Minke Whales Project – Mike Ball Expedition 2010 – Encontro marinho olho a olho

Desde o ano passado, cerca de uns 8 meses atrás, tinha me candidatado para a ser voluntária em uma expedição onde é possível fazer snorkel com baleias Minke, aqui na Austrália, mais precisamente em Cairns.

Nessa época, ainda estava morando em Western Austrália, sem muita noção do que seria esse mergulho.

Oito meses se passaram e muita coisa aconteceu nesse meio tempo, muitas mudanças na minha vida, sendo uma delas, a mudança para Cairns, novo emprego, novos amigos, nova vida, e sim, de volta a vida universitária, realizando o meu tão querido mestrado em Ecoturismo na James Cook University.

Sim, chegou a hora de embarcar nessa expedição !

Tenho que contar que sou uma “sortuda”, pois ser uma voluntária nesse live aboard com os repórteres da Australian National Geographic, que conta com John Rumney, um dos fundadores do Undersea Explorer, uma embarcação de turismo e pesquisa que mudou a visão de muita gente e deu oportunidade para a Austrália, ver o quanto é necessário a preservação dos oceanos.

Além de John, o Dr. Alistair Birtles, o responsável pelas pesquisas das Minkes da Austrália pelos últimos 15 anos, e graças à ele, aqui na Austrália se pode fazer snorkel com elas, o único lugar no mundo onde isso é possível

Urzula Orges, pesquisadora de outro tipo de Minkes no Canadá e uma batalhadora na conservação, Ron e Valerie Taylor no barco, lendas vivas na conservação de tubarões, além de tantos outros…

Ao saber de todos esses vip´s no barco, e eu, uma voluntária doente por mergulhos e vida marinha, batalhando meu projeto em conservação, pensei: “me belisca !”.

No barco também haviam mergulhadores, porém, mais envolvidos emocionalmente com o mar do que uma simples foto na barreira de corais, como tantos fazem por aqui.

A viagem ocorreu do dia 17 à 24 de junho de 2010., e o trabalho de voluntariado era de ajudar tudo e todos no barco. Em troca, eu tinha o mínimo de 2 mergulhos por dia, mais o snorkel com as baleias Minkes, acomodação e alimentação.  Fomos ao extremo norte de Cairns, na Barreira de Coral de fora, uma área não protegida em termos de parque marinho e muito longe.

Primeiro dia

Embarquei no dia 17, uma quinta feira. Malas organizadas, já com o uniforme, parei para um café na cidade e andei em direção a marina. A ansiedade era muita. Além dos vip´s, era esperança de ver as baleias, pois sendo um animal selvagem, sabemos que não há garantia de nada, e também, as Minkes ficam pelas águas australianas em média 4 semanas por ano. Os estudiosos ainda não sabem ao certo o porquê disso. O pouco que se sabe, é que elas não retornam para reproduzir e nem para se alimentar por aqui.

Já no barco, conheci a tripulação que se mostrou muito prestativa e bacana. O primeiro trabalho era ajudar na organização do embarque dos passageiros. As malas eram pequenas, porém, as malas de equipamentos e câmeras fotográficas eram absurdamente grandes. Não culpo ninguém, todo mundo estava ali em busca de uma ótima foto e uma experiência incrível. Uma hora depois, às 6 da tarde, o mestre ligou os motores do barco e partimos.

Navegamos a noite inteira e às 5:30h da manhã, todo mundo de pé, exceto, os passageiros. Depois de fazer meus deveres no barco, eis que vou ao meu primeiro mergulho. Challenge Bay, esse é o nome do ponto de mergulho. De cara dava pra ver a quantidade imensa de peixes e vida marinha. Um absurdo !

A máquina fotográfica foi a mil. Minha dupla foi a Leona (menina gente finíssima de Singapura que também mora na Austrália). Mergulho com visibilidade de mais 30m com 71min de duração. De volta ao barco, era difícil conter o sorriso no rosto e estava feliz por estar ali… muito feliz.

Um pouco antes do almoço a agitação máxima começou. As Minkes estavam por lá. Já não me lembro a velocidade que desci as escadas até o deck, e muito menos, o que o trabalho deixei por fazer. O pensamento era único: “coloque o neoprene logo, pega a máquina e se joga na água”.

Pelo código de conduta desenvolvido pelo Dr. Birtles, o barco possuía duas cordas onde a gente se agarrava e ficava ali por horas flutuando no snorkel, esperando a Minke chegar cada vez mais perto. Esse código de conduta foi desenvolvido para que não se crie um impacto no animal. Nele não se pode fazer nada em direção a baleia, e sim só ficar quietinha na corda e esperar. As Minke são curiosas, e de cara, 3 foram avistadas. Posso escrever o quanto for aqui mas nunca vou conseguir expressar o sentimento que tive.

Uma criatura que chega aos 7m de comprimento ali me olhando no olho, com sua forma engraçada e diferente. Com lágrimas nos olhos e máquina na mão, agradeci a Deus por aquela oportunidade única, experiência que tão poucos humanos acabam tendo na vida. Sou abençoada, e ali tive certeza disso. Mais de uma hora depois, era hora de voltar ao barco. Sai da água enquanto as Minke ainda ficaram por lá. Incrível…

De volta aos meus deveres de voluntária, ajudei no almoço e preparativos.

