Mergulhando nos naufrágios do Ceará

Foto: Rafael Demôro

Fortaleza, 7 de outubro de 2005, 8h da noite. Todos estão reunidos na casa de um companheiro de mergulho fazendo os últimos preparativos para a viagem de 150 km até a cidade litorânea de Fortim-CE.

Para mim, mergulhar em um naufrágio onde nunca havia mergulhado antes, não me deixa apenas entusiasmado, simplesmente tira meu sono de tanta ansiedade.

Chegamos à pousada em Fortim, e fomos após o jantar, nos recolhemos para repousar algumas horas antes de madrugarmos. O horário de saída era um fator crucial para a operação, pois o barco alugado saía da barra de um rio e para isso precisávamos pegar o estofo da maré.

Depois de subirmos o ferro, uma hora de navegação até o primeiro naufrágio. Por sorte o vento, que era intenso, deu uma trégua esta manhã. Após uma hora relativamente tranquila de navegação, chegamos ao primeiro naufrágio, o Cisne Branco.

Na popa dele havia uma bóia deixada pelos pescadores locais, usei-a como referência. Chegando aos 15 metros de profundidade, com visibilidade entre 7 e 10 metros, iniciei a exploração, onde puder perceber a existência de diversos tipos de peixes habitando o local.

Quanto ao estado em que se encontra o Cisne Branco, ele está praticamente todo enterrado, principalmente seu bombordo. Na popa, pode-se distinguir claramente a hélice e o motor onde habitam várias moréias e algumas lagostas.

Seguindo por estibordo passando por um manzua, artefato utilizado para a pesca da lagosta recentemente abandonado, chega-se à proa onde podem ser encontrados algumas correntes e caixotes de metal. Ao redor, várias pontas de metal repletas de corais emergem da areia, denunciando uma riqueza enterrada. Com 35 minutos de fundo retornamos à superfície, onde todos já nos aguardavam para que fôssemos ao segundo ponto de mergulho do dia.

Mergulho no Macau

Segundo os pescadores, o Macau possuía mais ou menos 100 metros de comprimento e estava sendo rebocado para reparos quando se incendiou e naufragou, onde nos últimos instantes na superfície, uma grande onda o pegou por estibordo e o virou, permanecendo assim até hoje. Somente a meia nau há uma rachadura que permite uma breve penetração.

Iniciado o mergulho pela popa do naufrágio, a visibilidade girava em torno dos 15 metros, permitindo uma boa visualização de seus lemes no começo da descida. Chegando ao fundo, 17 metros, comecei contornando a chata por bombordo.

Alguns buracos possibilitam a visualização de seu interior, onde percebemos uma fauna marinha muito rica. Depois de uma passada pela proa, já a estibordo e por uma rachadura vertical à meia nau, dei de cara com quatro tubarões lixa alinhados lado a lado, de dois a três metros de comprimento.

Também à estibordo, um pouco mais próximo da popa, há outra rachadura horizontal de uns 30 metros de comprimento onde se pode entrar e percorrê-lo sem comprometer a segurança, e um pouco mais à frente, em outro buraco, esbarramos um mero de uns 30 Kg olhando para nós com uma indiferença, e logo partiu para outro cômodo de sua moradia cheia de lagostas, que chegam à enfeitar o ambiente

Quando chegamos à superfície, o mestre da embarcação já se preparava para partir, pois necessitava da luz do dia para entrar na barra do rio. Após a partida, para a aflição de alguns, um imprevisto com o motor nos deixou à deriva durante uma hora, o que necessitou de um pouco mais de atenção na entrada da barra.

Posteriormente já em terra, depois de mais dos imprevistos chegamos à pousada para um banho, excelente refeição, e pegar a estrada para Fortaleza.

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.