Mergulhando com os Tigres

Foi algo inesperado, simplesmente aconteceu. Rolou em um fórum de discussões um chamado recrutando mergulhadores interessados em mergulhar com os Tigres, no Oceano Índico, na África do Sul, mais precisamente na localidade de Unkomaas, próximo à Durban.

Me chamou atenção a natureza da expedição, sobretudo o preço, e no mesmo instante, liguei para o telefone mencionado, e descobri que o instrutor Gabriel Ganme, de uma conhecida escola de mergulho em São Paulo, estava encabeçando a organização do evento, fiz a minha inscrição sem pensar, no mesmo dia.

Encontrei a galera na sala de embarque no aeroporto, e seguimos rumo à África, em uma viagem muito tranquila, fizemos a conexão para Durban em Johannesburgo e finalmente chegamos à Unkomaas, cujo trajeto terrestre foi feito em uma van previamente contratada. Nos instalamos na pousada, dirigida por uma simpática inglesa, que deixou tudo em Londres para viver lá, não é exagero, “londrina e amável”, e a primeira que vejo. Devem existir outras pelo mundo afora, talvez seja a água ou o ar de lá…

Nos dirigimos à casa do Mark, o proprietário da operadora, e que nos deu a triste notícia de que a visibilidade estava péssima devido aos fortes ventos que assolam a região nesta época do ano. Depois descobri que esses ventos são as Monções que castigam as costas do Índico antes e durante o inverno. Já que lá estávamos, não tivemos outra alternativa, a não ser, Durban2torcer para que a situação revertesse.

Acabamos por conhecer um americano, filho de brasileira e que estava lá há dez dias, e nos informou que o mar estava muito bom, e que tinha feito boas fotos. Em nosso primeiro dia, embarcamos sem muita esperança, pois o vento não parava de fustigar e já sabíamos de antemão que esse não seria um grande dia, mas acabamos realizando o primeiro mergulho no recife, com baixa visibilidade e fortes correntes.

Durban1Em seguida, nos dirigimos ao point onde os tubarões tigres costumam aparecer, colocado logo após, o engordo com o objetivo de atraí-los. Em aproximadamente quarenta minutos apareceu o primeiro, extremamente grande, e pouco tempo depois, o segundo. Ficamos entusiasmadíssimos e brincamos com eles sem descer, isto é, na superfície.

No segundo dia, não houve mergulhos, dada as péssimas condições do mar, resolvemos fazer um safári fotográfico, sendo muito divertido, e quem não tem cão caça com gato, pois isso não estava em nossos propósitos, já que a natureza nos deu um limão, fizemos uma limonada.

Terceiro e penúltimo dia: – “Mó show”, valeu a viagem. A galera já apresentava sinais de cansaço devido ao “Jet Leg”, principalmente pelo estresse e frustração, mas o dia prometia. Depois de vencermos a zona de arrebentação, logo  estávamos navegando rumo ao ponto de mergulho onde os procedimentos para atrair os tubarões seriam realizados. Dessa vez não esperamos muito e eles deram o ar da graça. Nos equipamos e descemos rapidamente, e pude observar que a água estava azul nos primeiros três metros e ainda muito turva abaixo dessa profundidade.

Procuramos nos estabilizarmos no azul e próximo ao engordo, acontece que nessa situação eles sumiam, bastava afundarmos um pouco e lá estavam eles de volta, e só conseguíamos vislumbrar a silhueta deles como enormes sombras. As sardinhas que eram atiradas na água desciam incólumes, parecendo que eles não queriam nada com a gente.

Durban3Ao subirmos, o Mark nos explicou que dada a visibilidade, as bolhas de ar que exalávamos os assustavam, dificultando um contato de curta distancia. Após um breve intervalo na superfície, apareceram mais espécimes e resolvemos cair na água somente com snorkel. Sábia decisão, pois o que vivenciamos, para sempre ficará gravado em nossas memórias.

