Minha primeira caixa estanque – A água não entra mesmo ?

Foto: Clécio Mayrink

Essa é a dúvida que todo mergulhador acaba tendo ao comprar uma caixa estanque e pensando em usá-la pela primeira vez. Afinal, sabemos que nenhum equipamento eletrônico irá aguentar qualquer inundação que venha ocorrer.

Conversando em um fórum de discussões, algumas pessoas comentavam sobre a possibilidade de realização de um teste da caixa estanque antes de utilizá-la com a câmera.

Alguns acham bobagem, outros como eu, acreditam que um teste prévio seja de grande valia, afinal de contas, já presenciei uma caixa estanque importada e de um fabricante reconhecido no mercado, permitir a entrada de água logo no primeiro mergulho de um amigo meu. Nesse caso, não houve falha dele durante o fechamento da caixa, pois além de eu mesmo ter acompanhado o processo de montagem da câmera na caixa, ele é um profissional do ramo.

Outro detalhe importante, é que as caixas estanques, principalmente os modelos fabricados em plástico e em larga produção pela Sony e Canon, são testadas por amostragem e não uma a uma como seria o ideal, e a possibilidade de um erro durante a fabricação destas é possível passar e chegar a ser vendida aos fotógrafos.

De fato, descer com uma caixa estanque vazia como um teste, pode ajudar na segurança de sua câmera e não custa nada fazer isso.

Uma das vantagens desse simples teste, é além de verificar se há ou não vazamentos, isso possibilitará observação por onde a água irá entrar caso haja um vazamento, e facilitará

O-ring da caixa estanque com sujeira e areia grudada
O-ring da caixa estanque com sujeira e areia grudada

uma manutenção para a correção do problema em si.

Aberturas

A entrada de água sempre irá ocorrer em locais onde há um anel com características de borracha (o-ring), que é o item mais importante a caixa, pois ele será o responsável pela vedação da mesma.

A coloração mais encontrada dos o-ring´s é o preto, no entanto, encontramos no mercado o-ring´s nas cores branca, azulada, verde, vermelho e laranja, diferenciando no tipo de material fabricado, destino e necessidade.

Um o-ring mal colocado pela falta de atenção e/ou paciência do mergulhador, pode ser “um tiro no pé” na primeira imersão. Portando, o mergulhador deve estar muito atento na colocação do o-ring na caixa antes de ir para o mergulho e realizar o procedimento em local

Limpeza do o-ring
Limpeza do o-ring

seguro e com bastante paciência.

Testando a caixa

O melhor teste é aquele feito em uma câmara hiperbárica. Infelizmente não encontramos isso em qualquer esquina, e hoje no Brasil, isso só poderia ser feito em alguns centros de manutenção que possuam pequenas câmaras de testes de equipamentos ou durante um mergulho “seco” em uma câmera hiperbárica propriamente dita. A segunda possibilidade é praticamente descartada por não ser viável.

Quanto à primeira hipótese, esta sim é mais fácil para aqueles que estejam em uma cidade como Rio de Janeiro e São Paulo.

Se você não tem muita alternativa, o mais interessante a ser feito, é realmente descer com a câmera em mãos durante um mergulho, mas sem a câmera em seu interior.

Um detalhe importante, é não ir além da profundidade recomendada pelo fabricante. De forma errada, muitos acreditam que se a profundidade máxima operacional (PMO) que o equipamento for de X metros, o teste deverá ser feito à 10m a mais.

Descer com a caixa a uma profundidade superior a recomendada, poderá danificar (trincar) a caixa estanque, ampliando ainda mais a chances de um alagamento do compartimento estanque e/ou não servirá como um exemplo de teste do compartimento.

Limpeza no local onde fica o o-ring principal
Limpeza no local onde fica o o-ring principal

Atuação do o-ring

Aqueles que têm interesse em obter mais detalhes, recomendo a leitura sobre o funcionamento dos o-ring, publicado em forma de artigo aqui no Brasil Mergulho.

