O Naufrágio Paulista de Paraty

Foto: Clécio Mayrink

A cidade de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, é bastante conhecida por sua arquitetura colonial, ruas de pedras e belas paisagens. É também um local muito procurado por escolas de mergulho do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte para a realização de check-out´s.

Suas águas calmas e tranquilas e algumas ilhas tornam esta cidade um local bem atraente para os mergulhadores, no entanto, a turma do mergulho avançado e técnico, se sentia sem opção na região.

Há alguns anos atrás, foi “redescoberto” para a comunidade do mergulho, o naufrágio de um pequeno cargueiro a vapor chamado “Paulista“.

Após sua marca correta ter sido divulgada corretamente pelo site Brasil Mergulho, uma equipe de mergulhadores foi até lá para explorar este, que seria mais uma opção de mergulho na região da Baia da Ilha Grande.

O Paulista, um pequeno vapor de cabotagem, navegava com destino ao Rio de Janeiro com uma carga composta de madeira, café e diversos outros gêneros, quando, teve seu eixo partido, o que ocasionou grande entrada de água, causando seu naufrágio no dia 27 de junho de 1913. Não houve vítimas.

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Mergulho

Após uma agradável navegação até o local do naufrágio, com mar parado e sol a pino, iniciamos nosso trabalho de equipagem e amarração do naufrágio. Por estar em um ponto específico, é aconselhável que todo mergulho em naufrágio seja iniciado após a amarração de um cabo guia que garanta a chegada de todos os mergulhadores com segurança e sem perder tempo até os destroços.

A temperatura da água estava muito agradável e depois de todas as checagens, iniciamos o mergulho. A visibilidade estava muito boa até os 20 metros. Parecia que o mar, com o objetivo de dar um pouco mais de trabalho aos interessados no Paulista, havia resolvido envolvê-lo em uma grande “névoa” que começava bem em cima do naufrágio, aos 25 metros de profundidade.

Nada preocupados, continuamos a descida até chegar ao naufrágio. O cabo havia sido amarrado na proa do navio e a visibilidade ali era horrível, cerca de 1 metro.

Decidimos iniciar uma navegação utilizando as carretilhas, pois seria extremamente importante conseguir retornar pelo cabo que descemos, já que em alguns minutos teríamos a necessidade de realizar descompressão.

Carretilha na mão, começamos a explorar o navio. Seu casco ainda está inteiro e por bombordo seguimos em direção à meia nau. Toda a superestrutura havia sumido, não havia nada acima da linha do convés.

O que se tornou interessante foi sair do bordo e descer em direção ao casco aonde vimos boa parte da carga da madeira, já que naquele ponto a visibilidade girava em torno de cinco metros. Ainda em pé, vários dos apoios do convés ainda estavam em sua posição original, nos deixando alertas para possíveis enroscos de mangueiras.

Apesar de a visibilidade ter melhorado, ainda estávamos em um ambiente escuro, o que nos fez nadar bem lentamente. Isso acabou nos ajudando, pois conseguimos ver muitas partes do navio até chegarmos à caldeira e motor. Eu e meu dupla havíamos feito um planejamento mais longo e por isso fomos conhecendo pouco a pouco os detalhes deste belo naufrágio.

Ao chegar até a popa, tivemos a surpresa de encontrar, ainda em sua posição original, o hélice e o leme do navio. Ao vermos que toda a superestrutura havia sumido, logo pensamos em pilhagem do navio e, normalmente nestes casos, o hélice também é retirado, mas para nossa sorte, este não foi o caso no Paulista.

Neste ponto, demos por finalizada nossa exploração e iniciamos nosso retorno, recolhendo a carretilha e vendo, mais uma vez, todas as peças e estruturas que vimos na primeira parte do mergulho.

Ao retornar à popa, nosso ponto de partida para o mergulho e agora, para a superfície com segurança, notei a existência de uma rede de pesca, que é um risco em potencial para mergulhadores. Por sorte ela está caída em direção ao leito do mar, mas todos os visitantes deste naufrágio devem ficar atentos a ela.

Iniciamos nossa subida logo saindo da “névoa” que esconde o Paulista. A visibilidade estava em mais de 20 metros e a temperatura agradável. Realizamos todas as paradas de descompressão tranquilamente e já preparando nosso retorno ao Paulista.

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.