A medida que as sardinhas eram atiradas, eles acabavam por perder o medo, isso mesmo !   Eles têm medo da gente e se aproximaram cada vez mais. Lembrei daquele antigo vídeo game Pac-Man, devido à forma de como eles as pegavam. Quando me dei conta, havia um ao meu lado e a menos de dois metros de distância, e no mesmo instante, outro tanto de profundidade, fiquei imóvel e ele também, como se estivesse me analisando com um imenso olhar frio, sem expressar emoção, demonstrando ser um perfeito predador, resultado de uma evolução de mais de 150 milhões de anos.

Durban4Foi realmente uma dose muito grande de adrenalina, tive encontros com outros que reagiram da mesma forma, isso só na primeira vez, o que me faz pensar que depois da encarada eles nos reconhecem e passam batido nos demais encontros.

Estava só com uma roupa de 5mm, passando muito frio e que me atingia os ossos, e resolvi sair da água pensando amanhã tem mais.

Observando do inflável e agasalhado, senti muito pelo que estava perdendo, principalmente na hora em que todos resolveram atacar o engodo simultaneamente. O mar parecia ter vida ao redor dele, dado ao frenesi que se formou, e nessa hora todos se afastaram, menos o Gabriel, que só o fez quando foi surpreendido pôr um deles que avançou em sua direção, e teve que colocar a filmadora de escudo para protegê-lo. O engordo foi recolhido quase que na briga, pois um deles não queria largá-lo de forma nenhuma e quase entrou no barco junto !

No dia seguinte, lá estávamos novamente com uma água muito boa, em nosso último dia de mergulho. O engordo foi atirado, esperamos, e nada de tubarões tigres. Após uma hora de aguardo, resolvemos fazer um mergulho no recife e deixamos o engordo preso a uma bóia. Grande mergulho, pois a visibilidade estava fantástica, azul deslumbrante. Apreciamos a rica vida existente no Índico, muitos corais, das mais variadas formas e cores, peixes que por aqui a gente não vê, inclusive vários lion fishes (peixes leão).

Durban5Ao regressarmos ao ponto onde havíamos deixado o engordo, para nossa surpresa, eles já haviam aparecido e literalmente estraçalhado a “bombona” com furos, onde estavam as sardinhas. Ficamos muito felizes, apesar do mar muito picado e bater muito, estávamos prontos para cair na água com uma excelente visibilidade. Para nosso espanto, o mestre do barco perdeu a poita na primeira tentativa, e de modo inacreditável, perdeu também a outra, onde acabamos por ficar sem nenhuma e sem poder mergulhar.

Na volta avistamos um cardume de mantas e o pessoal caiu na água com elas, não o fiz pôr estar muito chateado com o fato de não poder mergulhar com os tubarões tigres naquele dia, pois estava preparado contra as frias águas, já que haviam emprestado uma jaqueta de 5mm, e que resolveria o meu problema quanto ao frio. O que me resignou foram as palavras do Gabriel:

“Eh galera, a gente tem que se contentar com que o mar pode nos oferecer, e hoje foi isso…”.

No dia seguinte, ou melhor, na madrugada, saímos com destino ao lar, nos despedimos no aeroporto de Johnnesburgo, pois ainda tinha cinco horas de voo até Nairobi no Quênia, e estava ansioso para conhecer as paisagens e o povo da África equatorial, onde permaneceria por mais onze dias.

Concluindo posso afirmar que foi uma experiência muito gratificante o mergulho com os tigres a agradável companhia de todos do grupo. Participaram da expedição, o Gabriel Ganme, Alexandre Barbosa, Heloisa Azevedo e eu.

Mário Sérgio Garcia
Mário Sérgio Menezes Garcia é empresário, Dive Master pela PADI e mergulhador técnico. Praticante de hipismo western e criador de cavalos da raça quarto de milha, de linhagem de corrida e tambor. Já visitou mais de 60 países e mergulhou mais de 20. Brasil, Estados Unidos, México, Ilhas Cayman, Cuba, Aruba, Colombia, África do Sul, Moçambique, Quenia, Fiji, Tonga, Japão, Tailândia, Vietnam, Camboja, Líbano, Jordânia e Egito, foram alguns deles.