Mergulho no paquete inglês Guadiana

Foto: Rafael Esteves

Era um domingo, dia 13 de fevereiro, quando chegamos em Caravelas, uma pequena cidade ao sul do Estado do Bahia, para curtir três dias de mergulhos em Abrolhos, mas infelizmente, um vento fora de época de 30 nós insistia em soprar e o embarque acabou sendo adiado.

Conseguimos então embarcar somente na terça-feira, com céu claro e sem vento.

Após 3 horas de navegação, já estávamos no arquipélago para a sequência de três mergulhos do primeiro dia. Devido aos fortes ventos dos dias anteriores, a visibilidade estava um pouco comprometida para os padrões de Abrolhos, mas fizemos a Língua da Siriba e os Chapeirinhos da Sueste, e antes do jantar, um noturno no Mato Verde coalhado de tartarugas.

Nessa noite o vento aumentou, amanhecemos com céu encoberto, e nuvens ameaçadoras apareceram. Mesmo assim, após o desjejum, navegamos rumo norte, n a intenção de fazer o primeiro mergulho do dia no mais novo naufrágio encontrado na região de Abrolhos, o Guadiana.

Navegamos cerca de meia hora, com o vento aumentando e estando a menos de 1 milha do objetivo, acabamos dando meia volta e retornamos para o abrigo da Ilha Santa Bárbara. Ventou o dia todo, com rajadas chegando as 35 nós, segundo o rádio farol. Com isso, logo o abrigo no Mato Verde se encheu de barcos, tanto de turismo como de pesca, mas não perdemos o dia, pois mergulhamos “escondidos do vento” no costão do farol, contando com a presença de grandes badejos e as cavernas da Ilha Siriba.

Na tarde de quarta-feira fizemos o tradicional passeio entre os Atobás na Ilha Siriba, acompanhados pelo guarda parque e pelos estagiários do IBAMA. O mais emocionante, foi o desembarque na Ilha de Santa Bárbara, pois conseguimos a autorização da marinha somente no dia anterior ao embarque, e não havia certeza se a guarnição seria informada a tempo. Fomos recebidos pelo sargento Ítalo que nos apresentou as instalações, geradores, cabine meteorológica, estação de rádio e o farol. Pudemos subir e conhecer toda sua história, e com o cair da noite, tivemos a honra de acendê-lo, faina realizada pela Keiko com auxílio do Cleoson, filho de ex-faroleiro, que serviu em Abrolhos na década de 50.

Combinamos que, se amanhecesse com menos vento, sairíamos bem cedo para tentar mergulhar no Guadiana de novo, e assim foi feito. As 5hs da manhã, fomos acordados pelo barulho do compressor, e as 6:30h, já estávamos no fundo com a proa do naufrágio Guadiana surgindo à nossa frente, com suas duas âncoras penduradas no escovém.

Como havíamos praticamente decorado o croqui feito a menos de um mês por um instrutor, a navegação pelo naufrágio foi bastante tranquila.

A proa se destaca bem dos chapeirões, com os cabeços de amarração e as âncoras (Hall). O convés cedeu, expondo suas as correntes. Neste ponto existe algumas escadas e um “alçapão” que parece descer um ou dois andares, bem junto a proa. Chegamos a fotografar uma garrafa que fora deixada de forma “arrumada” por algum mergulhador que passou por ali.

Muitas chapas, guinchos, a entrada do porão, e chegamos as máquinas e caldeiras, que se destacam de todo o resto. Seguindo para a popa, são visíveis outros dois porões, e uma grande hélice reserva presa as chapas. A profundidade máxima alcançada durante este mergulho, foi de 23 metros.

Uma grande estrutura se projeta na horizontal, que pelas informações do Maurício, seria o volante do leme. Contornamos a popa, que está tombada de boreste, e encontramos uma imensa hélice e o leme junto ao outro chapeirão. Mais algumas fotos e começamos o retorno em direção à proa. No total, foram 40 minutos de fundo e uma emoção gigante de ter mergulhado em um navio recém descoberto e identificado, com quase 120 anos de história do que resta do Guadiana, e a particularidade de ser um dos primeiros a conhecê-lo de perto.

Neste mesmo dia, mergulhamos também no Rosalinda, que apesar da “concorrência”, não perdeu nem um pouco o seu charme.

Estiveram presentes na operação os mergulhadores, Cleoson, Daniel, Keiko, Pedrão, Ricardo, Sonia, Vader e o Hamilton, instrutor do catamarã Horizonte Aberto. Tenho certeza que os mergulhos em Abrolhos ganharam um reforço de peso com mais esse naufrágio.

Rafael Esteves

Rafael Esteves é natural de Campinas-SP, 35 anos. Formado em Análise de Sistemas pela PUC, mergulha desde de 1989. Master Instructor PDIC e mergulhador técnico pela GUE e AINTD.

É sócio proprietário operadora Captain Dive, que está completando 10 anos no mercado nacional, tendo iniciado os trabalhos na Ilha Grande como operadora, e hoje como Scuba Facility PDIC, recebeu o título de Centro de Treinamento Gold PDIC, por ter formado mais de 1000 alunos.