Mergulho de Praia X Correntes de Retorno

Praia com correntes de retorno - Foto: Google Earth

Parece montagem de Photoshop, mas infelizmente não é. A imagem acima mostra claramente três correntes de retorno em uma praia do Rio de Janeiro. Isso não é um aspecto que ocorre todos os dias, mas acontece de vez em quando e depende de alguns fatores.

A imagem foi captada por um satélite e mostra como as correntes de retorno atuam nas praias, o que pode ser um problema para mergulhadores que estejam realizando um mergulho não embarcado, isto é, saindo de praia.

Não é incomum escutarmos pessoas comentando que tiveram dificuldades em voltar para a areia da praia, por haver uma corrente puxando em direção ao alto-mar. Normalmente, essas correntes afastam ainda mais o banhista da areia, deixando-o em desespero total.

A primeira coisa que se deve fazer em uma situação dessas é ter calma.

Antes de explicar em detalhes, vamos compreender porque esse fenômeno acontece.

A imagem acima mostra o sentido das correntes de retorno em uma praia

Correntes de Retorno: O que são e como surgem ?

Elas podem ser definidas como um refluxo do volume de água que retorna da costa em direção ao mar, em virtude da força gravitacional.

É conhecida também como maré de retorno, rip current, lagamar, repuxo ou simplesmente vala, devido ao canal rompendo o banco de areia criado pelo escoamento da água.

Apesar das correntes de retorno existirem independentemente da força das marés, elas podem intensificar o perigo das correntes de deriva, em especial na maré baixa.

A velocidade do fluxo da água retornando ao mar pode variar entre 0,5 m/s até 3,5 m/s, o que é muita coisa para que um ser humano consiga nadar no sentido contrário., e pior ainda, para um mergulhador equipado com equipamento autônomo.

As correntes de retorno podem variar em tamanho, largura, profundidade, forma, velocidade e potência. São formadas da seguinte maneira: Quando as ondas quebram, acabam empurrando a água acima do nível médio do mar, e uma vez que a energia dessa água é despendida, a água que ultrapassou aquele nível médio é empurrada de volta pela força da gravidade.

Quando a água empurrada retorna, mais ondas podem continuar a empurrar mais água acima daquele nível médio, criando o efeito de uma barreira transitória (temporária). A água de retorno continua a ser empurrada pela gravidade e procura o caminho de menor resistência, podendo ser um canal submerso na areia ou a areia ao lado de um quebra-mar ou píer, por exemplo.

Como a água de retorno se concentra nesse canal, ela se torna uma corrente e se move em direção do mar. Algumas correntes de retorno terminam próximas à praia, mas há casos mais raros, em que elas terminam a centenas de metros de distância da areia da praia.

É importante notar que as ondas não quebrarão sobre um canal submerso. Além disto, a força de uma corrente de retorno movendo-se para dentro do mar num canal, tende a diminuir a potência das ondas que entram.

Identificando uma corrente de retorno

  • Água marrom e descolorada, devido à agitação da areia do fundo, causada pelo retorno das águas;
  • Água mais fria após a linha de arrebentação, significando o retorno de águas mais profundas;
  • Ondas quebram com menor frequência ou nem chegam a quebrar, devido ao retorno das águas e à maior profundidade no local;
  • Local onde ocorre a junção de duas ondas com sentidos opostos;
  • Pequenas ondulações na superfície da água, em virtude da água em movimento;
  • Espuma e mancha de sedimentos na superfície, além da arrebentação, onde a vala perde a sua força;
  • Ocupação de uma faixa maior de areia, devido ao maior volume de água, provocando uma sinuosidade ao longo da praia (boca da vala);

 

Saindo de uma corrente de retorno

Mergulhar em uma praia onde esteja ocorrendo uma corrente de retorno, seria criar um risco desnecessário, além do que, muito provavelmente a visibilidade na região deverá estar comprometida. O grande problema, é que mergulhar saindo de praia e alcançando baixas profundidades, podem fazer com que você mergulhe por horas, como é o caso dos mergulhos na Laje do Recreio, no Rio de Janeiro, o que abre a possibilidade de se deparar durante o regresso, com uma condição adversa do mar.

Ao retornar do mergulho e havendo dificuldades para alcançar a praia, o aspecto essencial antes de mais nada, é ter calma, pois sem ela, você terá mais problemas.

Se você for parar em uma vala, normalmente a corrente de retorno irá puxá-lo em direção ao mar, então, você deve nadar na diagonal e em sentido da corrente até conseguir escapar dela.

Imagine que a corrente esteja levando você no sentindo contrário ao desejado. Então nade à favor, porém, para um dos lados. Você perceberá que não estará sendo levado em direção ao mar como antes, indicando que você conseguiu sair dessa corrente.

Se houver ondas, elas facilitarão a saída do mar e você conseguirá alcançar a areia mais facilmente.

Tenha em mente que a primeira coisa é ter calma, nadar na diagonal e sair da corrente, pois certamente, nenhuma corrente de retorno o levará para longe da praia e você conseguirá se livrar do problema se proceder de forma correta.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.