Naufrágios – Entrar ou Não ?

Foto: Clécio Mayrink

Navios naufragados de forma natural, normalmente guardam grandes histórias e fatos bem interessantes. Talvez isso seja o motivo pelo qual, faça com que muitos mergulhadores queiram entrar em um navio naufragado, para conhecê-lo por dentro.

Sabemos que por lá, na maioria das vezes, só encontraremos um monte de partes enferrujadas com vida marinha, e nada de tesouros como vemos nos filmes.

Mas como todo ser humano já nasce curioso, normalmente temos o desejo de querer adentrar e ver o desconhecido, às vezes, tenebroso e fantasmagórico cenário que os naufrágios nos proporcionam.

Mas esse procedimento é correto ?

Na verdade, um mergulhador que não seja experiente e qualificado para esse tipo de mergulho, não deve jamais entrar em um naufrágio que não esteja preparado para o mergulho recreativo, pois ele pode conter algumas “arapucas” e pegar o mergulhador de desprevenido, por mais simples que seja essa entrada.

Aliás, frequentemente vejo mergulhadores se confundindo e achando que por terem curso de mergulho em caverna, acreditam ter o conhecimento necessário para entrar em um naufrágio, pois como o cenário também possui “teto”, ele saberia como proceder com o mergulho, mas pensar assim é totalmente errado.

É certo que um mergulhador de caverna normalmente detém os conhecimentos sobre os procedimentos de um mergulho em ambiente fechado, porém, diria que um naufrágio é como “um ser vivo” e que pode lhe pregar uma surpresa a qualquer momento, diferenciando das cavernas, que raramente apresentam algum tipo de condição, como por exemplo, um desmoronamento de rochas sob o mergulhador.

Alguns cursos chegam a dividir o tipo de entrada (penetração) em naufrágios, em níveis de penetração, o que na minha opinião, é totalmente incoerente.

Um naufrágio está infinitamente mais suscetível a levar um mergulhador ao acidente, justamente por ele ter sua estrutura já muito comprometida pela ação do contato direto com a água, e pior, se for do mar.

Ou se tem o conhecimento para adentrar em um naufrágio ou não tem. Não podemos graduar em “níveis” de penetração em um naufrágio.

Conversando com um dos mais famosos mergulhadores de naufrágios do mundo e que descobrira um submarino alemão na costa dos Estados Unidos, na ocasião ele disse o seguinte:

“Um naufrágio é como um ser vivo. Ele sempre estará alterando seu estado e sua condição. Nunca poderemos ter a certeza de que nada nele foi alterado entre um mergulho e outro.”

Resumindo, jamais saberemos o real estado do naufrágio e cada visita, sempre devemos analisá-lo para verificar o grau de segurança que ele está proporcionando na ocasião.

Principais riscos em um naufrágio

Vejamos alguns pontos básicos de um mergulho em naufrágio, quando nos referimos à visitação nas áreas internas.

Quedas de chapas

Um dos problemas mais comuns quando adentramos em um naufrágio, é a possibilidade de uma queda de alguma chapa em cima do mergulhador. O deslocamento de água provocado pela natação do mergulhador ou pela movimentação das bolhas liberadas pelo regulador causam um “stress” nas partes mais finas e que ligam uma determinada chapa às demais partes da estrutura do casco do naufrágio. Ocorrendo uma queda, conforme o formato da chapa, ela pode descer em zique-zague, podendo até mesmo decepar uma parte do corpo do mergulhador. São casos raros, mas acidentes assim já ocorreram.

Já a queda de chapas por desmoronamento, também é uma situação muito complicada, e assim como no caso anterior.

Antes da entrada do mergulhador neste ambiente do naufrágio, é preciso fazer uma avaliação técnica prévia do local. Desmoronamentos é a maior causa de acidentes em naufrágios.

Suspensão

A queda de visibilidade no interior de um naufrágio durante a penetração pelo mergulhador é praticamente certa, quando temos que entrar e sair pelo mesmo ponto. O uso de cabo guia e adequado ao mergulho, é imprescindível, para que possa permitir uma entrada e saída do mergulhador com segurança.

Penetrações do tipo travessia, isto é, a entrada do mergulhador por uma área do naufrágio e saindo por outra, também é obrigatória a utilização do cabo guia. Jamais se deve entrar em qualquer área do naufrágio sem utilizar um cabo guia.

Amarração de cabos

Um cabo guia para naufrágios é diferente de um cabo guia para mergulhos em cavernas. Ele precisa ser mais resistente, em razão do atrito que ele poderá ter com alguma parte metálica do naufrágio, pois isso poderá romper o cabo e deixar o mergulhador desorientado.

Quanto a amarração de um cabo guia em naufrágio, é outro ponto fundamental e que também se diferencia da tradicional amarração dos mergulhos em caverna, porque devemos ter um cuidado redobrado quanto ao local onde o cabo será colocado.

É muito comum que as áreas visualmente mais propícias para a amarração, sejam as piores possíveis para tal, pois apesar do formato, normalmente tendem a estar fragilizada, e qualquer tranco mais forte no cabo, esse ponto de amarração irá se desfazer, deixando o cabo totalmente solto na água.

