A morte em um mergulho tranquilo

Em 2016, estive nos Estados Unidos fazendo uma viagem de vários dias pelo sul da Califórnia, onde alguns desses dias eram reservados ao mergulho.

Tinha planos para fazer dois dias de mergulho na cidade de Monterey, pertinho de São Francisco, no começo da viagem, e outros dois dias em San Diego, já na fronteira do México, já chegando próximo dos últimos dias da viagem.

Mergulhar pela manhã e aproveitar as tardes para conhecer a cidade e arredores, tudo lindo no planejamento.

Pesquisei na internet sobre os mergulhos, os centros de mergulho, a época do ano, e já fui sabendo que não era a melhor época da região, poderia pegar pouca visibilidade além da água gelada (essa é típica da região, não dava pra fugir), mas era o que dava pra fazer.

No meu primeiro dia de mergulho em Monterey, dia 07 de setembro de 2016, fizemos um mergulho com saída de praia, ali de frente o Dive Center mesmo. Não foi um mergulho legal, a visibilidade era baixíssima, não vimos quase nada. A floresta de algas (kelp forest) que me assustou inicialmente, logo logo foi encarada com facilidade. Um leão marinho até deu o ar da graça e passou pertinho da gente, mas foi só. Roupa semi-seca de 8mm, a água gelada não foi problema.

No segundo dia (08/09/2016), faríamos os mergulhos numa reserva a 30 minutos de Monterey, Point Lobos Reserve. Saída por praia (era uma rampa asfaltada na verdade, aonde o pessoal desce as carretas para descer o jetski, caiaque, etc), mas era entrada igual de praia. Andamos equipados com as nadadeiras na mão e terminava de equipar quando a água batia na cintura.

Nesse dia éramos quatro mergulhadores e o instrutor. Todos eram americanos, menos eu. Desses 3 americanos, 1 era um casal, ele 42 anos e ela na mesma faixa.

O briefing do mergulho não poderia ter sido melhor. Aquela baía ali, por ser lugar de muitos mergulhos, possui uma maquete 3D e também, foto de satélite com cores indicando as profundidades. Assistir ao briefing com esse material, “vendo” de fato as profundidades que você vai encontrar, vendo as formações do fundo e meio da baía, é sensacional. No briefing, conversando com todos, o instrutor perguntou ao casal qual a experiência de mergulho deles, e eles responderam 1 ano de mergulho com 13 mergulhos registrados.

Briefing feito e combinado entramos na água, nadamos pela superfície até passar uma parte bem intensa de “kelp forest” para então chegarmos ao ponto onde faríamos a descida, uns 50-60 metros pela superfície de onde entramos na água.

Eu, o instrutor e o meu dupla (Jarvis) entramos primeiro na água, o casal veio na sequência, coisa de 2 minutos depois. Eu e o Jarvis começamos nosso caminho ao ponto combinado de descida, o instrutor veio logo atrás, com o casal um pouco mais atrás. A diferença minha e do Jarvis, que fomos na frente, e do casal que veio por último, não dava 90 segundos de nado na superfície. Estávamos indo ao ponto combinado, tudo conforme combinado.

Foi quando a mulher do casal (não lembro o nome) começou a gritar, gritar muito alto. Paramos nossa ida ao ponto pra tentar escutar e entender o que estava acontecendo, mas (eu) realmente não consegui entender. O instrutor voltou para o encontro deles, acreditando que ela estava com algum problema de equipamento e precisava de ajuda (ele comentou isso comigo depois). E não muito depois dele, eu e o Jarvis também começamos a voltar, pois ela não parava de gritar.

Quando cheguei perto, escutei o que ninguém quer escutar, de uma das outras pessoas que estavam ali perto. Haviam algumas pessoas com caiaques, todos já estavam próximos, além de outra turma de mergulhadores próximos, todos equipados e prontos pra começar o mesmo que havíamos combinado com nosso grupo. E um me disse: “someone is missing” (alguém desapareceu). O marido dela sumiu.

