Naufrágios: Antigos objetos usados na navegação

Monumento aos navegadores portugueses em Lisboa - Foto: Clécio Mayrink

Para que houvessem os descobrimentos marítimos dos séculos XVI e XVII avanços tecnológicos foram desenvolvidos para que o homem conseguisse tal feito. Desde a construção naval para que as embarcações tivessem a capacidade de enfrentar mares revoltos, passando pela arte da cartografia e métodos de aquisição de informações geográficas, a navegação astronômica e os cálculos matemáticos necessários para conhecer a localização da embarcação e poder chegar ao seu destino com segurança.

É interessante conhecer os antigos objetos usados pelos navegadores para saber como eles ajudavam na navegação, e quem sabe, até identificar um desses objetos em um naufrágio, caso o mergulhador acabe avistando algum deles.

Foto: Clécio Mayrink

Bússola ou Agulha de Marear

Um dos instrumentos náuticos mais importantes para as Grandes Navegações foi a bússola ou agulha de marear, inventada pelos chineses. Basicamente é composta por uma agulha imantada que se alinha com o campo magnético natural da Terra, permitindo saber a direção para a qual o navio segue, ou seja, o seu rumo ou derrota.

De acordo com Lavery, 2004, a agulha de marear é um instrumento montado num aparelho pendular de latão que ajuda a manter o nível quando o navio está em  movimento, existindo uma rosa dos ventos e um imã instalado sobre a rosa. Nos primórdios, as agulhas (bússolas) eram montadas em caixas de madeira.

Segundo Cherques, 1999, a palavra bússola vem do italiano, bosso (caixa), o invólucro que continha a agulha. É uma caixa de material não magnético, que contém uma agulha imantada, móvel sobre um eixo, que permite determinar a direção do norte magnético, para o qual a agulha está sempre dirigida.

A palavra bússola não é corrente e nem correta na linguagem náutica onde se adota o termo agulha de marear ou magnética, que é um instrumento de princípios semelhantes, mas de funcionamento diferente, pois, na bússola, o limbo graduado é fixo e a agulha é móvel, enquanto na agulha de marear, a rosa-dos-ventos graduada gira e o que determina o rumo é a linha de fé.

No que concerne à agulha de marear, existem provas de sua existência em Portugal em 1324. Era constituída por uma agulha magnética montada em seco, sobre um eixo, e dotada de um mostrador com a rosa-dos-ventos dividida em trinta e dois rumos ou quartas, cada uma valendo 11° ¼.

Carta de Marear 

A Carta de Marear apresentava teias de rumos e escalas gráficas divididas em milhas ou léguas, uma escala de latitudes em graus que é o elemento que individualiza as cartas náuticas do século XV, já que a longitude só seria possível determinar a partir do século XVIII.

Vale lembrar que a milha da época possuía 1.480m, sendo que atualmente são 1.852m. Já a légua marítima possuía 4 milhas, o que equivale a 5.920m, hoje, a légua marítima possui 5.556m ou 6.075 jardas.

A forma de obter o ponto em que se encontrava a embarcação na carta de marear consistia em traçar sobre a mesma, conhecida a última posição plotada, uma reta paralela ao rumo assinalado pela agulha magnética e, sobre esta reta, inseria-se com o compasso a distância que se estimava haver navegado nas últimas 24h, medida na escala gráfica da carta.

As cartas de marear eram uma expressão hispânica do século XV, significando guia ou livro de viagem, já no tempo do infante D. Henrique de Portugal, significava o mesmo que mapa. As cartas eram cercadas de absoluto sigilo e rotas eram secretas, mas mesmo assim existia o vazamento de informações para outros países.

A primeira carta de marear com escala de latitudes conhecida é a do cartógrafo português Pedro Reinel, datada entre 1502 e 1505. A mais antiga com graduação das longitudes é de 1520, de Portugal, mas de autoria desconhecida.

Se existem as cartas de hoje, isto se deve ao geógrafo flamengo Gerard Kremmer, mais conhecido pelo seu nome latinizado de Mercartor, que resolveu o problema de projeção das cartas náuticas, tendo editado em 1569 a carta isogônica (carta das latitudes crescentes) usando a projeção cilíndrica tangente ao equador que tomou o seu nome.

