O lado negro da psicologia nos esportes perigosos do mundo

O medo desliga o pensamento. Em condições de medo intenso, a amígdala ativa o locus coeruleus, que libera altos níveis de noradrenalina no córtex pré-frontal. Isto funciona para desativar a totalidade do córtex pré-frontal lateral. Em essência, o sistema relacionado ao medo, puxa o plugue em todos os nossos processos cognitivos de nível superior. O tempo para planejar não é o mesmo quando você acorda dentro de um prédio em chamas.

Infelizmente, a maioria de nós têm dificuldades em perceber que algo inegociável possa ocorrer. Essa falha pode resultar em consequências trágicas – especialmente quando se trata de uma atividade recreativa especial e que exige a auto suficiência em um ambiente potencialmente fatal.

Mas o que é isso ?

Mergulho em caverna. Um ambiente subaquático é inerentemente estressante; com a estranha sensação de ausência de peso, o frio da água, a constrição da roupa e outras partes, além da visão restrita, e a carga psicológica mais pesada.

Um dos principais efeitos colaterais do estresse é a respiração rápida. No stress durante o  pânico, a pessoa luta por ar e instintivamente “rasgando” tudo o que está bloqueando sua boca. Infelizmente para os mergulhadores, essa coisa é o regulador que fornece seu ar.

Assim, uma situação que, em si, pode ser apenas levemente estressante ou assustador, repentinamente se transforma em um espasmo fatal de pânico.

O psicólogo Sports William Morgan, passou 10 anos estudando pânico no mergulho na Universidade de Wisconsin, e sugeriu que o pânico pode desempenhar um papel importante em 60% de todas as mortes subaquáticas.

Uma variante maior e mais perigosa quando o mergulho é realizado em cavernas.

A sensação de que está preso dentro de seu ambiente, pode ser intensamente estressante. Isso é ruim o suficiente quando você está aos 30m de profundidade e mais para o interior de uma caverna escura, separado da segurança da superfície por uma rocha sólida.

Cavernas alagadas muitas vezes são cobertas por uma fina camada de lodo, que facilmente produz um efeito desorientador ao mergulhador, muito parecido com o efeito desorientação espacial, e que pode ser tão mortal como é para os pilotos de avião. Quando você está realizando um mergulho profundo em uma caverna, a menor pontada de ansiedade pode rapidamente se tornar em uma catástrofe a partir do qual não há escapatória.

No domingo de Páscoa de 1992, um espeleólogo australiano de 26 anos de idade chamado Rolf Adams, estava se preparado para entrar na água de Jackson Blue Spring, num longo e profundo lago no Panhandle da Flórida, com água cristalina e que esconde uma rede de cavernas. Especialista em explorar cavernas secas, Adams estava treinando com o explorador Bill Stone, para que pudessem explorar a parte inferior do Sistema Huatla, um labirinto de cavernas inundadas que se encontra abaixo das montanhas de Sierra Mazateca perto de Oaxaca, México. Era o último dia de treinamentos, de um total de cinco semanas. No dia seguinte, eles foram para o México, e Adams estava ansioso para obter mais prática o quanto possível.

Ainda no mesmo dia e acompanhado por Jim Smith, um mergulhador caverna experiente, Adams entrou nas águas de Hole in the Wall. Adams e Smith seguiram o cabo até a marca dos 2000 pés (600m) e depois, iniciaram o retorno. Faltando 1000 pés (300m) da boca da caverna, Smith virou-se para verificar seu amigo e descobriu que ele havia ganhado flutuabilidade e tocou no teto da caverna, e naquele momento, ele estava trocando seu regulador primário para seu único backup. Ao fazer isso, sinalizou um Ok para Smith.

Smith virou-se e continuou a nadar para a saída. Momentos depois, Adams pegou em Smith, gesticulando freneticamente e indicando que estava sem gás. Calmamente, Smith, que era muito experiente, entregou para Adams seu regulador primário e passou a respirar pelo backup.

Durante esse compartilhamento de gás, houve uma distração, perderam flutuabilidade e tocaram no chão da caverna, agitando o fino lodo que havia ali, acomodado durante anos e anos. Na tentativa de reaver a flutuabilidade de forma rápida, Smith foi parar no teto da caverna, fazendo com que o regulador que compartilhava gás para Adams, saísse de sua boca. Com isso, Smith se afastou e sumiu na escuridão.

Focado em alcançar a saída da caverna, Smith conseguiu sair da caverna praticamente sem gás. Posteriormente quando o corpo de Adams foi recuperado, uma peritos constataram que o equipamento de Adams estava em perfeitas condições e com grande quantidade de gás, e a causa de sua morte não era seus pulmões, falta de gás ou outra coisa qualquer, mas sim, seu próprio cérebro. A inexperiência e estresse, agravados pela desorientação, claustrofobia, e privação sensorial, foram as causas de sua morte.

O pânico está longe de ser raro entre os mergulhadores. Uma pesquisa realizada pela Morgan, descobriu que mais da metade dos mergulhadores experientes já entraram em pânico ou quase pânico, pelo menos uma vez na vida. Existe uma vulnerabilidade do mergulhador caverna para a ansiedade e pânico, pois são tão amplificadas, que mesmo um veterano mais experiente e radical, em perigo de sucumbir. Na verdade, Morgan descobriu que mergulhadores com vasta experiência poderiam ter pânico sem nenhum motivo aparente. Um caso notável ocorreu durante a recuperação do corpo de Adams pelo próprio Sheck Exley. Tragicamente, o próprio Exley foi encontrado morto dois anos depois na parte inferior de outra caverna profunda, apesar dos 29 anos de experiência, sendo considerado como um dos mergulhadores de caverna mais qualificados do mundo.

Jeff Wise

Jornalista especializado em aviação, aventura, e psicologia. Produtor executivo de um documentário na Showtime, atuou como analista na CNN, Fox News e MSNBC, aparecendo em documentários nos canais PBS, History Channel e National Geographic Channel.

Frequentemente publica seus artigos no Businessweek, New York, The New York Times, Nautilus, dentre outros.

Autor de alguns livros, como Extreme Fear: The Science of Your Mind in Danger (Medo Extremo: A Ciência de sua mente em perigo)