Mergulho Técnico: O que é isso ?

Nitrox, Nitrox Técnico, Stages, Mistura de Fundo, Misturas de Viagem, Deep Air, Trimix, Descompressão, Redundância, Oxigênio Puro, % CNS, OTU…??????!!!!!!!!!

Basicamente, existem dois tipos de mergulhadores: aqueles que vêem a atividade como um lazer agradável, com o qual podem fazer novos amigos, estar em contato com a natureza, viver novas experiências e conhecer lugares diferentes, e os que são aficionados !

Esses encontraram na atividade um estilo de vida.

A diferença básica é a atração, a curiosidade pelo naufrágio, pela pedra afastada da ilha, pelas cavernas e por desenvolver suas habilidades técnicas, como também, seus conhecimentos teóricos. Essa vontade de evoluir, de apurar a técnica e o espírito é que acaba transformando um mergulhador recreativo em um mergulhador técnico.

Apesar de, a primeira vista, o perfil do mergulhador técnico ser facilmente associado com o “RAMBO”, ele está muito mais para o criativo e paciente “McGyver”. As capacidades de avaliar, planejar e reconhecer os próprios limites e lidar com frustrações são muito mais úteis nessa atividade, do que coragem excessiva. Apesar de um bom condicionamento físico ajudar, nada substitui a disposição e o entusiasmo, mesmo quando se trata de carregar uns cilindrinhos a mais !

Mergulhadores técnicos, quando mergulhando em águas abertas, utilizam, em média, além do cilindro duplo, 2 outros cilindros para os gases de descompressão.

Em mergulhos de caverna os cilindros extras são usados como “stages” para que a penetração possa ser estendida. Nesse tipo de mergulho, em que não é raro o tempo de mergulho ser superior a 4 horas, é comum ser necessário mais de 6 cilindros extras, para stages e descompressão. Nessa altura você já fez as contas: 2 mergulhadores, 2 cilindros duplos, 12 cilindros simples! Inevitavelmente, uma pick-up!!! E não se esqueça do scooter!!!

Há alguns anos atrás, os mergulhadores recreativos, depois de anos de prática, tinham somente as opções de se dedicar à foto-sub, ao vídeo-sub ou à instrução, o que, em muitos casos, não satisfazia por completo às suas buscas.

Foi a necessidade criada por esses entusiastas que fez com que surgisse o movimento chamado mergulho técnico, representado por mergulhadores que têm maiores objetivos recreativos e procuram constantemente equipamentos, técnicas e informações para que os limites sejam sempre ampliados. Mas afinal de contas, quais são esses limites, que definem a barreira entre o que é técnico do que é recreativo ?

Profundidades maiores que 40 metros

Muitas vezes, aquele naufrágio fantástico está a mais de 40 metros !   O consumo é cinco vezes maior do que na superfície, há narcose, necessidade de descompressão, além de haver uma demanda de conhecimento técnico, equipamentos, gases e treinamento adequados.

O que seria um mergulho de risco para mergulhadores recreativos é muitas vezes alcançado facilmente com as técnicas e equipamentos corretos. Mergulhadores treinados e certificados para o nível trimix executam normalmente mergulhos na faixa de 90 metros de profundidade, somente com o objetivo de lazer.

Necessidade de descompressão em estágios

Ao contrário do mergulho recreativo, onde descompressão é algo a ser evitado, no mergulho técnico esse fator é parte integrante do perfil do mergulho. Descompressão é muito mais que apenas dar uma paradinha no final do mergulho! Não basta simplesmente seguir a informação dada por um computador ou por um conjunto de tabelas! Para se planejar e executar um mergulho descompressivo com segurança é necessário ter conhecimento teórico e prático específicos. Saber escolher o melhor modelo matemático e os gases corretos, além de desenvolver as habilidades necessárias para esse procedimento, faz parte da formação de qualquer mergulhador técnico.

Utilização de diferentes misturas

O conhecimento para a utilização de misturas respiratórias artificiais é característica básica do mergulhador técnico. No mergulho recreativo utilizamos a mesma mistura respiratória (Ar ou Nitrox) durante todo o mergulho. Uma das características marcantes do mergulho técnico é a utilização de mais de uma mistura no mesmo mergulho. É o que chamamos de troca de gases. Isso exige planejamento e técnicas especiais para evitar riscos de hiperoxia, hipoxia e doença descompressiva.

Impossibilidade de acesso direto à superfície

Mergulhos onde existe teto necessitam de regras mais precisas de gerenciamento de consumo de gás, técnicas especiais de natação e de navegação, bem como, equipamentos especiais. O conhecimento das regras do uso de cabo guia é fundamental para esse tipo de mergulho, assim como, o conhecimento específico sobre as características desses ambientes.

Treinamento

Há alguns anos atrás… “E olha que não são muitos!”

A sequência de artigos que iremos escrever tem como objetivo levar esse novo conceito de mergulho aos leitores da revista, como também os passos a serem seguidos por aqueles aficionados que procuram ampliar suas opções de mergulho.

E, aos que por acaso acham que esse tipo de mergulho “não é minha praia” e que procuram “algo mais confortável”, saibam que devemos aos mergulhadores de caverna a utilização nos dias atuais de equipamentos, tais como: colete equilibrador, octopus e manômetro submersível. Suas necessidades específicas acabaram contribuindo muito para o desenvolvimento do mergulho amador.

O mergulho técnico está para o mergulho recreativo, assim como, a fórmula 1 está para os carros de passeio. É onde as novas idéias surgem !!!

Marcus Werneck
Mergulhando desde dos 16 anos, é técnico em marketing e fotógrafo submarino, foi consultor técnico de diversas revistas brasileiras e argentinas. Foi o fundador da representação da PDIC no Brasil em 1989 e desenvolveu vários dos manuais e complementos didáticos utilizados no sistema PDIC. Instrutor de mergulho técnico e em cavernas pela GUE. Seu trabalho na PDIC Brasil fez com que fosse reconhecido como um dos principais educadores do mergulho brasileiro, até mesmo por seus concorrentes, e reconhecido como sendo um dos mergulhadores com grande conhecimento técnico em mergulhos profundos de caverna no Brasil. Atualmente, atua na área de investimentos na empresa XP Investimentos.