Todos voltaram da água com sorrisos no rosto, alguns não paravam de falar enquanto outros, ficaram com seus próprios pensamentos, sem conseguir expressar o quanto foi bom.

Um curto break e voltamos pra água para o segundo mergulho, e agora estávamos no reef Two Towers, perto de onde estávamos antes. As Minke continuavam conosco. O mergulho foi cheio de surpresas como tartarugas bem calmas, tubarões galha branca e Sea Snakes. Foi a primeira vez que vi cobras entre mergulhadores. Já no final do mergulho veio a maior surpresa. Na parada de segurança, eis que vêm uma Minke na minha direção. Fiquei imóvel, não piscava. Emoção pura !

Fiquei lá, maravilhada com a experiência. Inacreditável que eu estava lá, uma mera voluntária… Voltei para o barco sem palavras, muitos pensamentos e sentimentos a serem expressados. Depois disso o dia correu normal e a noite se finalizou com uma palestra do Dr. Birtles.

No dia seguinte correu tudo como esperado e às 6:30h da manhã, já estava na água com as Minke. Os pontos de mergulho foram Acropolis e Light House. Excelentes pontos de mergulho, porém dessa vez, lotado de cobras de todos tamanhos e cores. O dia seguiu como o primeiro. Um sonho !

Sim, cansava ficar trabalhando, eram longas horas e non stop, mas tudo se compensava quando estava na água. Nesse dia a noite, houve outra palestra do Dr. Birtles e uma longa e ótima conversa com o John Rumney, que me encheu de idéias, inspirações e deu muita ajuda, já que ele está em parte, envolvido com alguns estudos meus da faculdade.

Os dias se seguiram e no terceiro dia foi o último que vimos as Minke, mas já valeu e muito à pena. Experiência única na vida.

Os mergulhos foram ficando cada vez melhores. Passamos por Lizard Island que é uma famosa ilha por aqui com ótimos mergulhos e um resort que chega a U$ 1.500 a diária. Também fomos ao famoso Cod Hole onde é possível mergulhar com meros gigantes. Calmos e sempre apostos para uma foto.

As noites também foram ficando interessantes com as palestras de Birtles, da Urzula, John Rumney e tantos outros. Sem sombra de dúvida, a palestra da Valerie Taylor falando sobre conservação e como foi sua luta para fazer com que o Cod Hole fosse uma área marinha protegida, foi a melhor de todas. Muito aprendizado e inspirações.

A semana foi se passando dentro dessa rotina, entre um trabalho e outro a fazer, sempre rolava um mergulho, uma conversa com os passageiros e uma soneca durante a tarde. Não posso reclamar do meu trabalho como voluntária. Algumas tempestades se passaram e o mar ficava cada vez mais batido. Mas isso nunca impediu de estarmos na água mergulhando, e isso também não tirava nosso humor.

Últimos dias…

Antes de voltarmos para Cairns, o ponto de mergulho escolhido foi o melhor de todos. Tanta vida marinha e tão colorido, que era difícil saber pra onde olhar, entre tubarões wobegongs, peixe pedras, jacks, anêmonas e tantas outras. O nome do ponto era Steve’s Bommie. Imperdível !

Depois de 2 longos e prazerosos mergulhos, era hora de puxar as cordas para dentro do barco e partir. Última palestra no barco foi de agradecimentos à todos por parte da equipe de mergulho. A viagem foi ótima e com expectativas cumpridas.

As Minkes deram um show e os mergulhos complementaram. Também tenho que falar do profissionalismo da equipe e da escola de mergulho, a Mike Ball. Sem todos os ingredientes, não seria possível.

Às 5 da tarde da quarta feira seguinte, estávamos de partida para Cairns. Na quinta de manhã, por volta das 8, chegamos em Cairns e ali era hora de dizer adeus aos vip´s e passageiros.

Engraçado dizer, mas criou-se um vínculo entre todos. Ali, todos têm o coração focado no mesmo objetivo: que os mergulhos sejam cada vez melhores e que o mar se conserve assim.

Muitos abraços e depois voltei para o barco para acabar o que precisava fazer, pois era hora de lavar o barco e deixá-lo pronto para os próximos passageiros que chegariam às 4 da tarde para mais uma semana de aventura. Os voluntários (nessa época do ano) só atuam durante uma semana, porque todo mundo quer, afinal de contas, é uma viagem cara para meros estudantes e viajantes. Normalmente o custo gira em torno dos U$ 3.000.

Meu serviço acabou e disse adeus para a equipe. Não foi fácil colocar meus pés de volta em terra. Deixei um pedaço do meu coração naqueles pontos de mergulhos e com as Minkes. O meu consolo é que em novembro estou de volta, ao mesmo barco e a mesma equipe. Dessa vez, para uma pesquisa sobre tubarões onde serão taggeados com trackers para serem rastreados por satélites.

Desta forma, obtém-se melhores resultados nos estudos e pesquisas para compreender um pouco de como podemos protegê-los. A melhor parte é que será um documentário da BBC, e melhor ainda, é que será outro ponto, o Osprey Reef, com mais de 300 tubarões que normalmente rondam por ali.. mas isso é para outra história.

Marta Espinheira

Marta Espinheira trabalhava em agências de propaganda no Brasil e se mudou para a Austrália em 2004.

Além do Brasil, já mergulhou na África do Sul, Singapura, Vietnam, Fiji, Bali e em toda a Austrália.