Mergulho noturno, equipamentos e dicas

Foto: Clécio Mayrink

Todo mergulho durante a noite é um excelente atrativo, diferenciando muito do mergulho diurno, pois a água e o visual das lanternas embaixo d’água, são um show especial. Muitos acreditam que mergulhar a noite possa ser perigoso, mas na verdade, essas pessoas não sabem o que perdem com a quantidade de vida que aparece durante os mergulhos noturnos.

Com o anoitecer, diversos tipos de seres marinhos saem de seus “esconderijos” para se alimentarem, muito provavelmente por não se sentirem tão vulneráveis com se estivessem durante o dia, podendo ser observados facilmente pelos mergulhadores. Outro ponto interessante, é a bioluminescência, que é a luz fria emitida por um organismo vivo, sendo resultado de uma reação química. E para os amantes de foto e vídeo-sub, excelentes imagens em close-up e macro poderão ser facilmente obtidas devido a grande quantidade de seres marinhos encontrados nos mergulhos.

Equipamentos

Assim como em outras especialidades, para o mergulho noturno existem alguns requisitos que devem ser observados pelo mergulhador, como procedimentos e equipamentos utilizados, lembrando é claro, que você já deverá ter cursado a especialidade de mergulho noturno com uma das certificadoras existentes no Brasil.

Vejam abaixo alguns pontos importantes:

Lanternas – O ideal é descer com 3 lanternas, sendo uma principal e duas “back-up” (reserva), pois se a lanterna principal apresentar alguma pane ou a bateria acabar repentinamente, você terá outras duas lanternas para utilizar.

Cyalumes e Luzes de Sinalização – Em relação aos cyalumes, que nada mais são do que pequenos bastões com dois elementos químicos líquidos que ao entrar em contato entre si, geram uma luz na cor esverdeada, facilitam a visualização tanto em cima quanto embaixo d’água. Particularmente não sou adepto a este item, mas algumas certificadoras aconselham seus alunos a utilizá-lo. Acho que os strobos são muito mais visíveis à noite, mesmo estando a longa distância. Para quem não sabe, os strobos são pequenos compartimentos em plástico resistente a água, que utilizando lâmpada xenon, emitem uma forte luz piscante a cada 2 segundos, iguais às luzes de sinalização dos aviões. Embaixo d’água, sua luz chega a ultrapassar facilmente os 100m de distância. Algumas embarcações de mergulho no exterior, costumam a colocar um strobo embaixo d’água, para que os mergulhadores saibam a direção em que está a embarcação.

Atualmente os Cyalumes estão deixados de serem utilizados, pois como funcionam a base de elementos químicos, este acabam poluindo o meio ambiente. Veja mais no artigo: Cyalume x Poluição do Meio Ambiente.

Carretilha – Infelizmente são pouco utilizadas pelos mergulhadores recreacionais, e na minha opinião, uma carretilha é sempre bem vinda. Quando mergulhamos em um local desabrigado e com a possibilidade de correntes repentinas, uma carretilha pode fazer diferença num retorno seguro ao barco, pois você poderá nadar exatamente pelo caminho inverso por onde você iniciou o mergulho. Lembrando sempre, de não amarrar o cabo da carretilha no cabo / âncora do barco, pois este poderá sair de sua posição para um reposicionamento e consequentemente subirá a âncora, levando junto, a sua carretilha.

Bússola – Este sim é um equipamento imprescindível, pois é a garantia de nadar na direção correta. Salvo, se você estiver próxima a um naufrágio, pois o campo magnético poderá afetar sua bússola e consequentemente alterando os resultados exibidos por ela. Uma bússola poderá ajudar em mergulhos com visibilidade reduzida ou quando estamos mergulhando em um local onde não tenha um paredão de uma ilha por exemplo, onde normalmente utilizamos este como referência submarina. Em fundos de areia, facilmente um mergulhador poderá se perder, por não haver uma boa referência no local, e a bússola é a garantia de saber a direção correta embaixo d’água.

Precauções e Dicas

Antes de sair para um mergulho noturno, você deve ter mais atenção em alguns pontos, como tábua de marés e correnteza, pois mergulhar em locais com variações repentinas de marés, pode ser um problema para os mergulhadores que estiverem na água, visto que, a orientação subaquática noturna requer mais experiência em navegação submarina. Durante o mergulho, você deve ficar atento ao ambiente como um todo, reparando nas formações submersas.

Antes de iniciar o mergulho, veja o ângulo em graus referente à ilha por exemplo, e decida que direção na bússola você e seus companheiros irão seguir, lembrando que de certa forma, o grau marcado na bússola, deverá estar invertido ao retornar ao barco. Uma dica é ficar de olho no manômetro. Utilize a regra de terços, onde você utiliza 1/3 da capacidade de seu cilindro para ir e 2/3 para o seu retorno.

Exemplo:

Se você desce com 200 BAR de pressão no cilindro e lembrando que você deve deixar 50 BAR para a reserva, logo, você terá 150 BAR para efetuar um mergulho com segurança. Inicie o mergulho na direção planejada até que seu manômetro diminua 70 BAR, pois os outros 75, será o que você utilizará para o retorno. Como a maioria dos manômetros indicam a pressão de 10 em 10 BAR, ignore os 5 BAR de pressão referentes a sua ida, deixando-o como segurança.

Início: 200 BAR

Utilize 70 para a IDA

Utilize 75 para a volta

Reserva: Você terá 50 BAR de reserva + 5 BAR ignorados da ida e a segurança ampliada.

  • Lembre-se que em mergulhos com correnteza e água fria, seu consumo de ar irá aumentar. No caso do frio, sentimos mais a sensação térmica enquanto retornamos até a embarcação, e deve-se ter atenção ao consumo para que ele não ultrapasse a quantidade de gás planejada para o retorno;
  • Havendo correnteza, mergulhe contra a mesma para retornar a favor dela. Podendo evitar um mergulho com correntezas, melhor, pois havendo um eventual problema, qualquer atitude a ser tomada à noite é sempre mais complicada;
  • Evite levar equipamentos em excesso. A noite é mais fácil perdê-los e mais difícil de reencontrá-los;
  • Você e seu dupla devem conhecer os sinais de comunicação. Isto não só facilita a comunicação embaixo d’água como traz mais segurança ao mergulho;
  •  Verifique o estado das pilhas de suas lanternas para evitar uma possível falta de luz durante o mergulho. Mergulhe sempre com pilhas alcalinas novas para se ter uma luz estável e durável;
  • Ao retornar ao barco, troque rapidamente de roupa para não haver perda de calor e acabar passando frio. Contrário ao que muitos pensam, ficar com a roupa de mergulho no barco, contribui muito na perda de calor corporal. Tire a roupa e se enxugue com uma toalha seca, e coloque uma roupa seca logo após. Para diminuir a sensação de frio, leve chocolate para repor as energias e um casaco, independente da temperatura do ar estiver quente ou se for verão, pois no mar à noite, o ar está sempre mais frio que em terra e sempre aparece um vento.

Indo mergulhar em um local desconhecido, obtenha o máximo de informações possíveis sobre o local, como profundidade, previsão do tempo, se há a possibilidade de uma corrente repentina, tráfego de barcos e etc. Um mergulho bem planejado nos traz segurança e reduz muito a possibilidade de problemas. De resto, é curtir o mundo submerso noturno que normalmente quase sempre é inesquecível.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.