Nedlloyd Recife

Data: 02/03/1996

GPS: 26° 10,790′ S / 48° 28,890′ W

Localização: Ilha da Paz (Ilha do Farol), distante cerca de 4 Km do balneário de Enseada – São Francisco do Sul

Profundidade (m): 18

Visibilidade (m): 1 – 10

Motivo: Mau tempo, problemas no leme e encalhe.

Estado: Desmantelado

Carga: Diversas até ser esvaziado. Na ocasião, carregava 700 containers.

Tipo: Cargueiro

Nacionalidade: Libéria

Dimensões (m)

Deslocamento (t):

Armador: P&O Nedlloyd

Estaleiro:

Propulsão: Diesel

Fabricação:

Notas: O Nedlloyd Recife teve seus 700 containers descarregados numa complicada operação. O navio foi retirado em pedaços e aproveitado como sucata. Na época, o rebocador Hydrus tentou retirá-lo e acabou encalhando.

Somente dois anos após o encalhe, foi finalizada a operação de resgate e retirada das partes do navio, que acabou sendo cortado por uma empresa especializada engenharia naval. O casco avaliado em US$ 25 milhões, foi vendido pela seguradora Swedish Club por US$ 175.540 , à empresa paranaense SUCAPAR, e o aço reprocessado e vendido ao Grupo Gerdau.

Texto publicado no jornal A Notícia Catarinense:

Navio encalhado alimentou a pirataria na região portuária

Estava frio naquela manhã nublada de março. Enquanto o Brasil chocava-se com a morte dos jovens integrantes dos Mamonas Assassinas num acidente aéreo, os moradores das praias de São Francisco do Sul só falavam de um assunto: o acidente com o navio Nedlloyd Recife, na ilha da Paz. A orla amanheceu repleta de mercadorias. Os pescadores passaram o dia todo recolhendo o material ainda sujo de óleo. O que era apenas uma diversão acabou se transformando em grande negócios para pescadores e moradores. Em março de 1996, a pesca da tainha não foi a única fonte de lucro.

Um empresário morador de uma praia de São Francisco do Sul conta o episódio como se fosse uma fábula: o ano em que os francisquenses se transformaram em piratas. Vale primeiro um parêntese sobre a história do Nedlloyd Recife. O navio de bandeira liberiana aguardava para atracar no porto. Era madrugada. Dia 1º de março. A causa ainda é pouco conhecida. À época, a razão encontrada foi um problema no leme. O navio teria perdido o controle e, devido ao mar agitado, foi jogado até as pedras da ilha da Paz, parte integrante do conjunto de ilhas que fica a 23 quilômetros da costa.

A partir daí, o que se viu foi uma mudança completa na vida dos moradores de São Francisco do Sul. Segundo o empresário, praticamente toda a cidade se beneficiou com os produtos do Nedlloyd. O navio passou a ser chamado de “shopping center”, devido à diversidade de mercadorias que havia em seus mais de 700 contêineres. Muito material caiu no mar com o choque da embarcação com as pedras. “O navio encalhou à 1 hora da manhã. À tarde a praia estava cheia de gente carregando material que apareceu na orla. As imagens eram marcantes. Gente suja de óleo carregando os objetos do navio. No primeiro momento parecia uma coisa fantasiosa, romântica”, relembra o empresário.

Depois desse primeiro momento, a ação ganhou status profissional. Grupos de pessoas passaram a se reunir em segredo, em casa, por telefone, sempre usando códigos. “Vamos hoje ao shopping?”, era a senha. O alvo dos “piratas” eram roupas, pneus e tênis que estavam dentro dos contêineres. Saíam de embarcações na praia do Capri e iam até a ilha. As expedições eram compostas por até 20 pessoas em cinco barcos pequenos. O “profissionalismo” também incluía um pequeno suborno para os seguranças instalados na ilha da Paz para evitar saques das mercadorias. O empresário era uma espécie de cabeça do grupo, mas havia outros. “Tinha noite que havia 50 barcos ao redor do navio só para pegar a carga”, lembra. Os “piratas” escalavam o navio – cerca de 15 metros de altura – usando correntes de ferros. Era um trabalho arriscado, realizado geralmente em situações adversas, como o mar agitado e a mais completa escuridão. Já dentro da embarcação, o alvo eram os contêineres. Numa segunda etapa, o principal objetivo era furtar os pneus e televisores. Nesta fase é que o dinheiro começou a correr solto. Vinham empresários de outros Estados somente para comprar as mercadorias.

Os piratas faziam várias viagens durante uma noite. O empresário lembra de alguns objetos que conseguiu comercializar. Eram jaquetas, aparelhos de som, motores de carro, capas para CD e coelhos de pelúcia.

Há casos engraçados. Segundo a fonte, um dia ele recebeu a ligação de uma pessoa solicitando a compra de camisas. Disse que não tinha mais em seu estoque. Então, passou a perguntar para os moradores quem tinha uma boa quantia de camisas retiradas do Nedlloyd. Chegou até um pastor evangélico. Na frente de sua casa funcionava um culto. A mulher do religioso se retirou das orações e foi até uma sala, no fundo da casa, onde estavam estocadas várias camisas. “Na frente era igreja e no fundo, pirataria”, diverte-se.

Outro caso que virou lenda foi a mobília do “conde”. Dentro de um dos contêineres estavam móveis de um homem que se mudava de Buenos Aires para Vancouver, no Canadá. Todo o material caiu nas mãos dos piratas e era disputado a peso de ouro. Todos queriam algum objeto do tal “conde”. Não foi difícil encontrar cadeiras austríacas em casas de humildes pescadores. Peças de bronze sendo comercializadas como artesanato. Uma porta de madeira esculpida a mão ficou com um velho morador de uma ilha, conhecido como Vica. Todos queriam a sua porta, que não era vendida por preço nenhum. Anos depois, Vica acabou bebendo além da conta e tocou fogo na porta.

Muita gente também foi presa pelo saque do navio. A maioria era pescador. Iludidos com o ganho fácil, resolveram praticar o furto com mais frequência. Acabaram presos e respondendo a processo criminal. A reportagem encontrou dois pescadores na praia da Enseada que na época foram pegos em flagrante. Eles preferem esquecer do assunto, embora já tenham sido absolvidos na Justiça. “Alguém tem de pagar o pato, né? Sobrou pra gente que é pobre. Mas fui absolvido e não devo mais nada à Justiça. Não quero falar sobre esse assunto”, relatou um deles, já virando as costas.

Estima-se que a carga retirada do navio tenha movimentado cerca de R$ 3 milhões em São Francisco do Sul. Até hoje ainda há restos da embarcação próximo à ilha do Farol. O shopping foi “falindo”, e as pessoas gastando o dinheiro. Também não foi difícil observar a mudança de status entre os moradores. Teve gente que comprou carro zero e reformou a casa que estava caindo aos pedaços. “Todas as pessoas da ilha foram beneficiadas, ganharam dinheiro direta ou diretamente. Eu mesmo ganhei muito dinheiro com o Nedlloyd”, resume o empresário.

Por: Marco Aurélio Braga

Imagens:

Redação
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