Isso poderá acarretar num rompimento de cabo ou no chamado “Z”, onde o cabo se enrosca, e durante o retorno, o mergulhador perde a orientação devido ao alinhamento do cabo estar indicando uma direção errada para o exterior do naufrágio.

Enrosco

Usando ou não cabo guia, a possibilidade do mergulhador se enroscar é grande, e ele deve além de conhecer bem seu equipamento de mergulho, também deverá possui a habilidade de saber gerenciar o problema de forma calma e tranquila, para que o problema não se torne uma bola de neve.

Ele deverá sair do problema, mantendo ao mesmo tempo, a orientação de onde se encontra e para que direção se deve prosseguir.

Redes

Petrechos e redes de pesca são objetos constantemente vistos em naufrágios. Infelizmente os pescadores de alto mar passam com suas redes em tudo quanto é área, e quando ficam presas, acabam deixando alguns pedaços de redes de pesca para trás, sendo uma enorme dor de cabeça para os mergulhadores.

Um amigo meu havia indo mergulhar no naufrágio Wakama, nas proximidades de Búzios, e ao chegar ao naufrágio, se deu conta que o deslocamento que ele havia feito em direção ao naufrágio, provocara um deslocamento contrário do volume d´água em direção à superfície em relação ao seu redor. Com isso, uma enorme rede se deslocou para cima dele, que em seguida, começou a cair sobre o mergulhador. Por sorte e experiência, conseguiu desvencilhar do problema e nada mais grave aconteceu, pois a rede deixada para trás, era de grosso calibre e de difícil corte com uma faca de mergulho.

Outros dois mergulhadores também tiveram problemas com uma grande rede na popa do naufrágio CT Paraíba, porém, como utilizavam misturas Trimix, manejaram o problema com técnica e saíram do enrosco sem grandes problemas.

Vale ressaltar, que em ambos os casos, a visibilidade estava muito limitada, o que é um grande facilitador para que enroscos aconteçam.

Estresse

Certamente, esse é um dos grandes motivos para que um acidente ocorra.

Tudo que é realizado sob o efeito de estresse, não traz um bom retorno, e certamente, quando o mergulhador não detém o conhecimento técnico para executar tal atividade e/ou sair de um problema / situação de emergência, o nível de estresse é algo que sobe a cabeça e toma conta do mergulhador.

Por pior que seja a situação, o mergulhador deverá ter um controle da situação e não simplesmente jogar tudo de lado, querer arrancar a máscara e achar que sairá correndo do local. É preciso antes de mais nada, ter muita calma, pensar e agir com tranquilidade, analisando o que deve ser feito e executar o que foi pensado. Jamais executar qualquer movimento e atitude, sem pensar previamente o que deve ser feito.

Fluxo de volume d´água

Naufrágios localizados no mar estão à mercê de correntes que passam não só pelo lado externo, como em seu interior também. Esses fluxos de água, muitas vezes podem tirar o mergulhador do seu “trim”, jogando-o contra a parede e ocasionando uma queda repentina de suspensão.

Em situações piores, uma batida do corpo contra alguma peça metálica, pode gerar algum ferimento, ou ainda, deslocar uma chapa que poderá cair sob o mergulhador.

Gerenciamento de Gases

Levando em consideração o mergulho em ambiente fechado, o gerenciamento de gases é diferente do mergulho recreativo tradicional, sendo preciso fracionar a quantidade de gás presente nos cilindros, para que se tenha a certeza de que haverá gás suficiente para entrar e sair do naufrágio. Esse conhecimento é obtido através do curso específico para esse tipo de atividade.

Conclusão

Mergulhar é magnífico, porém, o mergulhador deve ter em mente, sua real limitação e jamais tentar fazer aquilo que não está capacitado, seja pela falta de equipamentos, seja pela falta de conhecimento. Ninguém já nasce sabendo o que deve ser feito ou não.

Mas o que todos devem saber, é que mergulhar em naufrágios, é muito mais que mergulhar na história ou participar dela algum modo.

Devemos respeitar o naufrágio, saber dos seus riscos, e devemos ter em mente que antes de adentrar em um naufrágio, precisamos estar treinados, equipados e aptos para execução desse tipo de mergulho, pois dessa forma, o mergulho não trará “pegadinhas”, pondo-o em um risco desnecessário.

Esse artigo foi escrito com o intuito de tentar mostrar um pouco, que para a realização desse tipo de mergulho, há diversos pontos e aspectos que o mergulhador deve conhecer, e ainda assim, não abordei os diversos outros fatores mais específicos, que diferem entre os tipos de naufrágios.

Lembre-se que ao retornar de um mergulho, sempre temos boas recordações, mas a sensação de ser recebido pelos familiares em casa após um dia de mergulho, certamente será muito melhor e sendo o mais importante.

Lembre-se disso !

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou como consultor para a ONU, UNESCO, Segurança Pública, além de diversos órgãos públicos no Brasil.