Mergulhando nos Açores

Seria muito estranho (pelo menos para mim, mergulhador compulsivo) visitar um arquipélago ou qualquer ilha e não conhecer o que ela oferece debaixo d’água. E foi justamente isso que fizermos (eu e minha esposa) em julho desse ano (2005) quando decidimos visitar os Açores.

Parte da porção insular de Portugal (juntamente com as ilhas da Madeira e Porto Santo), ficam no mesmo paralelo de Lisboa, a cerca de duas horas de vôo a partir de Portugal. É formado por 9 ilhas principais (Santa Maria, São Miguel, Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico, Fayal, Flores e Corvo). Optamos por visitar a maior das ilhas, São Miguel e depois a mais famosa  pelo mergulho, Fayal (apesar da Graciosa ser apontada como o melhor ponto, tanto que há campeonatos de foto-sub por lá).

O arquipélago, descoberto em 1427 por Diogo de Silves, virou uma capitania da coroa portuguesa e teve uma colonização  inconstante (com invasões francesas e holandesas) até passar a ser um importante ponto de reabastecimento no percurso Europa-América do Norte quando do domínio português.

O nome do arquipélago vêm dos descobridores que observaram à distância, muitas aves conhecidas milhares (espécie comum na região) confundindo os grupos com outra espécie, o açor, dando então o nome às ilhas.

Com águas ricas quanto à presença de grandes mamíferos marinhos, sobretudo de baleias cachalotes, as ilhas passaram também a ser ponto de partida também para embarcações baleeiras, com uma forte tradição, que durou até meados da década de 1980, quando a caça foi proibida.

A tradição ainda continua, mas agora por meios ecologicamente corretos, a partir de artesanato utilizando ossos e dentes de baleias achados ou guardados da época de caça (chamado scrimshaw), além de museus dedicados à história da cultura baleeira. Hoje, esse tipo de artesanato está supervalorizado, já que está cada vez mais difícil de encontrar matéria prima (esculturas pequenas em marfim custam cerca de 200 euros, e as maiores chegando facilmente nos 1000).

De certa forma, a caça às baleias continua, mas ao invés de arpões, hoje são máquinas fotográficas que são miradas sobre os animais. Pode-se programar passeios de 4 horas, exclusivos para a observação de cetáceos (baleias e golfinhos), em todas as ilhas do arquipélago. A presença dos grandiosos animais é tão certa que as agencias que programam o passeio garantem a  devolução do dinheiro pago caso são seja visto nenhuma baleia.

Os passeios de barco para observação de cetáceos também permitem um visual único das ilhas, com paisagens espetaculares. Câmeras fotográficas e filmadoras são componentes essenciais para qualquer turista. A escolha dos barcos também é interessante observar. Os maiores têm uma menor mobilidade, mas permitem fotos e filmagens mais estáveis. Já os botes (grande maioria) são ágeis, se aproxima um pouco mais, mas muito turbulentos. Precisa de algum estômago para suportar 4 horas de balanço e vento frio na cara.

Fora D’água

É possível visitar cada uma as ilhas em poucos dias. Bastante interessante alugar um carro por um ou dois dias para circundar as ilhas. Como disse, a economia local é forte na agricultura e pecuária, então um passeio pelas estradas (muito bem pavimentadas, por sinal, e com condutores que são exemplares, com completo respeito aos pedestres), permite a observação de belas paisagens e do contraste de uma ilha com uma cultura rural maior que a pesca.

São Miguel é um dos principais pontos turísticos para europeus no norte (Alemanha, Suécia, Noruega) e canadenses, então há uma grande infraestrutura hoteleira capaz de atender a demanda.

Não temos grandes restaurantes, mas há shoppings e tascas (cafés) que oferecem alimentação a preços não exorbitantes. Aliás, os preços dos serviços (aluguel de carros e hotéis) e alimentação nas ilhas não são diferentes dos praticados no continente, uma preocupação a menos.

Sendo a maior das ilhas com 65 km de comprimento por 16 de largura, não dá para circundá-la em um único dia. Presença de grandes hotéis e vilarejos pitorescos. Duas curiosidades: as estradas são forradas de flores, sobretudo de hortências, e a cada vilarejo as casas são (ou foram) construídas ao pé da estrada, sem calçada, dando um visual incrível durante os passeios. Outra é que não existem praias, então é comum nas vilas a presença de piscinas construídas à beira-mar para uso dos moradores e turistas. Alguns hotéis têm piscinas privadas, mas a grande maioria são de piscinas públicas esvaziadas e enchidas com água do mar diariamente.

Já Fayal é muito menor, com um diâmetro de 21 Km (a ilha é “quase” circular), com menor infraestrutura hoteleira com destaque para um porto (de sua capital, Horta) bastante protegido que faz da ilha ponto de parada para velejadores de inúmeros países (encontramos dois barcos brasileiros). O curioso é a decoração do porto.