Bom, a primeira ideia era pensar que ele havia descido, apesar disso estar bastante longe do combinado, ali era pura floresta de alga.  Era um dia de água bem calma, ver bolhas de um mergulhador seria fácil. E não víamos. Nesse momento eu, e todo mundo por ali, já tinha nos dado conta de que possivelmente algo muito errado havia acontecido.

Entre chegar perto e de ter ouvidos os primeiros gritos da mulher, calculo uns 4 minutos. Quando cheguei perto, uma pessoa na margem começou a tentar organizar os mergulhadores na água, e gritou pedindo pra levantarmos os dedos indicando quantos anos de experiência de mergulho tínhamos. A maioria levantou 1 ou 2 dedos, eu levantei 5. Apontou pra mim e disse “você e você (apontou pra outro), desçam aqui (apontou a área onde a esposa indicou) e procurem algo”. Fizemos isso e, infelizmente, sem muita demora encontramos o Patrick a uns 5-6m de profundidade já morto.

Meti a mão no equipamento dele e inflei seu colete, enquanto o outro mergulhador desprendeu os lastros. Subimos com ele pra superfície, levamos até a margem, de onde o tiraram da água e realizaram massagem cardiorrespiratória. Infelizmente, sem sucesso.

Entre descermos pra procurá-lo e subirmos com ele pra superfície e entregando-o paras as pessoas que fizeram massagem cárdio respiratória, não deu mais que 90 segundos. Tempo total debaixo da água / afogado, algo entre 6 e 7 minutos.

E foi assim que esse dia entrou pra minha história, o dia em que um mergulhador do meu grupo morreu. Morreu afogado. Afogado em águas rasas com um cilindro cheio de ar nas costas (não havíamos começado o mergulho ainda, lembram ?).

Sai da água com a cabeça a mil. Ninguém está preparado pra passar por uma situação dessas. Ninguém planeja passar por isso.

Bombeiros e ambulância chegaram bem rápido, mas realmente, aquele foi o último dia de vida do Patrick.

Enquanto esperávamos a polícia chegar, eu e o Jarvis conversamos com o instrutor, ninguém conseguia entender o que aconteceu. Começamos a cogitar teorias do que poderia ter acontecido, mas absolutamente nada fazia sentido. Afogar em águas calmas, rasas e com um cilindro cheio de ar não me parece ter nenhum sentido. Falha de equipamento talvez, mas ainda assim, estava raso e em águas calmas. Foi então que “concluímos” que talvez estivéssemos lidando com uma sequência de pequenas falhas, que acabaram culminando na fatalidade. Uma das coisas que até pensamos foi aquela “cordinha” da válvula de esvaziar o colete pode ter ficado presa nas algas e, assim, o colete esvaziado de uma vez. Sem regulador na boca, afunda sem saber porque, bebe água, desespera e pronto…

A polícia chegou, demos depoimento e tudo mais, e fomos embora. Acabou.

Mas é claro que pra mim não tinha acabado. Fiquei quatro dias sem conseguir dormir direito, sempre lembrando da cena de encontrar o Patrick debaixo da água. Usei os dias seguintes da viagem pra repensar em toda minha trajetória como mergulhador e tentar tirar lições do ocorrido.

Já de volta ao Brasil, e dado algumas semanas de tempo, contatei o Dive Center e os questioneis se havia sido descoberto alguma falha de equipamento (que eram do casal, só cilindros alugados do Dive Center) ou talvez, nada pode ser descartado, até uma condição de parada cardíaca do cara, por exemplo, que poderia ter justificado ele ter se afogado.

Disseram que não poderiam me passar nenhuma informação sobre o caso, o que eu confesso, achei ruim. Eu não era um curioso que estava ligando pra saber isso, era um cara que estava com eles no dia, era o cara que ajudei a tirar o corpo do fundo da água, mas parece não ter feito diferença e, portanto, não tenho nenhuma informação nesse sentido, apesar de acreditar que a chance de algo simplesmente ter dado errado, o cara ter entrado em desespero e lascado tudo, é a explicação mais provável.

