Naufrágio Tocantins – Ilha de Queimada Grande

Foto: Clécio Mayrink

Dia de sol e mar calmo, e lá estava eu novamente no principal píer de embarque frequentemente utilizado pelos mergulhadores de São Paulo, para encontrar com os membros da equipe do Instituto Laje Viva, uma ONG destinada aos estudos e ações de preservação do mar. O objetivo do dia, era tentar encontrar as arraias mantas que visitam as águas do litoral paulista durante o inverno e participar do processo de foto-identificação delas.

Equipamentos prontos e câmeras montadas, seguimos em direção à Ilha Queimada Grande, localizada mais ao sul do litoral paulista, com direito ao acompanhamento de um grupo de golfinhos, que seguiam a embarcação como se estivessem nos guiando até o destino.

A ilha Queimada Grande é mundialmente famosa, pela presença de cobras da espécie jararaca-ilhoa, onde acredita-se que 5.000 delas estejam vivendo no local. Além disso, Queimada Grande, foi também, palco de dois acidentes da história marítima brasileira, pois naufragaram no local os navios Tocantins e Rio Negro, que normalmente são visitados pelos mergulhadores.

O mergulho

Chegamos na Queimada Grande um pouco mais rápido que o tempo habitual em razão do mar extremamente claro no dia, e a surpresa foi instantânea, pois a água estava muito clara, permitindo ver o naufrágio Tocantins ainda no barco.

O Tocantins era um cargueiro à vapor de bandeira brasileira, possuía 114m de comprimento e utilizava motor de expansão tripla. Na ocasião, estava carregado de madeira e havia saído do porto de Paranaguá com destino à cidade de Santos, mas infelizmente colidira contra a ilha devido à cerração. Como na época não havia radar (e muito menos o GPS) para a orientação da tripulação, a colisão de navios de grande porte contra as ilhas não era uma causa incomum, e prova disso, é a grande quantidade de naufrágios ocorridos na Ilhabela.

Já equipados e com câmeras em mãos, tive a oportunidade de descer e iniciar o mergulho com o renomado fotógrafo submarino Léo Francini, um dos mergulhadores mais experientes do Brasil e que conhece toda a costa brasileira. Ao entrar na água, uma surpresa geral, pois a água estava realmente muito clara e as condições do mar estavam excepcionais, indicando que seria um dia de mergulho fantástico.

Durante o mergulho era possível visualizar a grande extensão do naufrágio.

Todas as ferragens expostas, maquinário e os diversos cardumes ao redor do naufrágio deram um show à parte. Fomos bem devagar apreciando cada área do naufrágio, observando os detalhes das ferragens e ao mesmo tempo, imaginava como teria sido no dia do acidente e a situação que os náufragos passaram, levando em consideração que qualquer náufrago deseja subir em terra firme o quanto antes por causa do desespero, e lembrando que a Queimada Grande é lotada de cobras e escorpiões por toda a sua extensão.

Prosseguimos no mergulho adentrando em algumas áreas do naufrágio com restrições e teto, onde foi possível avistar as estruturas bem depreciadas, ficando claro que o naufrágio sofreu muito com a ação do mar. Algumas penetrações requerem conhecimento e muito cuidado do mergulhador, pois há indícios de estruturas caindo, o que acaba trazendo riscos ao mergulhador despreparado.

Por ser um mergulho raso, algo em torno dos 8 aos 20m de profundidade, facilita a visitação por mergulhadores menos experientes e que além de poder conhecer o naufrágio, fica fácil identificar as estruturas dele com certa facilidade, sendo um excelente naufrágio para a especialidade de mergulho em naufrágio, por exemplo.

Durante a nossa incursão, lá estava ajustando a câmera e observando algumas imagens captadas, quando fomos abordados por uma imensa arraia manta com mais de 3m de envergadura e que simplesmente “sobrevoava” o Léo Francini, e depois, como se estivesse bailando sobre nós e dando as boas-vindas pela visita ao local, tirou o fôlego dos mergulhadores e deixando belas imagens em nossas lembranças memória que felizmente nunca se apagam.

Esse encontro comprova o quanto é importante a preservação da costa e que realmente as mantas estão por perto.

Regressamos do mergulho e decidimos realizar o segundo mergulho no mesmo local, pois os demais também tiveram encontros com as arraias mantas, e acreditem, fomos recebidos no segundo por outras três arraias mantas, que acabaram nadaram ao nosso redor, dando um show de beleza em meio as restos já desmantelados do naufrágio Tocantins, tornando o dia ainda mais especial e trazendo um dos melhores mergulhos que já realizei pela região.

Meu agradecimentos a toda equipe do Laje Viva e Projeto Mantas do Brasil pela oportunidade.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.