No que diz respeito às pequenas caixas estanques de câmeras fotográficas, conforme descemos e alcançamos maiores profundidades com o equipamento em mãos, os o-ring´s se deformam, preenchendo os espaços entre a tampa e o corpo da caixa. Isso ocorre em função da pressão no interior da caixa ser inferior a pressão externa, e os o-ring´s são literalmente puxados para o interior da caixa, tapado todos os espaços onde contenham a passagem de ar, impedindo assim, a entrada de água por esses sulcos.

Se alguém disser que a maior probabilidade de entrada de água é na superfície e antes de afundarmos, não estará falando bobagem, pois como a pressão interna e externa estão iguais, ou quase, os o-ring´s não irão exercer o impedimento da entrada da água. Enquanto o mergulhador estiver na superfície, o que irá definitivamente evitar a entrada de água no interior da caixa, é a pressão de tensão do sistema de travas sob os o-ring´s. Se não houvesse essa pressão, a água iria entrar.

Logo, quanto mais tempo o mergulhador ficar na superfície e caso o sistema de travas da tampa traseira estiver com problemas ou com a regulagem irregular, a possibilidade de entrada de água existe sim.

Após os 10m de profundidade, se o sistema de travas poderia até ser solto, pois a própria variação de pressão interna X externa faria o trabalho de vedação da caixa, justamente por “sugar” a tampa traseira da caixa estanque.

Bastonete Moisture Muncher indicado para captar a umidade no interior da caixa estanque.
Bastonete Moisture Muncher indicado para captar a umidade no interior da caixa estanque.

Procedimentos sugeridos

  • Feche a caixa estanque observando o(s) o-ring(s), verificando se estão exatamente no local correto. Algumas vezes ao colocarmos o-ring e tentar fechar a caixa, ele sai do seu posicionamento correto e ideal;
  • Você pode inserir um pedaço de papel higiênico no interior da caixa, para facilitar a visualização embaixo d´água, quanta a possível entrada de água na caixa estanque durante a imersão;
  • Segundo nosso colaborador, Maurício Ávila, que além de mergulhador é também, fotógrafo sub, o uso de bastonetes denominados Moisture Muncher, fabricados pela Sealife, são a melhor opção para a detecção de umidade e entrada de água no interior das caixas estanques.Ao usar esse bastonete azulado no interior da caixa estanque, com a menor entrada de umidade ou água no interior da caixa, esse bastonete irá mudar de cor, avisando de forma visual ao mergulhador ainda durante a imersão, que umidade e/ou água está de alguma forma entrando na caixa, possibilitando um retorno do mergulhador à superfície para a remoção imediata da câmera da água, salvando assim, o equipamento da inundação;
  • Antes de fechar a caixa estanque, observe se não há resíduos, pó, grão de areia ou até pequenos chumaços de pêlo no local onde o(s) o-ring(s) ficam. Um pequeno pedaço de pêlo pode ser o suficiente para a inundação. E acreditem… isso ocorre mesmo, como já ocorreu comigo anos atrás;
  • Após o fechamento da caixa, observe se o o-ring principal da porta está esmagado e bem imprensado. Não deve haver bolhas ou pequenos pontos entre o o-ring e a porta de fechamento da caixa;
  • Ao descer com a caixa, fique atento durante os primeiros metros da descida, observando a possível entrada de água e o local onde isso ocorre;
  • Retornando do mergulho e se a caixa está realmente seca, já é um indicativo de que está tudo ok.

O que não fazer

  • Jamais amarre sua caixa em um cabo e a desça ao fundo. Além da possibilidade de você acabar perdendo a caixa, você poderá arranhá-la. Dependendo do local, você poderá inclusive inutilizá-la. Já imaginou causar um arranhão exatamente na lente de sua caixa estanque ?
  • Não desça e logo em seguida traga a caixa estaque à tona. Isso é diferente de mergulhar com ela, pois um mergulho mais longo permite a imersão por um tempo ideal para a teste;
  • Descê-la pelo cabo também não permitirá a você, verificar por onde ocorre o vazamento, se houver um.
Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.