Mergulho no Gelo – Uma aventura nos Grandes Lagos

Nosso conceito de férias de verão era um pouco diferente, algo como uma praia deserta do Caribe ou no máximo uma estação de esqui, onde me via deitado em um tapete de pele, de frente para uma lareira e bebendo licor em boa companhia. Mas, seguindo uma tradição de alguns anos de férias bem diferentes das consideradas “normais”, lá estávamos a 20°C abaixo de zero, com 50 kg de equipamento nas costas, com os pés enfiados em um pequeno buraco feito (com muito suor, diga-se de passagem) com mais de 50cm de gelo, sobre um lago ao norte dos Estados Unidos.

“Tudo pronto ? Vamos ?”, perguntava nosso instrutor. “Tudo bem. Apenas a última pergunta – O que é que estamos fazendo aqui ?”

Tudo começou na feira da DEMA, a associação dos fabricantes de equipamento de mergulho dos Estados Unidos em janeiro de 1990, durante uma conversa com Pete Butt, amigo de vários anos e especialista em mergulho em cavernas na Flórida.

Conversando sobre nossa intenção de organizar uma expedição de mergulho para fotografar as baleias no sul da Patagônia e outra na Antártida, Pete disse “Preciso lhes apresentar meu irmão Bob. Ele é o dono da Divepoint Scuba Center, uma escola de mergulho e especialista em mergulho no gelo. Talvez a experiência dele possa ser útil para vocês…”.

“Mergulho no gelo ? Por que ? Bem, por que não ?” foi a resposta.

Quatro dias depois, estávamos iniciando uma viagem de mais de 3.000 km por estradas congeladas e nevascas dignas de um filme catástrofe em direção à fronteira do Canadá. A viagem de carro por si só já daria um livro de aventuras. Acabamos indo parar em Plover, uma cidade com 3.000 habitantes em Wisconsin, um estado americano às margens dos grandes lagos, famoso por sua produção de leite, mas certamente, desconhecido pelos seus locais de mergulho.

Logo descobrimos que o mergulho no gelo é uma atividade relativamente comum entre os mergulhadores experientes dos Estados Unidos, principalmente na região norte e, por mais incrível que isto possa parecer, até na ensolarada Califórnia.

A explicação é simples: além do desafio (que leva o homem a realizar as proezas mais absurdas), o mergulho sob o gelo oferece águas mais limpas que as encontradas normalmente, pois o frio impede o crescimento de plantas e a camada de gelo evita que o vento agite a água e levantando sedimentos do fundo.

A visibilidade pode alcançar os 50m. Os fotógrafos encontram oportunidades únicas para suas fotos e os mais inquietos podem tentar atividades como o “passeio na lua” (andar de cabeça para baixo sob a placa de gelo) e o “esqui submarino” (quando, puxado por uma corda, o mergulhador esquia sob o gelo).

Os locais são praticamente ilimitados. Só em Wisconsin são mais de 8.000 lagos. Afinal, nem todos os mergulhadores podem bancar uma viagem para o Caribe durante o inverno ou esperar até o próximo verão – os mergulhadores mais ativos e sem recursos acabam ficando malucos nos cinco meses de abstinência.

Tudo que é feito debaixo d’água no verão pode ser feito no inverno, mas algumas pessoas mergulham no gelo a trabalho, como o próprio Bob Butt e outros mergulhadores da região que são voluntários para ajudar o corpo de bombeiros local a resgatar as vítimas de acidentes sobre lagos congelados, muito frequentes no inverno quando os lagos são usados para a patinação, pesca, corridas de carros e snowmobiles).

A maneira mais simples e segura para mergulhar no gelo é um curso de especialidade. O candidato só precisa provar que possui uma boa experiência de mergulho; no caso dos cursos PADI, o mínimo exigido é o curso avançado. Quanto mais experiência melhor, principalmente em águas restritas como naufrágios e cavernas. O curso tem pelo menos três mergulhos com 4h de aulas teóricas, onde o aluno aprende sobre a estrutura das camadas de gelo, técnicas de movimentação na superfície, efeitos do frio, procedimentos de emergência e, e claro, as técnicas de mergulho e o uso de equipamentos específicos.

Os principais riscos envolvidos no mergulho no gelo são derivados do frio e do fato de se estar mergulhando em um ambiente sem acesso direto à superfície. A aula de primeiros socorros dá uma ênfase especial para a hipotermia, a queda de temperatura do corpo causada pelo frio e que pode ser fatal. Sem proteção apropriada, após 10 minutos de exposição na água gelada, uma pessoa comum fica inconsciente e morre em algumas horas se não for submetida imediatamente a um tratamento adequado.

Sem o acesso direto à superfície (como sob o gelo ou em cavernas ou naufrágios), um acidente sem maiores consequências em mar aberto, pode ser fatal. Basta imaginar uma falta de ar a 3m de profundidade ? No mar, a situação é facilmente é contornada com uma subida livre, mas sob o gelo, é impossível soltar o cinto de lastro, subir e respirar.

