Mergulho em Água Doce

Foto: Roberto Luz (Bob Light)

Normalmente o mergulho é associado ao mar. Mas o mergulhador que só mergulha em água salgada está certamente perdendo diversas oportunidades de mergulhar, algumas vezes em pontos que são frequentemente citados entre os melhores mergulhos do mundo. O mergulho em águas doces é bastante popular nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, começando agora a ser descoberto no Brasil.

Locais como rios, lagos, represas e pedreiras podem se mostrar excelentes pontos de mergulho. Muitas vezes eles estão mais próximos dos grandes centros populacionais (evitando longas viagens para se chegar ao mar) ou possuem atrativos especiais, como visibilidades surpreendentes ou naufrágios em perfeito estado (já que a água doce permite uma melhor conservação dos objetos). Na pior das hipóteses, lagos próximos de casa podem ser excelentes locais para treinamento.

Nos Estados Unidos os Grandes Lagos (junto à fronteira com o Canadá) estão entre os locais favoritos para mergulho em naufrágios, já que desde o século passado são uma das mais importantes vias de navegação daquele país e estão em uma região cujo clima favorece acidentes com embarcações (são centenas de naufrágios catalogados e ainda muitos por serem descobertos). A região central da Flórida é um verdadeiro oásis para os mergulhadores especializados na exploração de cavernas. Bem no centro dos Estados Unidos encontra-se um dos mais sofisticados resorts dedicados ao mergulho: a mina de Bonne Terre.

Países como a Suíça formam a maioria de seus mergulhadores em água doce; até mesmo a antiga União Soviética explora turisticamente (dentro do possível…) o mergulho em água doces, já que em seu território encontra-se o lago Baikal (o maior do mundo, com mais de 600 km de extensão) que abriga mais de 2.500 espécies biológicas diferentes, das quais 1.500 são endêmicas (só podem ser encontradas naquele local).

No Brasil, o principal ponto de mergulho em águas doces é a região de Bonito, no Mato Grosso do Sul. O mergulho em furnas e pedreiras (e algumas vezes em cavernas) é relativamente comum nos estados centrais, como Goiás e Minas Gerais e algumas represas possuem até mesmo restos de cidades submersas, como na represa de Igaratá em São Paulo.

Geralmente iniciado a partir de terra (dispensando o uso de um barco), o mergulho em águas doces normalmente oferece menos dificuldades que o mergulho no mar. No entanto cuidados especiais são necessários com relação à altitude, visibilidade, correntes, temperatura e poluição, já que estes fatores apresentam faixas de variação muito maiores que as encontradas no mar.

Altitude

O ponto mais importante a ser observado é com relação à altitude. As tabelas de descompressão normalmente utilizadas (como as baseadas nas tabelas da marinha norte-americana) foram criadas tomando como base o fato de o mergulhador encontrar no retorno à superfície uma pressão ambiente de 760 mmHg (pressão atmosférica normal ao nível do mar). No entanto, a maioria dos lagos e represas encontram-se bem acima do nível do mar, muitas vezes a mais de 1.000 m de altitude. Com o aumento da altitude, a pressão atmosférica diminui gradativamente (cerca de 8 mmHg a cada 100 m), atingindo 380 mmHg a 5.500 m de altitude (metade da pressão ao nível do mar). Isto obriga os mergulhadores a realizarem ajustes nas tabelas durante o planejamento do mergulho. Ignorar estes ajustes em um mergulho relativamente fundo em um lago a 1.500 m de altitude significam um caso de doença descompressiva na certa !

Normalmente este ponto é discutido em um curso de especialidade de mergulho em altitude, um treinamento essencial para aqueles que pretendem mergulhar a mais de 300 m de altitude. Para aqueles que usam computadores, o melhor é consultar o manual de instruções. Alguns modelos se ajustam automaticamente às variações de altitude, alguns exigem que o mergulhador informe a altitude em que os mergulhos estarão sendo realizados enquanto que outros simplesmente não podem ser utilizados acima do nível do mar.

Para os que usam tabelas, o princípio básico é corrigir a profundidade real do mergulho de modo a criar uma “profundidade fictícia”, utilizada para os cálculos com as tabelas. Como a profundidade fictícia é maior que a real, os limites de não-descompressão são reduzidos e os tempos de descompressão aumentam, compensando o efeito da pressão reduzida na superfície. A profundidade fictícia pode ser calculada através da seguinte fórmula:

Formula-Agua-Doce

onde PF é a profundidade fictícia (utilizada somente para as tabelas), PR é a profundidade real do mergulho e ALT é a altitude do local de mergulho. Todos os valores devem ser fornecidos em metros.

