O Ana Cristina

A 100 milhas de São Luís, no RM 360º, em pleno Atlântico e quase na linha do Equador, situa-se o traiçoeiro Parcel de Manoel Luís. Este local é um perigoso e extenso grupo de rochedos de coral (diabásio revestido de coral e camadas de calcário fóssil) com 26 quilômetros quadrados.

Os cabeços recobertos de corais, algas, esponjas e moluscos tangenciam a linha d´água na maré alta, praticamente invisíveis, constituindo-se em uma armadilha mortal aos navios.

Neste local, desde 1540, ocorrem consecutivos naufrágios. A localização cartográfica do parcel é conhecida desde 1872, mas isto não impediu que os sinistros continuassem ocorrendo, pois os navios encontravam ventos fortes e uma intensa corrente devido as marés (a amplitude de maré na costa maranhense é uma das maiores do mundo), dificultando ações para evitar o choque. Afundaram ali centenas de navios dos quais destacamos:

– Uma esquadra de 10 navios comandadas pelo português João de Barros, 1540 (só um escapou);

– Uma esquadra de 3 navios sob o comando do francês Jacques Rifault, 1594;

– O vapor Cyril, de 1185 ton, 1904;

– O mercante Uberaba, com 6082 ton, 1921;

– O petroleiro Ilha Grande, em 1943;

– O cargueiro misto West Point, em 1946;

– O paquete argentino Altamar, em 1960;

– O cargueiro Ana Cristina, última vítima do parcel, 1984.

No início de fevereiro de 1997, integrei a equipe de instrutores e monitores da Dive Parcel, uma operadora recém constituída pelo ex-oficial da Marinha de Guerra, prático e instrutor de mergulho Paulo Trindade. Embarcamos em um catamarã com cerca de 43 pés. Velejamos por mais de 16 horas consecutivas, conseguindo velocidades de 6/7 nós e guiados por 2 GPS’s.

Pelo fim da manhã o capitão determinou que eu e meu dupla, o professor de biologia Helington, equipássemos. Pelo GPS, estávamos a 30 minutos do objetivo e eu não conseguia ver sinal algum na superfície do mar. Nossa missão era descer com um cabo de aço e prender a embarcação a um cabeço.

Recebemos o aviso de 10 minutos e pouco depois, o de um minuto, preparar !   Na borda, com o cabo na mão, continuava a não ver nada. Ao grito de “é o parcel, pulem, pulem !!!”. Caímos em uma água morna e extraordinariamente azul.

Então estupefato, eu consegui enxergar. Eram muitas estruturas verticais, espécie de colunas assimétricas com o topo alargado. Eram os famosos cabeços.

A visibilidade estava a 20m, temperatura 28º e profundidade de 6m. Existia uma forte correnteza sentida particularmente quando próximos de uma coluna. Com alguma dificuldade conseguimos prender o cabo de aço. A paisagem submarina que desfrutávamos era impressionante, víamos os cabeços, como “paliteiros” e muitas barracudas, badejos, salemas, esponjas e ouriços. Acho que tais cabeços agem como tubos-venturi, maximizando a ação da correntada.

Observei então outro mergulhador que descia. Era Cristiane, esposa do comandante e trazia a ordem de abortar o local. Cabo liberado e recolhido, voltamos à superfície, a Cristiane embarcou e eu, junto com meu dupla, e por preguiça, decidimos ser rebocadas na água até o novo ponto.

O catamarã manobrou a motor e seguiu em frente nos puxando na ponta e no meio de um cabo. Algum tempo depois o Helington começou a gritar e a bater na água. Assustado e sem entender o que acontecia, mergulhei o rosto e meu coração parou. Dezenas de barracudas nos seguiam. Olhos enormes, dentes expostos, corpos fusiformes e de um prata fulgurante. Estavam muito próximas e cheguei a chutar o focinho de várias. O catamarã parou e em segundos subimos a bordo. Até hoje eu não sei como consegui embarcar completamente equipado.

