Navio do Breu: Fim do mistério

Localização do Navio do Breu em frente à Ilha do Cairussú - Foto: Google Earth

A internet veio pra ficar e as facilidades que ela vêm trazendo são inúmeras em todas as áreas. Como amante de naufrágios, lembro bem quando trabalhava no centro da cidade do Rio de Janeiro e tirava algum tempo para visitar a Biblioteca Nacional para consultar antigos negativos de jornais do passado, atrás de informações dos naufrágios antigos. Eram horas e horas de pesquisas e muita paciência “folheando” edições inteiras e de vários meses dos jornais de época, atrás de informações dos fatos.

Hoje, a Biblioteca Nacional disponibiliza os jornais escaneados para serem acessados pela internet, e melhor, com o advento da tecnologia OCR e possibilidade de pesquisa, é possível buscar por palavras nos jornais antigos de forma mais rápida e precisa.

Com essa facilidade e algumas horas pesquisando, posso dizer que a partir de agora, podemos acabar com uma velha discussão sobre o Navio do Breu, um navio naufragado nas proximidades de Paraty.

Alguns pesquisadores de naufrágios afirmavam que esse naufrágio seria o Rio Macahuan, outros, que seria o naufrágio Petrel.

Essa discussão acontecia por haverem coincidências históricas, aspectos dos navios e diferenças pessoais, porém, nunca foi encontrada alguma peça se quer, que nos desse uma indicação ou confirmação categórica sobre a real a identidade no naufrágio.

Identificação

Apesar de todas as coincidências citadas em alguns artigos já publicados no Brasil Mergulho, um quesito acaba com as dúvidas entre o navio Rio Macahuan e o Petrel, e esse aspecto é a dimensão dos dois navios.

Até então, não tínhamos as dimensões dos navios, e principalmente fotos, para que fosse possível fazer algum tipo de  comparação.

Os anos se passaram, o assunto caiu no esquecimento dos mergulhadores, e só agora está sendo possível ter uma ideia mais precisa quanto as reais dimensões dos navios, e de forma inédita, conseguimos encontrar uma foto de cada um deles em jornais antigos. Vejamos abaixo:

Navio Rio Macahuan
Navio Petrel

 

Medição

A diferença nas dimensões entre eles é gritante, sendo indiscutível atestar que o Navio do Breu é de fato, o Rio Macahuan.

O Navio do Breu possui poucas dimensões, durante o mergulho é perceptível que o naufrágio não é grande e suas características batem com as do Rio Macahuan, e o aspecto comprimento deixa muito claro que o Petrel é extremamente maior, possuindo dimensões muito superiores as do Rio Macahuan.

É sabido que o Rio Macahuan tinha em torno dos 52m de comprimento, que batem com a área dos destroços do Navio do Breu. Já o Petrel, até onde sabemos, ninguém possui a informação quanto ao seu comprimento oficial.

Usando uma ferramenta especial para medição de imagens topográficas, estimamos o Petrel com comprimento entre 96 e 107m. Realizando uma plotagem em uma imagem de geosensoriamento, conseguimos o seguinte resultado:

Área na cor amarela interna com linha circular vermelha
= Área condizente com 52m de comprimento do navio Rio Macahuan

Área na cor marrom externa com linha circular vermelha
= Área dos destroços do naufrágio

Área na cor amarela interna com linha circular preta
= Área condizente com 107m de comprimento do navio Petrel

Fica muito clara as diferenças das dimensões entre os dois navios.

 

Uma pista diferencial

Na maioria dos naufrágios, os náufragos se salvam através de botes ou nadando até a praia, por exemplo, no caso do Rio Macahuan, encontramos alguns relatos indicando que os náufragos conseguiram subir nas pedras da costa e caminharam até pedirem socorro para moradores locais, sendo um detalhe que ajuda na identificação e pesquisa.

Segundo a carta náutica, existe a indicação de outros outros dois naufrágios relativamente próximos, mas eles estão afastados da terra, e logicamente, não poderiam ser o Rio Macahuan.

As discussões foram longas, muitas trocas de mensagens realizadas, e só agora, anos depois e com a ajuda da Internet, alcançamos um resultado mais satisfatório na identificação do Navio do Breu como sendo de fato o Rio Macahuan, apesar de alguns poucos no passado, afirmarem que jamais a Internet seria uma fonte confiável de informações nas pesquisas de identificação de naufrágios.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.