Mergulhando em Deadalus e St. John’s reefs

Foi com muita, muita expectativa, que os oito meses de espera se passaram.

Todo mês, uma parcela a pagar, e quanto mais perto chegávamos da data,mais queríamos nos preparar para a partida.

Equipamentos que faltavam, remédios recomendados, baterias extras, testes do equipamento fotográfico… tudo isso tinha um gosto diferente, pois pela primeira vez estávamos indo para um live aboard, com uma semana inteira de mergulhos no sul do Egito (St. John’s e Deadalus reefs). Área ainda pouco explorada, com vida marinha quase intacta e prometendo grandes encontros.

Eu e minha esposa já havíamos viajado para mergulhar. A lua de mel foi em Fernando de Noronha e havíamos também estado em Porto de Galinhas, porém, nunca estivemos embarcados por tanto tempo e mergulhando tanto.

O roteiro incluiria uma breve passagem pelo Cairo, o live aboard, e depois passagens por Luxor, Cairo de novo e Roma. Mas não conseguia pensar em nada além dos mergulhos e a expectativa não foi em vão.

Embarcamos no M/Y Aldebaran já à noite, após viagem do aeroporto de Marsa Alam até o ponto de embarque. O barco, extremamente novo, confortável e espaçoso. Sem mergulhos hoje, apenas instruções gerais, divisão de cabines e jantar. Dormimos cedo (bom, deveríamos ter… eu não consegui dormir quase nada), e logo pela manhã já estávamos ancorados em Sha’ab Marsa Alam, um belo recife de corais perto da costa, aonde faríamos nosso check dive, para acertar lastros, testar o equipamento e nos acostumar com o local.

Não foi difícil: com a água a 31ºC até os 30m, a maioria se desfez das roupas longas de neoprene rapidamente. A visibilidade de 40m, os corais crescendo por todos os lugares e o mar calmo, deram o tom do primeiro dia. Pulamos direto do barco, demos a volta no recife, chegamos a um pequeno naufrágio e voltamos por dentro do recife. Isso mesmo, o recife possui algumas pequenas passagens que “cortam caminho” na volta.

No segundo mergulho, nosso primeiro drop off. Um dos grupos já avistou a primeira sombra de tubarão, encontramos barracudas e várias águas-vivas. Esse foi o primeiro mergulho com as câmeras e fotografar neste cenário, provou ser fácil do ponto de vista de iluminação e falta de suspensão, mas difícil no ponto de vista de decidir o que fotografar. Tudo merecia registro.

Subindo de volta no barco, fomos avisados que navegaríamos por bastante tempo até Deadalus, e que deveríamos tomar remédios contra enjôo. O mar calmo se transformou em mar aberto, e foi novamente difícil dormir. Porém, valeu à pena.

Amanhece, sino tocando, sinal de briefing imediato.

Estamos ancorados no meio do Mar Vermelho, e tudo o que se vê além do mar e do recife, é o farol o que sinaliza. A visão é quase surreal. Olho para a linha que divide o recife da água e vejo… tudo. E quando acho que já está bom demais, um peixe napoleão aparece, nadando calmamente embaixo do barco.

No briefing, descobrimos que os mergulhos não são tão tranquilos assim. Vamos mergulhar com zodiacs, os infláveis que dão suporte às operações. Eles nos levam até o ponto de mergulho, que faremos em paredes com drop-offs com mais de 60m, e quando subimos, soltamos o deco marker para sermos recolhidos e levados de volta ao barco principal. Parece fácil, mas estamos em uma região com correnteza e o mar está um pouco mexido. Para quem leva câmera fotográfica então, pior ainda.

Caímos na água e descemos aos 5m, fazemos a conferência de tudo (computador funcionando, câmera e flashes ligados, dupla à vista) e vamos para os 35m. Estamos no azul, a uns 20m da parede, procurando tubarões. Em menos de 10 minutos, um grande Galha Branca Oceânico (carcharinus longimanus) aparece, nadando agitado e levando um baile de três grandes xaréus. Lá no fundo, alguém vê a sombra de um tubarão-martelo… começamos bem !

Após 15min voltamos para a parede e começamos um multinível, fotografando corais moles, grandes gorgônias, peixes das cores mais diversas, barracudas, moréias, tartarugas, anêmonas… é sem dúvida o mergulho mais rico em vida que já fiz.

Durante os dias seguintes, fizemos outros mergulhos em Deadalus e St. Johns, noturnos, nadamos com golfinhos, visitamos recifes com grutas e cavernas formadas por corais e fizemos muitas amizades no barco, seja “logando” nossos mergulhos, discutindo fotografias (dica: sempre leve o cabo que liga sua máquina fotográfica na TV – são horas e horas de diversão e aprendizado, com os outros mergulhadores, revendo as fotos do dia), comparando os avistamentos, etc.

Foi uma ótima experiência. Fisicamente cansativa, pois estar embarcado exige de você a cada segundo, mas isso é assimilado já nos primeiros dias. A convivência em um barco diz muito sobre cada um, e nosso grupo foi ótimo: muitas novas amizades, fotógrafos se ajudando, pessoas dando suporte umas às outras principalmente com quem ficava doente ou se machucava, troca de dicas de outras viagens e um ótimo espírito coletivo.

Faremos novamente ?   Com certeza sim, várias vezes !

A pergunta que fica após um live aboard é só uma: qual será o próximo ?

Rafael Sekles Fuganti
Natural de Londrina-PR, é administrador de empresas e reside em São Paulo. Certificou-se mergulhador pela PADI, sendo Rescue Diver PADI. Seu objetivo é desenvolver-se em fotografia subaquática, que começou a praticar em 2007 durante viagem a Fernando de Noronha.