Por GPS chegamos ao novo local, o naufrágio do Ana Cristina, e novamente coube a nós a tarefa de prender o cabo de aço e o fizemos na proa do navio. Vale à pena descrever este sítio submarino. A proa do Ana Cristina está desmantelada e jaz entre os cabeços de coral na profundidade de 6 m. O restante do casco, em muito bom estado de conservação, está deitado de bombordo em um abismo de 30m. O fundo é de areia branca, sulcado de infinitas ripple-marcks. Fico intrigado ao observar uma intacta telha ondulada de cimento pousada no fundo.

Percebe-se claramente o grande mastro principal, os porões abertos, a ponte de comando e o hélice reserva preso no deck da popa. Mas a característica singular deste naufrágio é a corrente da âncora que mergulha quase na vertical da proa (6 m) até o restante do casco (30 m). A vida é abundante e variada. Muitos frades, garoupas, barracudas (o que mais tem), anêmonas, esponjas, etc, etc.

Na minha segunda descida, acompanhava lentamente a corrente e, na cota de 13m, invertendo o corpo, deixei cair a minha faca que faiscou por um segundo sobre o azul-profundo do abismo e desapareceu instantaneamente mordida por uma curiosa barracuda.

Com cuidado realizamos a penetração por uma escotilha na popa e fomos surpreendidos e arrastados pela corrente, saindo por um buraco no casco de boreste.

Em nossa terceira descida, paramos em frente a uma das grandes aberturas do porão de carga, agora na vertical. Esta abertura facilita a penetração com segurança e localiza-se a ante-a-ré do mastro.

Estava concentrado no estudo da situação, entrar ou não entrar, em visão de túnel. Ao virar o rosto fiquei cara a cara com um mero gigantesco, com certeza maior que eu. Estupefato, maravilhado, emocionado com tal presente da natureza, não me contive e levei a mão para acariciá-lo. O leviatã recuou lentamente não deixando eu tocá-lo. Era um ser magnífico, robusto, cheio de vida. Guardei detalhes da boca entre aberta, dos olhos enormes e de sua cor malhada. Tinha uma expressão de curiosidade e não de ameaça. O grande peixe irá nos acompanhar em todos nossos mergulhos, chegando mais tarde a trazer outro mero, um pouco menor, para nos apresentar (não seria a Sra Mero ?).

Pensei o quanto vil e covarde é um caçador submarino ao disparar um arpão contra aquela superbíssima criatura.

Realizamos mais 6 mergulhos naquele belíssimo naufrágio. Em todas as descidas, ao retornarmos, realizamos sempre uma parada descompressiva na cota da proa do Ana Cristina (6m). Era necessário muito cuidado quando da emersão. O ideal era a subida pelo cabo ou o mais próximo do catamarã, pois haviam muitas correntes e ondas que poderiam facilmente afastar o mergulhador na superfície.

Não posso deixar de citar também o espetáculo maravilhoso de um céu estrelado, absolutamente límpido. Lembro de todos nós, deitados no deck do catamarã, atentos à explicação dada pelo comandante Trindade sobre as estrelas náuticas e constelações. Aquele momento foi maravilhoso e indescritível, pertencia a nós e só quem passou por algo semelhante poderá entender. Estrelas, satélites, meteoritos, constelações, lixo espacial e planetas, tudo observado numa definição ímpar.

Retornamos à São Luís sem grandes novidades, o tempo continuava bom e o vento firme nos propiciava uma boa velocidade.

Nestor Magalhães
Nestor Magalhães é 2° Tenente R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul.É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS** com seis especializações (Noturno, Naufrágio, Orientação, Nitrox, Roupa seca e Salvatagem) Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U Boats – Mergulhando na História e De Truk a Narvik – Mergulhando na História. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da costa leste americana, Mar Negro, Golfo de Biscaia, costa norte de Portugal, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal e Malta.