O mistério do Naufrágio da Queimada Grande

Foto: Clécio Mayrink

Em junho de 2003 foi anunciada a descoberta de dois naufrágios nas proximidades da Ilha de Queimada Grande, no litoral sul do Estado de São Paulo.

Na época, a descoberta foi feita por um mergulhador da Ilhabela, conhecido pelo apelido “Moorea”, que com um time de amigos também mergulhadores vasculharam a área até finalmente encontrar os destroços.

Segundo ele, há um segundo naufrágio nas proximidades e que aparentemente seria uma balsa sem muitos atrativos. Já o segundo (na época apelidado de “Omelete”), seria bem mais interessante, pois havia um casario e comprimento aproximado entre 50/60m, além de estar entre 30/34m de profundidade.

Uma porcelana encontrada mencionava ter sido fabricada na Bélgica, porém, nenhum outro detalhe foi encontrado e que ajudasse na identificação do navio.

Tempos depois, os mergulhadores Gláucio Magnossão, Joaquim Poianas (Quim) e Nelson Marinelli Neto (Teco) de São Paulo, estiveram no local e também não avistaram qualquer objeto que pudesse ajudar na identificação do naufrágio. O único detalhe que chamou a atenção de um deles foi a percepção de que a meia nau do naufrágio possuía muitos ferros retorcidos, dando o entender que o navio teria colidido contra outro ou ter havido uma explosão.

Na época denominaram ao naufrágio o apelido de “Kaiak II”, em homenagem ao “Serginho”, na época, proprietário da operadora Kaiak de São Vicente, e que foi o responsável pela operação de mergulho naquela ocasião.

Os anos passaram e o assunto acabou morrendo, mas recentemente um grupo de mergulhadores de uma escola de mergulho, aparentemente reencontraram o mesmo naufrágio de 2003.

Região X Naufrágios

O litoral do Estado de São Paulo é lotado de naufrágios, e lendo os jornais antigos, percebe-se que muitos deles ocorreram por colisão devido ao nevoeiro que frequentemente se forma nessa região. Como no passado não havia equipamentos como o radar e o GPS, navegar por ali sempre foi arriscado, pois a navegação naquela época era imprecisa.

Estima-se que a costa brasileira tenha entre dois a três mil naufrágios não localizados, e muitos deles estão no litoral do Estado de São Paulo.

Pesquisas

Analisando os dados obtidos, tentei fechar um cerco para chegar mais próximo de uma possível identificação do naufrágio, mas como foram poucas as visitas realizadas por mergulhadores autônomos e eu mesmo ainda não consegui visitá-lo, fica tudo mais difícil.

Buscando em meu banco de dados de naufrágios que contém informações de jornais de época, separei alguns possíveis alvos:

Guasca

  • Naufragou em 05/12/1907
  • Local: Próximo a Cananeia
  • Motivo: Atingido na meia nau pelo vapor San Lorenzo
  • Comprimento: 61m
  • Histórico: Navegava em direção à cidade de Santos. A cidade de Cananéia está relativamente longe da ilha de Queimada Grande, porém, como os jornais de época publicavam muitas informações erradas e imprecisas, não podemos descartar essa remota possibilidade.

Os naufrágios Laguna e Tutoya foram descartados em razão do local do naufrágio estar muito distante em relação à Ilha de Queimada Grande.

Araponga – Talvez o principal deles

  • Naufragou em 12/06/1943
  • Próximo à Ilha da Queimada Grande
  • Motivo: Colisão com o cargueiro Venus
  • Comprimento: 54.9m

O único problema com este naufrágio é uma informação que em tese não bate com o naufrágio não identificado na Queimada Grande. Segundo os registros antigos, o Araponga estaria transportando 12 caminhões, e nenhum dos mergulhadores mencionam avistar restos desses caminhões no local.

Um detalhe importante, é que os jornais antigos mencionam que o navio Venus saiu do local sem grandes avarias, muito provavelmente ele colidiu contra a lateral do Araponga, o que permitiu que a água entrasse no casco, fazendo com que o Araponga afundasse.

Conclusão

É fundamental uma visita para tirar as medidas do naufrágio, fotografá-lo e analisar os detalhes para tentar ajudar na identificação do mesmo, pois sem esses dados, fica praticamente impossível fazer qualquer afirmação.

A localização GPS do naufrágio é 24° 29,534′ S / 46° 41,440′ W, e com a divulgação da marca, outros mergulhadores poderão visitá-lo, e quem sabe, ajudar na identificação dele enviando imagens do local para nós.

Agradecimentos

  • Cláudio Pogetto (Operadora Orion Diver)
  • Serginho – Operadora Anekim
  • Nelson Marinelli
  • Vagner Marretti (Scuba Repair)