A carta náutica da atualidade, confeccionada em papel, além dos contornos litorâneos, indica acidentes orográficos da costa, construções, cidades e marcos notáveis em terra, apresenta também, o balizamento de auxílio à navegação, linhas batimétricas, acidentes geográficos no mar e no litoral, natureza dos fundos, a declinação magnética e sua variação anual, os canais e áreas proibidas à navegação, a localização de rádios-faróis, naufrágios e de cabos submarinos.

Ainda sobre as cartas náuticas atuais, esses verdadeiros guias dos navegantes, cujas margens laterais estão impressas a escala variável das latitudes e nas margens superior e inferior à escala invariável, de longitude, têm também, desenhados círculos de 360º para permitir determinar o rumo verdadeiro em que se vai navegar, depois de tê-lo traçado. Elas são publicadas em diversas escalas para permitir a navegação em alto mar, costeira e em canais estreitos, baías e portos. Na Brasil, são publicadas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), órgão da Marinha do Brasil.

Compasso 

O compasso é um instrumento utilizado até os nossos dias, no passado confeccionado em latão ou bronze, serve para medir e transportar distâncias e para descrever arcos e círculos. Constituído de duas hastes ligadas e articuladas em uma das extremidades por uma charneira, tendo nas outras extremidades em ponta seca ou um porta-lápis ou um tira-linhas.

Essa navegação por singradura, também chamada de “estima”, esteve em voga no mediterrâneo desde o segundo quartel do século XIII. O ponto obtido era denominado ponto de fantasia porque dependia exclusivamente da estima ou fantasia do piloto.

 

Balestilha 

Os pilotos portugueses introduziram métodos astronômicos combinados com a latitude do ponto em que se encontrava a embarcação no mar e o rumo, cujo ponto encontrado era chamado de esquadria.

Para tomar a altura do Sol e de outros astros, o instrumento utilizado a partir de 1342 é a balestilha. Era constituída por uma vara de seção quadrada de três a quatro palmos, o virote, no qual passava uma vara menor, a soalha, que corria perpendicularmente sobre o virote. A balestilha era apontada para o astro e o horizonte e, por meio da soalha, era possível determinar a sua altura em relação à linha do horizonte, lendo-a no virote graduado em graus.

Os portugueses utilizavam a balestilha desde o século XVI, caindo em desuso em detrimento do astrolábio a partir do século XVIII. Era também conhecida como raio astronômico, bastão-de-Jacob, vara-de-ouro, radiômetro, balestrilha, báculo-de-Jacob e báculo-de-São Tiago.

Possivelmente foi criada pelos portugueses a partir de um aparelho de origem árabe chamado Kamal. Como era preciso posicionar o aparelho voltado para o Sol, o inglês John Davis inventou uma balestilha que permitia a leitura da latitude de costas para o astro rei.

Astrolábio 

A latitude era obtida com o uso do astrolábio, medindo a altura do Sol ao meio dia. De posse desse dado, procurava-se o valor de declinação solar correspondente ao dia do ano, existentes nos Regimentos do Astrolábio, e lançavam-se os dados nas fórmulas para determinar o ponto em que se encontrava. O astrolábio náutico foi usado pelos navegadores de todo o mundo até o aparecimento do sextante no começo do século  XVIII.

O astrolábio é uma palavra de origem árabe, asturlab, e Ptolomeu empregou-a para designar uma espécie de mapa-múndi. Foi usado até o aparecimento do sextante no começo do século XVIII e, apesar de a invenção do astrolábio ser atribuída ao astrônomo grego Hiparco (século II a.C.), alguns autores afirmam ser o instrumento do  conhecimento de Apollonio de Perga, que viveu do final do século III ao começo do século II a.C., ou talvez do Eudoxo de Cnido (409-395 a.C.), que viveu muitos anos no Egito. O astrolábio passou do Egito aos gregos e destes à Espanha, levado pelos árabes.

Os portugueses na época dos descobrimentos marítimos simplificaram o astrolábio astronômico de modo a facilitar as observações no mar, ficando reduzido a um círculo externo graduado, transformado em um aro e conservada a alidade com suas duas pínulas e respectivos orifícios. As dimensões foram aumentadas para permitir uma melhor visão do limbo e, portanto, uma maior aproximação até o meio grau.