Por causa desse fato, mudei a forma de pensar, de que existem mergulhos “tranquilos”, no sentido de 100% seguro. Essa era uma ideia que tinha, que mergulho de coral, em praia, sem grandes ondas nem correntezas, fundo de areia, não tinha como dar errado. Esse fato me mostrou que um mergulho simples pode sim dar muito errado.

Nunca tive a ilusão de achar que mergulho é 100% seguro, não é isso. Mas talvez, eu realmente tinha essa pretensão a subestimar mergulhos “rasos”, e achar que perigoso eram só os profundos, a turma do tech, e levei esse tapa na cara da vida.

Quis compartilhar esse fato, não pra criar alarme ou desencorajar ninguém a mergulhar, pelo contrário, quero é encorajar todos a seguirem suas “carreiras” no mergulho, porém com segurança. E compartilhar casos assim, creio eu, pode nos ajudar a melhorar nossa consciência e procedimentos de segurança.

Pra mim, ficaram as lições:

  • Não existe mergulho 100% seguro, não existe mergulho tranquilo. Continuo acreditando que podem existir alguns mergulhos mais perigosos que outros, mas a ideia de que existem mergulhos sem perigo, essa pra mim acabou;
  • Vou passar a dar mais atenção e respeitar mais checks pré mergulho, pra ter certeza que está tudo ok com equipamento (lembrando que eu não sei se houve problema de equipamento no caso relatado). Checks pré mergulho que aprendi no curso e treinei em piscina e checkout, mas que nem sempre fazia tudo em todos os mergulhos;
  • Apesar de eu nunca ter desrespeitado isso, vou passar a redobrar minha atenção aos meus limites e ao que minhas certificações me credenciam a fazer. Ultrapassar os limites para os quais somos credenciados e treinados é, não tenho nenhuma dúvida, algo que pode potencialmente aumentar a chance de incidentes e acidentes;
  • Muito tempo sem mergulhar e preparando pra fazer uma viagem de mergulho, vou passar a considerar sim fazer uma reciclagem, como manda o figurino. Antes (considerando que eu acreditava haver mergulho sem perigo) eu até pensava “vai de qualquer jeito, nada pode dar errado”;
  • Devo trocar alguns equipamentos meus que podem ajudar coisas a não darem errado, um snorkel com válvula pra não entrar água por exemplo. Já aconteceu comigo, de entrar água pelo snorkel, e é esse tipo de pequena coisa que pode escalar e chegar em algo pior, como já testemunhei;
  • Na superfície e em água não 100% calma, regulador na boca sempre. Nunca fui o melhor em uso de ar, então, tentava evitar usar o regulador em superfície pra “não gastar ar”. Acabou isso. Melhor 1 minuto a menos de mergulho do que um incidente no currículo;
  • Mesmo depois do ocorrido e minhas mudanças de percepção em relação à segurança do mergulho, continuo tendo certeza que com treinamento adequado, respeito a esse treinamento e respeito aos limites, o mergulho é sim uma atividade bastante segura. 100% seguro nem dormir é, mas sobre ser bastante seguro, desde que feito com respeito e responsabilidade, continuo acreditando.

Ainda fiz nessa viagem outro mergulho em San Diego. Havia planejado dois dias de mergulho em San Diego, mas baixei para um único dia.

Precisava fazer outro mergulho pra não deixar que o trauma se instalasse em definitivo.

Fiz um mergulho legal, entrada de praia também. Não vimos nada e a água estava muito gelada e dessa vez me incomodou bastante (roupa molhada 7mm, tinha usado semi-seca 8mm em Monterey), minha GoPro alagou e acabei perdendo, mas consegui me manter calmo e em momento nenhum perdi o controle do mergulho.

Fiquei satisfeitíssimo com o mergulho, ele cumpriu seu papel e desisti do segundo mergulho desse dia pelo frio.