Naufrágios Encantado e Cearense

O litoral da cidade de Fortaleza sofreu várias mudanças a partir da penúltima década do século XIX. O principal porto que servia a cidade neste período era o Poço da Draga, e ficava onde hoje se encontra a Indústria Naval do Ceará – INACE, ao lado do Hotel Marina Park.

Este local era uma pequena enseada naturalmente protegida por arrecifes que em 1897 foram transformados em quebra-mar para abrigar melhor o porto. No entanto, sua localização logo se mostrou um problema, pois o assoreamento constante o tornava um porto raso, e não permitia o atracamento de embarcações maiores, e até as menores, só podiam fazê-lo na maré alta.

Em 1902 teve inicio a construção do novo porto de Fortaleza. A Ponte Metálica tinha estrutura de ferro e piso de madeira e foi construída sobre os restos de antigos trapiches cujo primeiro que se tem registro é datado de 1804. A Ponte Metálica foi inaugurada em maio de 1906, mas sofreria ainda várias reformas, sendo a maior na década de 20 quando sua estrutura foi reforçada com ferro e concreto.

O texto acima é necessário para contextualizarmos e existência de um naufrágio ao lado do quebra-mar da INACE, conhecido na região por Encantado, Draga ou “as caldeiras”, mas vamos chamá-lo aqui de Encantado.

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Fora ele, existem apenas dois outros naufrágios conhecidos na região: o Navio da Ponte que se localiza a sudeste do Encantado, ao lado da Ponte Metálica, cujo registro é anterior a 1906, e o Mara Hope encalhado em 1985.

É um naufrágio grande, o sítio dos destroços se estende por uma área com mais de 100m de comprimento. Mergulhei nele apenas uma vez, em outubro de 2005. É um mergulho fácil, porém, com visibilidade restrita. Encontra-se desmantelado, mas com sua proa ainda parcialmente inteira e apontando para o norte. Seguindo em direção a popa, encontramos as caldeiras, evidenciando tratar-se de um navio a vapor.

Cabeços de amarração tanto na proa quanto na popa, e engrenagens do motor são identificáveis, também é possível observar o leme, mas o hélice foi removido. Está bastante adaptado ao fundo, com muitas incrustações, o que mostra que está ali há um bom tempo, provavelmente do período de construção do quebra-mar ou da Ponte Metálica.

Por estar localizado numa área de intenso tráfego marítimo este sinistro deve constar na lista de naufrágios da marinha. Consultando essa lista encontramos quatro possíveis identidades para ele:

  • Dona Luíza – 1889 – Barcaça – Brasil – Vazamento e encalhe – oeste de Fortaleza;
  • Cearense – 1897 – Vapor – Brasil – 83 graus do antigo Farol do Mucuripe e 177 graus da catedral em Fortaleza;
  • Rose – Barcaça – 1897 – Alemanha – Recife Grande, Fortaleza;
  • Não Identificado – 1897 – Naufragado ao noroeste do quebra-mar em Fortaleza.

A provável data do vazamento e encalhe da barcaça Dona Luíza (1889) a coloca como uma das possíveis identidades para o Encantado. No entanto, a observação referente à sua localização “oeste de Fortaleza” lança uma dúvida que limita esta hipótese. Se o Dona Luíza fosse o Encantado, provavelmente o registro de sua localização seria ao norte de Fortaleza, e não a “oeste” como indicado. A área dos destroços fica numa região que em 1889 já seria suficiente para submergir parcial ou totalmente, descaracterizando um encalhe.

naufragio-amarracaoA barcaça Rose (1897) de bandeira alemã, também é uma possibilidade evidente para a identidade do Encantado. A data do sinistro o aproxima cronologicamente das obras do Porto. O Recife Grande é um recife submerso a norte do Poço da Draga e a noroeste do Encantado. Nos mergulhos que fiz neste recife, não encontrei indícios de nenhum outro naufrágio, o que não significa que ele não esteja lá.

Porém, é possível que naquela época os arrecifes do quebra-mar fossem considerados como parte do Recife Grande ou mesmo o profissional que registrou o Encantado pode ter estimado sua posição como estando sobre o Recife Grande, o que coloca o Rose como uma de suas possíveis identidades, se considerarmos o quebra-mar como parte do Recife Grande existe a possibilidade desta barcaça ser outro naufrágio, o Navio da Ponte.

A data do registro do naufrágio do vapor Cearense (1897) também o aproxima das obras do Porto. Não que o Encantado estivesse necessariamente engajado nas obras, mas para um navio dessas dimensões naufragar tão próximo à costa, sua presença deveria ter um bom motivo. Plotando as observações quanto à localização do Cearense, temos um ponto que também corresponde ao local dos destroços do Encantado. Além disso, o Encantado possui grandes caldeiras o que também o classifica como um navio a vapor. Todas as informações disponíveis sobre o Cearense batem com as do Encantado.

A referência de um naufrágio não-identificado no ano de 1897 a noroeste do quebra-mar em Fortaleza, levanta três possibilidades:

  • É uma referência redundante ao Cearense;
  • É uma referência redundante a barcaça Rose;
  • Pode se trata de outro naufrágio não documentado.

restos-naufragio1Considerando as hipóteses para a identidade do naufrágio em questão, a que melhor se aplica é a do Cearense, pois ambos são vapores e principalmente, porque as referências precisas de sua localização correspondem à área dos destroços do Encantado.

Não podemos deixar de considerar a barcaça Rose que também é uma das possibilidades, tendo em vista que a indicação de sua localização pode estar associada à localização do Encantado, porém, até serem feitos estudos “in loco” para encontrar alguma evidência plausível sobre a sua identidade, este naufrágio permanecerá as margens da história.

É uma pena que em um Estado com uma tradição marítima tão forte não haja interesses maiores em documentar sua própria história.

Marcus Davis Andrade Braga

Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho.

É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.