Por tradição, cada marinheiro que visita Fayal pega um pedaço do muro de proteção do píer e faz um desenho, bandeira, mensagem, etc. Isso faz o local um dos maiores museus a céu aberto do mundo. Junto com as dezenas de veleiros, forma um visual difícil de esquecer.

Há também uma tasca famosa, chamada de Peter´s Café, que é o maior centro de artesanato scrimshaw do arquipélago (tem até um museu anexo, com visita paga). Loja de bugigangas, roupas, artesanato e restaurante. Dentro, junto com uma decoração temática (e caótica) vemos bandeiras do mundo todo, doadas por velejadores que visitaram a ilha (como não poderia faltar, havia uma do Brasil, bem ao lado de uma Argentina, hehehe).

De Fayal há a possibilidade de observar e visitar a ilha do Pico (ponto mais alto de Portugal continental e insular, com 2.351  metros de altitude) através de barcos com saídas pré-determinadas. O cume do Pico dificilmente é visto por causa de nuvens, e no inverno (não tão frequente) ele se cobre de neve. Há pratos típicos de Pico, como o filé de toninha (sim, bife de golfinho), para quem quer ser politicamente incorreto. Podemos observar, também, a ilha de São Jorge, mas não há barcos (somente fretamentos) para o percurso.

Falando em inverno, em qualquer das ilhas, temos que ir prevenidos para todo tipo de clima. Em um mesmo dia podemos ter calor e sol, de poucas horas depois temos chuva forte e ventos, e ainda frio todo final de tarde. Os ventos são constantes, então não há uma estabilidade na temperatura, a cada momento trazendo e levando nuvens sobre as ilhas.

Dentro D’água

Geralmente as empresas que fazem passeios também fazem saídas de mergulhos, com instrutores credenciados e boas embarcações. Todos os pontos de mergulho não são mais do que 30 minutos da ilha, desta forma os é possível fazer 2 saídas independentes por dia. O interessante é que não há necessidade de grandes grupos.

Cheguei a fazer uma saída sozinho, acompanhado somente pelo divemaster, e não fui cobrado mais por isso.

Segundo as operadoras, a temperatura média gira em torno dos 22ºC, apesar de ter marcando no meu computador, a 20 metros de profundidade, 16ºC. Um tanto frio para quem está acostumado com mergulhos na Laje de Santos ou Ilha Grande. Com essa temperatura seria recomendável roupa semi-seca de 7mm, mas todas as operadoras oferecem conjuntos peça única com 5mm, então recomendo levar próprio material ou ir preparado para passar um friozinho básico…

Não temos presença de corais (a essa latitude, entre 39º 43’ e 36º 55’ norte, já não se encontram), mas vemos uma grande quantidade de peixes multicoloridos (papagaios, bodiões e donzelas-das-rocas), nuvens de alevinos e muitos invertebrados. Polvos vemos com muita frequência, em todos mergulhos.

Em alguns pontos podemos encontrar grandes garoupas e cheguei a observar, à distância, um merote e uma tartaruga.

Não há aquela abundância de vida que encontramos em destinos como Cuba, Cozumel ou Bonaire, mas é um mergulho diferente do que vemos frequentemente.

Pela origem vulcânica das ilhas, temos grandes grutas e calhaus, então o visual é muito agradável. A visibilidade da água me decepcionou um pouco. Apesar de ter alcançado os 15/18 metros, havia muita suspensão o que dificultava boas imagens grande-angulares (também sou um fotógrafo / cinegrafista sub compulsivo), então não consegui boas tomadas.

 Dicas importantes

  • Em Lisboa, nas agências de viagens encontramos pacotes para turismo normal a partir de 350 euros (4 dias em uma única ilha) até 800 euros (10 dias em 3 ilhas). Não consegui achar pacotes específicos de mergulhos, mas há inúmeras operadoras em São Miguel e 3 em Fayal. Mas todas as ilhas tem algum  suporte para mergulhadores.

  • Não existe período melhor para o mergulho, mas é recomendado o verão europeu (Julho a Setembro). Apesar dos preços serem mais salgados, a temperatura é mais amena.

  • Os custo médio de cada uma das saídas é de 35 euros sem equipamento ou de 50 euros com todo equipamento. Em algumas operadoras é possível fechar pacotes mais em conta dependendo da quantidade.

  • Muito cuidado com excesso de bagagem. Tanto a TAP como a Sata, que fazem o percurso Lisboa-Açores-Lisboa, são extremamente chatas com peso das malas. Para se ter uma ideia, pagamos cerca de 50 euros na volta de Fayal (5 quilos à mais) em um avião com 15 passageiros. O peso máximo é de 20Kg (já que é voo domestico, contra os 32Kg do voo internacional).

  • Vale a pena ver se a quantidade de mergulhos compensa o trabalho de levar todo equipamento. Com certeza vale levar pelo menos uma roupa mais quente.

  • Site com diversas informações: DRT Açores

Rogério Gonçalves Velasco
Dentista como formação, mergulha desde 2003 e é mergulhador avançado pela PDIC e fotógrafo / cinegrafista sub.