Naufrágio da Santa Edwiges

Foto: Marcus Davis

Os mares cearenses já foram temas para diversos escritores e poetas.

No entanto a tonalidade marrom-esverdeada que muitas vezes se mantém próxima à costa do Ceará, trazendo a característica de pouca visibilidade nos mergulhos. Para nossa sorte, em alguns períodos do ano, águas mais claras chegam a nosso litoral revelando mistérios há muitos anos escondidos.

No fim do século XIX e início do século XX, a área onde foi construído o hotel Marina Park e o local onde hoje funciona a Indústria Naval do Ceará – INACE, era conhecida como Poço da Draga.

Fortaleza ainda não possuía instalações portuárias adequadas e este local funcionava como ancoradouro natural. Muitas embarcações de diversos tamanhos terminaram seus dias por ali, deixando muitas incógnitas.

Foi num desses naufrágios que uma equipe do Mar do Ceará mergulhou recentemente. Uma embarcação há muito tempo esquecida e que é trazida de volta para nossos livros de história. São estruturas de aço localizadas em frente a estátua da Santa Edwiges, ao lado do hotel.

A dica veio de pescadores que conhecem muito bem o local e nos informaram da existência de “uns ferros” naquela área.

A área dos destroços se estende por 30m de comprimento, onde a proa está voltada para praia em um ângulo aproximado de 60 graus para boreste.

O tamanho do hélice parcialmente enterrado, coincide com as estimativas de comprimento. A embarcação está completamente destruída mas algumas estruturas ainda puderam ser observadas, apesar da precária visibilidade. Cabeços de amarração que sempre são deixados para trás, são uma boa forma de se orientar em um naufrágio, além das estruturas do leme, quilhas e cavernames.

O único motivo do hélice não ter sido levado pelos saqueadores é que ele não foi feito de metais nobres, não tendo valor comercial algum.

Parte do seu eixo também foi identificada, mas nada dos seus motores. As chapas que constituíam o casco, parecem ter sido soldadas e não rebitadas, o que dá uma pista quanto a idade da embarcação.

Existe uma grande possibilidade de se tratar do pequeno vapor Rio Formoso, pertencente a Companhia Pernambucana de Navegação e que encalhou em uma praia nos arredores do “Porto do Ceará”, em 1913.

A vida marinha é tímida, pequenas lagostinhas e outros pequenos peixes recifais.

É importante lembrarmos que todas as embarcações naufragadas guardam uma pequena parte do quebra cabeças da nossa história marítima e devem ser preservadas.

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.