Naufrágio na Praia da Macumba – Será verdade ?

Era agosto de 2006, estava em Salvador à trabalho, quando recebi um e-mail do mergulhador Marcelo Garcez Garcia, um caçador submarino do Rio de Janeiro, que dizia ter encontrado um naufrágio na praia da Macumba, no Rio de Janeiro. Para quem não sabe, essa praia é a continuação da praia do Recreio, que por sua vez, é a continuação da praia da Barra da Tijuca.

Quando vi o e-mail, não pensei duas vezes e liguei imediatamente para ele afim de obter mais detalhes sobre o que ele encontrara.

Segundo ele, estava realizando caça-submarina um pouco afastado da praia e do pequeno quebra mar ali existente, quando viu uma formação escura no fundo, onde no primeiro instante, achou estranho, mas logo em seguida, desceu em apnéia para ver o que seria aquilo. Ao se aproximar, percebeu que eram restos de uma embarcação antiga e que se encontrava bem enterrada. Ele chegou a fazer um croqui, que mostra inclusive, um casario e uma caldeira que estariam intactos, por estarem antes, enterrados.

As ressacas

Durante alguns meses do ano de 2006, ocorreram três grandes ressacas no estado do Rio de Janeiro, o que em tese, teria contribuído para a retirada da grande quantidade de areia de algumas praias, o que foi o caso da praia da Macumba, que chegou a perder 2 à 3m de areia. Neste caso, o naufrágio teria sido desenterrado, o que teria possibilitado a visualização pelo caçador.

Segundo Marcelo, ao retornar do mergulho, por conhecer muitas pessoas na região, conversou com os pescadores da localidade, que teriam confirmado que nas imediações, teria ocorrido um naufrágio à muitos anos, e um antigo pescador, o “Seu José”, saberia de toda a história, pois ele havia presenciado o acidente na época, por residir no local desde criança.

A pesquisa

Sábado de sol e mar sem condições de mergulho, e fui até a praia da Macumba conhecer o pescador e o Marcelo Garcez pessoalmente, com a finalidade de divulgar a informação aos mergulhadores.

Após o encontro com o caçador, fomos até uma localidade nas proximidades da Praia da Macumba, onde encontramos o “Seu José”, um pescador já com seus 85 anos de idade e totalmente lúcido. Uma pessoa humilde, de grande simpatia, que nos recebeu e contou em detalhes o que ocorrera com o naufrágio ainda não confirmado por nossa equipe.

Senhor-JosePara mim, foi uma manhã muito diferente, pois ouvíamos histórias do passado, de como era a região na época e fatos do passado escravo, pois a família do “Seu José”, era proveniente de escravos residentes na fazenda que existiu naquela localidade, até a compra das terras pelo ex-governador Chagas Freitas, que posteriormente, utilizou essas terras para a construção da atual estrada que segue até a praia de Grumari.

Segundo o “Seu José”, que na época do naufrágio teria por volta de 12 anos de idade, no dia em questão, chovia muito, e havia uma forte ventania. Por volta das 22hs “Seu José” estava jantando com seus pais e irmãos, quando ouviram batidas na porta de sua casa. Estranhando o fato, sua mãe abriu a porta e encontrara um homem muito machucado, com diversos cortes pelo corpo.Ele e um outro tripulante, haviam caído do navio. O outro tripulante desaparecera na escuridão. O que chegou em terra, se cortou devido aos rochedos e mar forte.

Sua família ajudou o acidentado e logo depois foram para fora de casa, onde viram o naufrágio encalhado nas proximidades da praia, recebendo fortes ondas em seu costado. Segundo o pescador, o navio chamava-se “Piraúna ou Peraúna”.

O navio teria tentado se abrigar na ilha Urupira, que fica nas proximidades da praia, mas acabou sendo arrastado pelo mar, colidindo contra um lajeado local, vindo a fazer água. Logo após, a embarcação foi deslocada até à praia, onde alí teria ficado.

No dia seguinte, uma pequena embarcação à vela e que rumava ao Rio de Janeiro, viu o acidente e comunicou à Marinha. Esta por sua vez, enviou um rebocador para retirar os demais tripulantes que ainda permaneciam à bordo e tentar desecalhar o naufrágio, que infelizmente não teve êxito.

No terceiro dia, o primeiro rebocador recebeu a ajuda de um outro rebocador ainda maior, que em conjunto, tentaram retirar o naufrágio do local. Tetou-se por algumas vezes e acabaram desistindo, deixando o naufrágio encalhado.

Segundo o “Seu José”, o naufrágio era um vapor pesqueiro, com uns 30m de comprimento, e vinha do sul e rumava para o Rio de Janeiro. Levava consigo, 14 pessoas que se salvaram, com exceção de 1.

Mergulho e Confirmação

Apesar do naufrágio estar tão próximo de terra, foram 4 tentativas sem êxito.

Problemas encontrados:

  • Fortes correntezas no local;
  • Grandes ondas;
  • Localização: A praia da Macumba fica distante 40 Km do centro do Rio de Janeiro, o que dificulta uma previsão de mar no local, face à diferença de terreno local em relação às demais praias do litoral;
  • Mudanças repentinas quanto às condições de mar;
  • Falta de apoio, principalmente de embarcação local e contato para informar as condições de mar;
  • Água turva e a saída de um rio nas proximidades, o que contribui ainda mais para a baixa visibilidade;
  • Das 4 idas até o local, somente em duas, conseguimos entrar na água realizando a saída de praia, mas as dificuldades para sair foram grandes, mesmo estando com equipamento recreacional.

Em uma das tentativas de buscas no ano de 2007, tentamos contactar caçador Marcelo Garcez, e infelizmente ele se mudou não deixando seu contato.

Naufragio-Praia-Macumba

Pesquisas

Em tese, o naufrágio teria ocorrido em meados de 1933, e chegamos a buscar por alguma informação nas bibliotecas, mas infelizmente não encontramos registros desse naufrágio.

Para realizar a buscas no local, será imprescindível ter uma embarcação de apoio e grande atenção às condições de mar. Em função da distância, é interessante que se tenha algum contato na região, para informar como estão as condições de mar e acima de tudo, ter um bom suporte no que diz respeito a embarcação de apoio, para uma assistência.

Seria de grande valia se o naufrágio fosse confirmado e divulgado, para que possamos divulgar essa história, dentre outros fatos ocorridos no estado do Rio de Janeiro.

Participaram das buscas além de mim, os mergulhadores Lelis J, Paulo Tessarollo e Fábio Conti.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.