Marcels-Hole4descida. Teríamos ainda o Pedro como mergulhador safety na subida, afinal, tínhamos gás para qualquer emergência à bordo.

Lançado o ferro (âncora), rapidamente nos equipamos, ou tão rápido quanto quatro mergulhadores técnicos com todas as suas tralhas podem se equipar, caímos na água.

Depois das verificações de segurança na superfície, começamos a descida. No início era só azul, o mais belo azul que se pode imaginar, e depois de 6 minutos descendo, atingimos o fundo aos 100m de profundidade.

Mas o fundo não era bem o que, pelo menos eu, esperava.

Estávamos numa planície e eu esperava um degrau, já estava ficando decepcionado, mas ao olhar para o lado, avistei o “final do chão”, o degrau descendo a profundidades que nem conseguimos ver, me enchendo de alegria novamente, ficando ainda mais contente ao perceber que estávamos sendo seguidos por 3 enormes sirigados (para o pessoal do sul e sudeste são badejos).

Infelizmente atingimos o nosso tempo limite e iniciamos a nossa longa subida, mas que no final foi muito agradável, com a presença de um grande cardume de cangulos de paredes que nos acompanharam durante toda a descompressão.

Marcels-Hole2E finalmente, no barco após o mergulho, resolvemos batizar o ponto como o “Buraco do Marcel”, num misto de brincadeira e homenagem ao Marcel, que era um dos mais animados do grupo.

Apesar do nome dado, o “dono do buraco” prefere chamá-lo de “Marcel’s Hole”, não sei por quê…

E agora estamos aqui, na “difícil” e “tediosa” tarefa de decidir qual será o nosso próximo mergulho, afinal, ainda podemos reaproveitar as nossas misturas…

Bons Mergulhos à todos !

Gabriel Katter (Gaba)
Mergulhador desde 1988 e instrutor de mergulho desde 1996. Possui mais de 7.000 mergulhos, sendo atualmente, Instrutor Trimix e Normoxic Trimix Trainer Instructor pela IANTD. Instrutor Divecon SSI, mergulhador de rebreather Revo e Megalodon, trabalhando na escola e operadora de mergulho Aquáticos Centro de Mergulho em Recife-PE.