Equipamentos

O equipamento usado possui algumas diferenças com relação ao de mergulho autônomo comum. Ao invés da roupa úmida (wetsuit), usa-se uma roupa seca (drysuit), que mantém uma camada de ar entre o corpo do mergulhador e a água fria.

A estanqueidade é conseguida através de selos de látex no pescoço, nos pulsos e no rosto, de botas e luvas acopladas à roupa e de um zíper a prova d’água nas costas. Embora o ar conduza 25 vezes menos calor do que a água, a roupa de baixo também é muito importante. Várias camadas de roupas fornecem a proteção necessária: primeiro, calça e camisa de flanela, malha e meia de lã e por fim um macacão de Thinsulate (material especial para roupas de frio).

Sob o gelo, usando uma roupa úmida grossa, bem ajustada e previamente cheia de água quente, o mergulho raramente passa de 15 minutos; com a roupa seca, o limite é o suprimento de ar e sendo possível realizar vários mergulhos no mesmo dia.

Os reguladores são selecionados com muito cuidado, pois com a baixa temperatura, é grande o risco de congelamento das válvulas do primeiro e do segundo estágio, o que pode bloquear o fornecimento de ar. Mesmo assim, basta alguém molhar um regulador e apertar seu botão de purga fora d’água para que ele congele. O descongelamento leva pelo menos 1h. Em cada mergulho, leva-se pelo menos o dobro do número de reguladores necessários o que um mergulho normal.

Riscos

Existe uma grande ênfase na segurança. Além dos problemas do frio, existe o risco de ficar preso sob o gelo, pois a única porta de saída é o buraco de entrada. Por isso todo mergulhador é preso permanentemente a uma linha de vida feita com cabo de nylon 3/8″ com 150m de comprimento, que além de evitar que o mergulhador se perca, permite a comunicação com a superfície. A lanterna também é um acessório importante, pois muito pouca luz penetra pelos trechos escavados na neve.

Os mergulhos

No dia do primeiro mergulho, éramos uma equipe com mais de 10 pessoas – 3 brasileiros congelados, cinco mergulhadores(as), um repórter do jornal local, um cachorro e alguns goffers (nome dado aos amigos curiosos que ficam em volta do buraco servindo como carregadores e mensageiros, por sinal bastante úteis).

Foi preciso três furgões para acomodar todo o equipamento e, após uma rápida viagem, alcançamos a beira de um lago. Após a verificação se a camada de gelo era forte o suficiente para aguentar o peso dos veículos, iniciamos um verdadeiro rallye pelo gelo coberto de neve, com direito a atolamentos e derrapagens, até o centro do lago. O equipamento foi descarregado e começamos com a parte mais difícil da aventura: abrir o buraco.

Usando uma broca especial para gelo, abrem-se três furos formando um triângulo com cerca de 2 metros de lado (o formato triangular é o ideal, pois facilita a entrada e a saída, sendo capaz de acomodar até três mergulhadores simultaneamente). Com pás nas mãos, todos ajudam a remover a neve de volta do ponto de mergulho, criando uma “clareira” de pouco mais de 5m de diâmetro. A maior surpresa foi quando Bob nos entregou duas serras manuais para unirmos os furos e abrirmos o buraco. “Pensamos que vocês usassem motosserras para cortar isto !”, foi o nosso comentário.

“Não, as motosserras ficam para o futuro. Vocês vieram de muito longe e tem que aprender a coisa da maneira mais difícil !”, respondeu Bob rindo.

E lá fomos nós, suando a -25°C e serrando, serrando e serrando. Nunca poderíamos imaginar que cortar 50cm de gelo fosse tão difícil ou que estaríamos apenas de camiseta naquele frio… Depois de 45 minutos de trabalho, o plug (parte serrada) já está solto e pode ser empurrado para debaixo da camada de gelo, pois é impossível puxá-lo para fora. A última etapa da preparação é cavar longas setas na neve apontando para o buraco; elas servem como último recurso no caso de um mergulhador se percar. Olhando do fundo, ele só vê a luz do sol nos locais onde a neve foi retirada, indicando o caminho da saída.

Na hora colocar o equipamento, todos buscam o abrigo dos carros, onde o aquecimento é um conforto praticamente indispensável na hora de trocar de roupa. Ficam na água dois mergulhadores de cada vez, enquanto que um terceiro, completamente equipado, espera na borda para um caso de emergência. Cada mergulhador possui seu “tender”, um mergulhador experiente que permanece na superfície cuidando da linha de vida. O tender é o “dupla” do mergulhador, sendo responsável pela sua segurança, pois é muito comum os mergulhadores se separarem debaixo do gelo e para evitar enroscos das linhas.

O primeiro contato com a água gelada é uma experiência traumatizante, é como enfiar o rosto em uma pia cheia de pedras de gelo. “Frio, frio, frio. Muito frio.” é o comentário sobre os dois primeiros minutos, mas após alguns instantes a sensação de dor passa e já é possível raciocinar novamente.

