Mergulhando no Submarino U-352 na Carolina do Norte

Segunda Guerra Mundial, em particular a batalha do Atlântico, e Tubarões !

Em 2006, em visita a uma feira de mergulho nos Estados Unidos, dei de cara com uma foto subaquática fantástica. Na realidade, uma montagem com mais de 200 fotos, compondo a imagem de um submarino alemão naufragado: o U-352.

Nunca mais tirei aquela imagem da cabeça. Tinha que mergulhar lá !

E para completar, o local era repleto de Tubarões Mangona (Carcharias Taurus) – grandes, com cara de mau e completamente inofensivos.

Durante alguns anos, fiquei estudando a história do U-352 e de diversas outras batalhas travadas nesta região especial do Oceano Atlântico. Cape Lookout, região compreendida pelas cidades de Beaufort, Atlantic Beach e Morehead, além de abrigar dezenas de naufrágios da Segunda Guerra e de fazer parte da programação de lançamentos de recifes artificiais, é também o local do naufrágio do Queen Anne’s Revenge, a nau capitânia do famigerado pirata Barba Negra.

No início deste ano (2009), surgiu a oportunidade de fazer uma viagem a trabalho e dar uma “esticadinha” até Morehead em agosto, justamente na melhor época do ano para mergulhar no Atlântico Norte, que é de julho a setembro.

Foi aí então que decidi montar a Expedição Tiburón / X Divers U-352, para mergulhar e registrar o U-352 e os tubarões do “Cemitério do Atlântico Norte”, como é conhecida a região.

Além de mim, fizeram parte da expedição: Michel Medeiros, João Tavares e Rodrigo Figueiredo, proprietário da X Divers e responsável pelo espetacular registro fotográfico da viagem.

Para chegar a Morehead, tomamos um avião de Miami até o aeroporto de Raleigh / Durham, onde alugamos um carro para cobrir a viagem de aproximadamente 3 horas até o litoral. Durham, por sinal, nos valeu uma super visita ao centro hiperbárico da Duke University e a matriz da DAN Internacional. Apenas visita… sem DD !

Em Morehead, utilizamos a operadora Olympus, hoje, dirigida pelo Capitão Robert Purifoy, filho do responsável pela descoberta do U-352. A outra operadora local, a Discovery Diving, fica na cidade vizinha de Beaufort. Por questões logísticas, mergulhamos com a Discovery Diving.

Ambas operadoras contam com excelentes embarcações, adequadas ao mar duro e à longa navegação média para os mergulhos off-shore, de 25 a 30 milhas náuticas. Também contam com estações de recarga para nitrox, extremamente recomendado para mergulhos na faixa dos 30 metros.

Spar e Indra

Nosso primeiro ponto foi o naufrágio do “Spar”, um quebra-gelo da guarda costeira aposentado, naufragado artificialmente no ano de 1997.

Apesar de ser um lançamento artificial relativamente recente, a quantidade de vida é absolutamente fora do comum.

Uma completa cadeia alimentar com cardumes de sardinha, xaréu, olho-de-boi, enxada, barracuda e… muito Tubarão, muito mesmo !

Eu diria mais de 30…

Ao todo, realizamos quatro mergulhos no “Spar” e sempre contamos com a mesma situação: na parte mais rasa, na água quente e clara, onde encontrávamos entre 4 a 5 tubarões. Eram os maiores do grupo, como se estivessem tomando conta da situação.

Sobre o convés do “Spar”, já na faixa dos 24m de profundidade, dezenas de tubarões, dos mais variados tamanhos, circundando os mergulhadores sem nenhuma atitude agressiva e como se nós nem estivéssemos lá. Na parte mais funda, na areia, outros tantos, porém mais tímidos e se escondendo nas águas mais escuras e frias, devido à forte termoclina.

Terminamos o mergulho completamente extasiados… Os Tubarões já valeriam a viagem e o U-352 ainda estava por vir.

À tarde, mergulhamos no naufrágio artificial do Indra, já na área in-shore. Apesar da baixa visibilidade, o Indra nos proporcionou excelentes penetrações e, novamente, muitos peixes e bastante vida marinha.

U-352

Finalmente chegou o dia pelo qual esperava há três anos.

Após uma navegação bastante dura e sem que o capitão aliviasse ao cortar as ondas numa velocidade média de 20 nós, chegamos ao U-352. Ali estávamos, apenas 30 metros de um submarino alemão. Estava difícil de segurar a ansiedade. Eu e o Rodrigo descemos na frente. Uma vez que o mergulho tem perfil quadrado e bem próximo do fundo, sabíamos que não teríamos muito tempo, mesmo com cilindros de 100 pés cúbicos e EAN 30.

Submarino-PecaQuando conseguimos distinguir a forma do submarino praticamente intacto, a emoção realmente foi grande. O cabo de descida estava na popa, amarrado ao eixo.

O U-352 está levemente adernado sobre o boreste. Percorrendo o convés repleto de peixes, e minha cabeça não parava de imaginar os detalhes do naufrágio. Esse não era um naufrágio comum. Da meia nau à proa, encontra-se a torreta, ainda com a base do periscópio e do snorkel, e a escotilha principal de entrada aberta. Seguindo um pouco mais à frente, avistamos a base do canhão de 88mm, jamais encontrado.

Acredita-se que tenha sido arrancado pelas cargas de profundidade e que tenha tido o mesmo fim da metralhadora de 20mm, encontrada anos depois a 50m de distância do submarino. Atualmente, esta se encontra em exposição na operadora Olympus Dive Center.

Seguindo em direção à proa, existe uma abertura retangular com nítidas marcas de penetração. No briefing de mergulho, não recebemos nenhuma instrução que proibisse a penetração e, como somos treinados para tal, decidimos cautelosamente e respeitosamente entrar no U-352. O mergulho ficou ainda mais fascinante…

Do ponto de entrada até a proa, a penetração estava completamente impedida por uma montanha de sedimento, mas em direção à popa, conseguimos avançar por mais dois compartimentos, passando claramente pela praça de comando.

Retornamos rapidamente ao ponto de entrada e saímos pela mesma abertura. Já do lado de fora, completamos o mergulho em direção à proa, passando por mais uma entrada por onde se carregavam os torpedos para, finalmente, chegar à proa, bastante desmantelada, mas com o imponente tubo de torpedo de bombordo facilmente identificável.

Repetimos praticamente o mesmo perfil no segundo mergulho.

Durante a descompressão, cercado por algumas barracudas bem grandes, o filme das batalhas do Atlântico passava na minha cabeça… Eu só pensava em agradecer a possibilidade de mergulhar nessa parte da história da humanidade e em prestar os meus respeitos aos que dela participaram.

Para mim, este foi mais um sonho realizado, mais um mergulho fantástico.

Voltaremos lá em 2010, com mais uma expedição Tiburón / X Divers, para nos aprofundarmos mais ainda nessa aventura que é mergulhar no “Cemitério do Atlântico Norte”, que ainda guarda grandes naufrágios, como o “Papoose” e o “Naeco”.

André Valentim

André Valentim mergulha desde 1986 e é instrutor de mergulho desde 1988, atuando sempre no mercado de mergulho, formando mais de 1.100 alunos como instrutor PDIC e SSI. Foi considerado membro SSI Platinum Pro 5000 e premiado como instrutor do ano (2005-2006) pela PDIC.

Além de representante da Sea Sub equipamentos de mergulho, atualmente é instrutor de mergulho técnico pela SSI e DAN Instructor Trainer.