Narcose por Nitrogênio

Foto: Clécio Mayrink

Descrita muitas vezes de forma divertida em cursos de mergulho, e como algo a se atingir pelos “macho divers”, a narcose por nitrogênio é uma condição perigosa, que já ceifou indiretamente muitas vidas de mergulhadores recreacionais. É importante tentar prevenir e reconhecer precocemente esta condição, evitando resultados negativos.

Como Ocorre

A medida que respiramos ar comprimido em profundidade progressivamente maiores, respiramos maiores pressões dos gases componentes. É importante não confundir, o ar tem aproximadamente 21% de oxigênio (O2) e 79% de nitrogênio (N2) a qualquer profundidade. O que acontece é que a pressão parcial de qualquer gás aumenta. Por exemplo, a 40 metros de profundidade (pressão absoluta de 5 atmosferas), respiramos 21% destas 5 ATAs de O2, igual a 1,05 ATAs e 79% de N2, igual a 3,65 ATAs.

Enquanto o nitrogênio é um gás inerte (ou seja, inofensivo e inútil) ao nosso organismo ao nível do mar, passa a ter propriedade narcótica com o aumento da sua pressão parcial. Esta narcose é progressiva com o aumento da pressão. Quanto mais fundo, mais narcose.

Parece que o nitrogênio dissolvido no tecido nervoso diminui a velocidade de transmissão dos impulsos nervosos, pois forma uma barreira entre as células nervosas.

Muitos mergulhadores acreditam, erroneamente, que a narcose começa a partir dos 30 metros de profundidade, e se torna clara a partir dos 40 metros. Na verdade, desde que deixamos a superfície temos um grau de narcose, que passa a ser perceptível em profundidade maior, que varia com diversos fatores.

Como se apresenta

De maneira jocosa, relaciona-se a narcose à lei de Martini, dizendo que “cada 10 metros de profundidade correspondem a uma dose de Martini” comparando a narcose à embriaguez., aliás um apelido da doença, a Embriaguez das Profundezas. Não só não existe tal lei, como não podemos compará-las totalmente.

Embora os sintomas sejam parecidos, começando com alterações do comportamento, euforia, perda geral de sensibilidade (como se ficando anestesiado) e até perda de consciência, nem sempre vêm nesta ordem e alguns “atletas do copo” acabam ficando mais resistentes ao álcool, o que não ocorre com o N2. Outra diferença é que os sintomas da narcose desaparecem assim que o mergulhador volta para profundidades menores, o que não acontece com o álcool.

Fatores que influenciam

1 – Suscetibilidade pessoal à narcose: algumas pessoas narcosam em profundidades menores que outras. Embora outros fatores possam ser modificados, é importante mencionar que nosso corpo não metaboliza nitrogênio, portanto teremos sempre um nível pessoal de narcose.

2 – Ansiedade, Respiração, Grau de Esforço e Temperatura da Água: um aumento da frequência respiratória, tanto por água fria, ansiedade, esforço exagerado ou simplesmente má técnica respiratória fazem com que respiremos mais N2 que o necessário, alem de reter gás carbônico, aumentando o grau de narcose.

3 – Cansaço antes do Mergulho: pessoas cansadas, que dormiram pouco, têm mais narcose do que quando descansadas.

4 – Visibilidade: em boa visibilidade temos melhor referência e, consequentemente, menos narcose. Em águas turvas, devemos evitar grandes profundidades.

5 – Álcool e Drogas: o uso de bebidas alcoólicas antes do mergulho se soma à narcose por nitrogênio, que irá se apresentar em profundidades menores. É importante lembrar que pode demorar mais de 24 horas para que o álcool ingerido possa ser totalmente eliminado do corpo. Drogas proibidas também têm este efeito.

6 – Medicações: muitas medicações podem potencializar a narcose, é importante obter orientação a respeito. Muitas delas são comumente tomadas por mergulhadores, como descongestionantes, depressores labirínticos (para prevenir enjôos), etc…

7 – Experiência e Repetição: a medida que ficamos mais experientes, certos fatores são naturalmente melhorados, como a respiração, ansiedade. Se pusermos um mergulhador para fazer uma tarefa, numa profundidade que ele esteja narcosado mais consciente, e o fizermos repetir a tarefa em condições idênticas de água, no decorrer de dias, veremos que ele aumentará sua capacidade, até um certo limite. Não que esteja menos narcosado, apenas decorou a tarefa e talvez tenha aprendido a suportar tal grau de narcose.

Vai aqui um aviso, narcose mata e deve ser evitada. Nossa condição física varia de dia para dia e devemos dar uma boa margem de segurança. O limite estabelecido para o mergulho esportivo, de 40 metros, pode funcionar em condições de água muito boa, mas não em qualquer condição. O melhor mergulho está com muito mais frequência em profundidades menores, mais duradouro e divertido.

Se você têm fome de profundidade, pegue bastante experiência antes de se aventurar no Mergulho Técnico.

Gabriel Ganme

Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE – UNIFESP.

Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016.

Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society.

Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.