É hora de submergir e a água está a 3°C, bem mais quente que a superfície. Desinflando o colete, penetra-se em um mundo diferente, com a luz difusa criando reflexos no gelo. Olhando para cima, a visão é fantástica: a linha de vida mostra o caminho para a única saída, um buraco de luz no meio da escuridão, apontado por setas gigantes, com mais de 50m de comprimento.

O primeiro mergulho serve para se acostumar com a linha de vida, com a troca de sinais com o tender e, principalmente, com a roupa seca.

No segundo mergulho, perde-se algum tempo observando o fundo. Como na maioria dos lagos, existe pouca vida e o fundo é, obviamente, diferente dos paraísos de coral do Caribe. As principais atrações são objetos afundados propositalmente para atrair os mergulhadores no verão, como automóveis, espelhos, dentre outros.

Observando-se as tocas com cuidado, achamos alguns peixes em um estado parecido com hibernação, como que aguardando o degelo para serem religados. Nunca uma truta foi tão cooperativa com os fotógrafos, permitindo que fosse colocada na posição mais adequada para uma boa foto !

Mas a grande diversão do mergulho no gelo não está no fundo, mas sim, próxima à superfície. A camada de gelo é um cenário fantástico para os fotógrafos, semelhante à um teto de cristal, principalmente próximo ao buraco, onde há mais luz.

Outra coisa que chama a atenção é a movimentação das bolhas de ar exaladas pelos mergulhadores, que se movimentam pela calota de gelo até encontrar o ponto mais alto, formando bolsões que refletem as imagens dos mergulhadores. Quando o tédio chega, é hora do “passeio na lua” e do “esqui submarino”. No “passeio na lua”, o mergulhador infla sua roupa e coloca os pés no gelo, ficando de cabeça para baixo. Após algum tempo, mais acostumado a nova posição, já é possível caminhar e levar os primeiros tombos, em câmera lenta. Como o gelo é muito liso e com a roupa inflada a flutuabilidade é muito grande, é fácil escorregar e “cair para cima”.

Com a técnica do “passeio na lua” dominada, o passo seguinte é o “esqui submarino”, bem mais difícil de ser aprendido. Com a linha de vida esticada e o mais longe possível do buraco, o mergulhador fica novamente de cabeça para baixo sob o gelo e dá um sinal a seu tender. Na outra ponta da linha, pelo menos quatro pessoas começam a puxá-la, dando ao mergulhador a sensação de estar esquiando debaixo d’água e de cabeça para baixo.

Sem dúvida é uma das experiências mais malucas pela qual se pode passar, principalmente nas quedas, quando não há como avisar a equipe de superfície e o mergulhador é arrastado até o buraco. Invariavelmente, na primeira tentativa o tombo é imediato e não há como se soltar da linha. Mas no final de alguns mergulhos é possível esquiar em pé até o buraco. A parte ruim, é ficar entre os quatro que puxam o mergulhador, sendo um excelente exercício a -25°C.

Quando o manômetro indica 140 BAR, é hora de encerrar o mergulho (o terço restante do suprimento de ar é reservado para uma emergência). O tender recolhe a linha de vida e, de volta ao buraco, é hora de retirar o equipamento pesado e correr para o carro para se trocar. Embora a roupa seca proteja o corpo, o rosto molhado exposto ao vento é um alvo fácil para o “frost-bite”, espécie de queimadura provocada pelo vento frio e que pode ser bastante grave.

Após a troca de roupa e tomar um chocolate quente dentro do carro aquecido, outra surpresa: hora de voltar ao trabalho, servindo como tender para os outros mergulhadores (isto se você não teve o azar de ser escolhido como mergulhador de segurança, o que significa mais uma hora a -25°C).

No final do dia, antes de sair da água, o último mergulhador amarra sua linha de vida ao plug, que é puxado de volta ao seu lugar e coberto de neve. O local então é sinalizado, para evitar que algum pescador ou piloto de snowmobile desavisado caia no buraco, pois um acidente pode ser fatal, e de acordo com a legislação de Wisconsin, o responsável por um buraco aberto no gelo é um sério candidato a seis meses de prisão !

Com todo o equipamento no carro e todos secos e aquecidos, é hora de voltar para casa e planejar o mergulho do dia seguinte.

Dicas

Para os interessados em experimentar o mergulho no gelo, a melhor época para ir ao norte dos Estados Unidos é entre janeiro e fevereiro, quando a visibilidade é máxima, embora os lagos estejam gelados desde o final de novembro até o final de março.

Um curso custa entre US$ 300 e 500, dependendo do número de mergulhos e do equipamento alugado.

Sem dúvida, o mergulho no gelo é uma experiência imperdível e, no mínimo, serve para nunca mais sentir frio nas mãos ao procurar uma cerveja no balde de gelo.

Pedro Paulo Cunha
É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco. Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI. Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society. É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.