Meu primeiro Sidemount antes da febre no Brasil

Ginnie Springs, FL - Foto: Emerson Covisi

Era final da década de 90, e o Brasil já tinha alguns mergulhadores técnicos recém formados. O mergulho com cilindros duplos já não era uma coisa incomum.

Aliás, lembro bem que no final da década de 80 e inícios de 90, mergulhávamos com duplas da antiga Cobra-Sub na região de Búzios, região da Costa Azul carioca.

As duplas eram feitas de aço e trabalhavam com pressão de 2.250 PSI e reserva. Não usávamos manômetros. Colete equilibrador então, era luxo quem tinham um Nautika modelo “colar”. Um caos para os homens por causa da cinta entrepernas.

Descíamos aos 40/45m de profundidade, em meio à água extremamente gelada e transparente, quando a ressurgência permitia. Hoje isso tudo seria considerado loucura, diante do avanço dos equipamentos, tecnologia, disponibilidade de cursos e especialidades que encontramos.

Mas voltando ao Sidemount, durante uma época, encontrar cilindros duplos no Brasil não era uma coisa tão fácil, e durante uma viagem aos Estados Unidos, decidi comprar um harness Transpac da Dive Rite, pois havia chegado à conclusão que ele poderia me ser muito útil. Esse equipamento me permitiria mergulhar usando cilindros S80, 18 litros ou duplos, e levando ele numa viagem, ele poderia me atender em qualquer necessidade.

Chegando ao Brasil, alguns profissionais me criticaram, dizendo que o equipamento era “stroke, ruim e isso e aquilo… Cheguei a pensar que havia feito uma compra ruim, até o Larry Green, um dos famosos instrutores de mergulho em caverna dos Estados Unidos me mostrar o único ponto negativo do Transpac, e que na verdade, não altera em nada o mergulho.

Um belo dia conversando com o “Doc”, pra mim, um dos mergulhadores mais conceituados em termos de mergulho técnico do Brasil, discutimos a possibilidade de construção do nosso próprio sidemount usando o Transpac, pois na época, não havia no Brasil equipamentos apropriados para o sidemount disponíveis para a compra. Mesmo nos Estados Unidos, não encontrávamos equipamentos tão facilmente. Lembro de escutar sobre os equipamentos da marca Armadilo, mas não conhecíamos de perto e não tínhamos referências. Usando o Transpac, poderíamos fazer algumas adaptações, assim como com eram feitas pelos “gringos”, e tentar mergulhar com os cilindros sendo levados nas laterais, e não nas costas como normalmente se fazemos.

Vale lembrar que a configuração de sidemount surgiu no exterior, a princípio, foi criado pelos britânicos. Segundo registros, alguns espeleólogos britânicos teriam criado essa configuração por volta de 1960 para poderem passar pelos “sumps” das cavernas, que são áreas alagadas. Nesse caso, o sidemount permitia a esses espeleólogos respirarem embaixo d´água e passar por essas áreas, podendo deixar seus equipamentos logo após a passagem pela água e levando menos coisas.

Mas voltando ao site no Brasil, depois de logos papos e a idéia comprada, num final de semana com perfeitas condições de mergulho, fomos testar nossos equipamentos no naufrágio Pinguino, na Ilha Grande-RJ.

Isso ocorreu por volta do ano 2000 se não me engano, e decidimos tentar entrar nas áreas até então, não ou pouco visitadas do naufrágio. Lembro bem de uma passagem inicial onde não era possível passar com cilindro nas costas, sendo de cara, um obstáculo aos mergulhadores recreacionais, e assim fomos destinados a explorar mais o naufrágio.

Fazendo um cabeamento para um retorno seguro, a ida foi bem tranquila e adentrávamos ao naufrágio admirando as áreas intocadas (ou praticamente). Era visível que se algum dia um mergulhador esteve naquela área do naufrágio, certamente teria ocorrido muitos anos antes.

Muitas vezes, era como se estivéssemos mergulhando em um naufrágio recém encontrado. Lembro que num determinado momento do mergulho enquanto regressávamos, cheguei a encontrar uma lanterna muito pequena, pois a sua coloração amarela acabou chamando minha atenção. Provavelmente essa lanterna era de algum mergulhador que esteve nas áreas mais frequentadas do naufrágio e por descuido, acabou deixando o equipamento cair entre as fendas metálicas do naufrágio Pinguino. Sem acesso, ele não teve como buscá-la.

E fomos entrando até uma área limite do casco onde não se tinha como prosseguir. Exploramos um pouco mais até chegar ao terço do gás e iniciar o retorno. Nossa configuração de sidemount funcionou perfeitamente e nos permitia adentrar em lugares

Foto: Clécio Mayrink
Foto: Clécio Mayrink

muito restritos levando os cilindros nas laterais ou levando-os a nossa frente. Obviamente, não havendo a disponibilidade de cilindros duplos em alguma localidade, isso já não seria mais um problema, pois as configurações adotadas atenderiam as necessidades dos mergulhos mais longos.

Iniciamos o retorno e justamente pela falta de visitação nessa área do naufrágio, houve uma queda brusca da visibilidade, tornando-se nula, e a referência do cabo passado foi extremamente importante. A queda de visibilidade ocorreu pela queda de partículas que se desprenderam do naufrágio devido ao choque das bolhas de ar contra a estrutura do casco.

Finalizamos o mergulho satisfeitos com a “nova” configuração e por ter realizado um mergulho bem diferente.

Anos mais tarde, algo em torno do ano 2008 mais ou menos, alguns fabricantes de equipamentos de mergulho como a própria Dive Rite, por exemplo, passaram a comercializar equipamentos para o mergulho com configuração sidemount, e aqueles poucos que faziam críticas, passaram de uma hora pra outra, a usar o próprio Transpac para mergulhar de sidemount.

No caso do teste do meu primeiro mergulho de sidemount, foi uma experiência inesquecível, pois visitamos áreas desconhecidas do naufrágio que já estava cansado de visitá-lo, no que se refere às áreas mais comuns. Com o passar dos anos, adotei o “side” como alternativa de configuração, dependendo da necessidade que eu venha ter.

Atualmente o mergulho com a configuração sidemount está virando uma “febre”, e não é incomum encontramos mergulhadores descendo com essa configuração ou realizando cursos por aí. A grande vantagem dessa configuração, é que o custo é relativamente de baixo, é fácil de usá-la, permite um mergulho mais seguro e longo.

O grande diferencial é quando falamos em mergulhos de “side” em cavernas. A coisa muda completamente de figura e requer um treinamento mais aprofundado, além de uma boa experiência por parte do praticante, pois o uso incorreto pode causar riscos.

Quanto ao Pinguino, após esse dia jurei pra mim mesmo que não voltaria à área que visitamos, pois na época ela já demonstrava que a estrutura do naufrágio estava muito comprometida. Algum tempo depois, houve um desmoronamento na popa e levando em consideração o tempo que o Piguino encontra-se naufragado, aliado a quantidade de mergulhadores que passam por lá, muito provavelmente devem ocorrer novos desmoronamentos muito em breve, tornando-se arriscado uma penetração nessas áreas restritas.

Meus agradecimentos ao amigo “Doc”, por compartilhar as experiências e idéias.

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou como consultor para a ONU, UNESCO, Segurança Pública, além de diversos órgãos públicos no Brasil.