Exemplo: Uma dupla de mergulhadores deseja realizar um mergulho não-descompressivo em um lago com 18 m de profundidade a 1.600 m de altitude. Qual tempo de fundo limite para não-descompressão deve ser adotado ?

Resposta: Utilizando-se a profundidade real de 18 m e a altitude de 1.600 m, a fórmula acima gera uma profundidade fictícia de 21.8 m (22 m). Na tabela da marinha norte-americana, o limite não-descompressivo para esta profundidade (utilizando 24 m) é de 40 minutos, contra 60 minutos para 18 m – uma diferença de 20 minutos !

Visibilidade

Outro passo é conhecer mais sobre mergulho em águas com pouca visibilidade. Os rios da região de Crystal River (EUA) possuem em algumas épocas do ano uma visibilidade de cerca de 100 m e na região de Bonito é comum encontrar águas com mais de 40 m de visibilidade. No entanto, muitas vezes a visibilidade em lagos, represas ou rios com muito sedimento pode variar entre 5 m e absolutamente zero (pergunte a que já mergulhou na represa de Igaratá em um dia ruim…). Todas as agências certificadoras oferecem cursos de especialidade para mergulho com visibilidade limitada e a maioria inclui boas noções de navegação subaquática, muito útil em algumas situações.

Visibilidade boa não é problema para ninguém, mas no Brasil é muito comum o mergulho em águas com pouca visibilidade e é importante estar preparado para isto. Todas as agências certificadoras oferecem cursos de especialidade para mergulho com visibilidade limitada e a maioria inclui boas noções de navegação subaquática, muito útil em algumas situações.

A principal causa de problemas de visibilidade é a existência de sedimento em suspensão na água. Isto pode acontecer em rios (principalmente nos de maior volume) ou em represas, onde o lodo do fundo é facilmente levantado por mergulhadores menos experientes. No caso dos rios com correntes não há muito que fazer, mas em águas paradas o principal cuidado é ao nadar, evitando-se que o movimento das nadadeiras levante o lodo do fundo. Para isto, valem as técnicas do mergulho em cavernas: manter sempre as pernas acima do tronco (inclinando-se ou dobrando os joelhos) ou nadar utilizando movimentos laterais das pernas ao invés do movimento tradicional.

Em águas com muita suspensão, lanternas são praticamente inúteis, já que acabam ofuscando o mergulhador com a luz refletida nas partículas em suspensão.

Correntes

O mergulho em rios com correnteza exige cuidados adicionais, já que a corrente pode jogar o mergulhador contra obstáculos submersos ou levá-lo para uma posição onde a saída da água seja difícil ou até mesmo impossível. Antes de iniciar o mergulho, avalie a intensidade da corrente; muitas vezes não é possível conduzir o mergulho contra a correnteza e é preciso planejar um local de saída diferente do de entrada.

Em geral, as correntes são mais fortes na superfície e no centro dos rios, sendo mais fracas no fundo e junto às margens. Caso o mergulhador seja apanhado em uma corrente, o importante é não perder a calma e nadar em direção à margem buscando um ponto de saída, já que normalmente é impossível nadar contra a corrente.

Poluição

A poluição em rios, lagos e represas é muito mais comum que a poluição do mar, principalmente devido ao menor volume de água. Infelizmente, diversas indústrias ainda despejam produtos químicos em nossos rios e um mergulho em águas contaminadas pode ser bastante perigoso ou até mesmo fatal sem o equipamento adequado.

Antes de iniciar um mergulho em um local desconhecido, verifique com as autoridades locais o estado da água e se existem na região (ou rio acima) indústrias químicas ou estações de tratamento de esgotos que possam contaminar química ou biologicamente a água. Na dúvida, não mergulhe !

Outras dicas

Em lagos e represas, antes de entrar na água observe o relevo da superfície, muitas vezes ele é uma boa indicação do tipo de fundo que se irá encontrar. Encostas íngremes geralmente significam lagos com laterais íngremes; vales podem dar uma idéia da profundidade máxima do local.

Mais que no mar, deve-se tomar cuidado com o tráfego de barcos, em especial de lanchas rápidas e jet-skis (comuns em represas). Bóias de sinalização podem ajudar, mas seu significado normalmente não é conhecido aqui no Brasil e é importante que ela não esteja presa ao mergulhador e sim levada por ele (nossa bóia já foi recolhida como um “achado” por uma lancha, com cabo e tudo).

Por fim, vale uma observação sobre lastreamento: como a água doce possui uma densidade 2.5% menor que a salgada, o mergulhador pode retirar cerca de 20% do peso do seu cinto de lastro normalmente utilizado no mar para continuar com flutuabilidade neutra.

Pedro Paulo Cunha

É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco.

Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI.

Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society.

É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.