No que diz respeito às dimensões desse tipo de equipamento, alguns astrolábios da época dos descobrimentos mediam meio metro de diâmetro, um centímetro de espessura e pesavam 10 quilogramas, sendo fabricados em latão ou madeira.

Para ser usado, o instrumento era suspenso pelo anel por uma das mãos ou por um cabo e mirava-se o astro pelo orifício das duas pínulas, tendo o cuidado de se colocar o olho junto à extremidade inferior da medeclina. Movia-se a medeclina de maneira que o raio solar passasse pelos orifícios das duas pínulas. O manuseio era facilitado fazendo-se projetar em cheio a sombra da pínula superior sobre a inferior.

A altura máxima de uma medição correspondia à posição estacionária, por alguns momentos, da medeclina, cujo movimento, semelhante ao fiel de uma balança, originou a expressão “pesagem do sol”.

O desconhecimento, por razões técnicas dos navegadores, de como calcular a longitude, fez com que acontecessem erros grosseiros de localização, acarretando, na maioria das vezes, em acidentes que subsidiaram a história Trágico-Marítima de todos os países que se aventuraram nos mares e oceanos.

Para saber exatamente a posição em que está um navio em relação ao globo terrestre, é preciso calcular a latitude e a longitude do lugar. Na prática, o cálculo da 

longitude depende de se determinar a hora com precisão. Entretanto, em face da inexistência do cronômetro (o que só ocorreria em 1760 com as pesquisas de John Harrison), a hora só pode ser calculada pela primeira vez, no mar, por James Cook em sua viagem para a Austrália em 1769.

Quadrante 

Outra forma de obter a altura meridiana do Sol era com o uso do quadrante. Para medição noturna, utilizava-se como referência a Estrela Polar (α Ursae Minoris) e com uma simples correção obtinha-se a latitude do lugar.

O quadrante é um instrumento destinado a medir ângulos, semelhante ao sextante atual, mas o limbo abrange apenas um quarto de círculo, ou seja, 90º. O quadrante astronômico era empregado para resolver problemas astronômicos e para obtenção da altura dos astros. Tinha um fio de prumo descendo desde o seu vértice superior.

Outro tipo de quadrante era o de declinação ou náutico que possuía um gráfico traçado em um quadrante de graus, no qual figuravam os doze signos, e destinava-se a achar a declinação do Sol e, para tal, era necessário saber o lugar do astro na eclíptica. É descrito por João de Lisboa no Livro de Marinharia, do século XVI, sendo o mais antigo ábaco náutico que se conhece.

Ampulheta

No que diz respeito à medição do tempo, utilizava-se um relógio de areia ou ampulheta. Normalmente eram empregadas as ampulhetas que levavam meia hora para se esvaziar. Um pajem era o fiel para virar a ampulheta quando caísse toda a areia.

Esse aparelho, provavelmente de origem espanhola, foi usado até o século XVIII.

É constituído de dois recipientes de vidro, de dimensões iguais, ligados entre si pelo vértice com estreita passagem, contendo em um deles areia de fina granulometria. A passagem completa dessa areia do vaso superior para o inferior serve para medir o tempo.

Tábuas solares 

As tábuas solares eram listas de auxílio aos cálculos para navegação estimada, onde se entra com o rumo e a distância percorrida. A partir desses dados, a tábua fornece a diferença de latitude. Também chamadas de tábuas de declinação solar, existem dois exemplares conhecidos como os Regimentos de Munique e de Évora.

Já as tábuas de Faleiro foram confeccionadas pelos irmãos portugueses Francisco e Rui Faleiro, sendo o primeiro cosmógrafo, os quais passaram a trabalhar para a Espanha. Seus dados foram calculados a partir dos dados do Almanach Perpetuum do astrônomo Abraão Zacuto.

Outras tábuas conhecidas são as de Toledo, possivelmente as mais antigas, precedendo as Afonsinas em dois séculos, foram calculadas para navegação astronômica pelo matemático e astrônomo árabe Al-Zargáli em 1300.

Tábuas Náuticas 

Na atualidade, existem as tábuas náuticas que são publicações contendo diversas tábuas com dados relativos à aritmética, geometria, astronomia, e geografia, para facilitar os cálculos da navegação. No Brasil, esse tipo de publicação fica a cargo da Diretoria de Hidrografia e Navegação, são as chamadas Tábuas para a Navegação Estimada.