Operação IPesca V

Foto: Rafael Demôro

O Estado do Ceará possui quilômetros e mais quilômetros de litoral, e em suas águas, dezenas de navios ou barcos repousam no fundo, inertes, ainda desconhecidos por todos. Por isso, a identificação e localização de apenas um desses “mistérios”, é recebida com comemoração pela comunidade subaquática.

Cada naufrágio guarda um pouco de nossa história. São partes preciosas, porém, esquecidas de nosso passado e, quando mergulhamos em um deles, é como se voltássemos no tempo e revivêssemos um pouco dos seus dias de glória. Seja um cargueiro que encalhara, um avião que caiu, ou simplesmente um pesqueiro que não conseguiu enfrentar o mau tempo. Naufragio-IPesca-2Todos eles têm uma história singular, trágica ou não, sendo triste e emocionante…

Recebemos com muito entusiasmo no último dia 25, a informação sobre a localização de mais um naufrágio. Francildo, o mestre da embarcação Manta II, que atualmente opera com o Projeto Netuno, nos passou a informação que havia obtido com um pescador a possível localização de um pesqueiro de ferro naufragado há uns sete anos. Francildo nos contou também, que era um barco de pesca, provavelmente o Ipesca V da empresa de mesmo nome (essas empresas de pesca normalmente colocam seu nome nos barcos, seguido de uma numeração), e foi ao fundo devido ao mau tempo.

O naufrágio está em frente a Praia do Cumbuco, a 28km do Porto do Mucuripe, em Fortaleza e é um ponto constantemente visitado por pescadores.

O litoral da cidade de Fortaleza possui poucos naufrágios conhecidos realmente “mergulháveis”, por isso, a noticia foi recebida com muito entusiasmo e logo organizamos uma expedição.

O Projeto Netuno cedeu o barco e equipamento necessário, o mestre da embarcação se prontificou a nos levar ao local sem nenhum custo e nós organizamos a logística e mergulhar !

O Mergulho

Formada a equipe, éramos 6 mergulhadores, Eu (Marquinhos), Gonça, Miguel, Danilo, Fernanda e Thadeu, definimos a data: quinta-feira, 30 de Março, estava marcada a “Operação Ipesca V”.

Partimos do cais pesqueiro às sete horas da manhã esperando uma viagem de duas horas até a marcação. O mar caracteristicamente calmo nessa época do ano, ajudou bastante no andamento da operação. Não sabíamos a precisão da marcação nem a profundidade da região, imaginávamos algo em torno de 30 metros.

Após 2 horas exatas de navegação, zeramos o GPS e foi lançada uma garatéia. Enquanto isso, como havíamos planejado, eu e o Miguel nos preparávamos para fazer a primeira inspeção.

Essa época do ano a temperatura da água oscila entre 29 e 30ºC – para a inveja dos sulistas – o que torna o mergulho bem confortável, mas quando entramos na água, uma surpresa não muito boa: a visibilidade estava entre 2 e 5 metros, o que dificultaria a localização do ponto exato do naufrágio, caso a marcação não fosse precisa.

Descemos ao fundo, 23 metros, Miguel e eu iniciamos uma busca circular ao redor da garatéia. Depois de 20 minutos de fundo, Miguel começou a ter problemas com a sua máscara fullface e retornou a superfície. Continuei a busca e encontrei apenas areia, uma faca de pesca, um anzol e uma chumbada, mas nada do Ipesca.

Concordamos que os artefatos encontrados eram fortes indícios de que o naufrágio estava perto. Navegamos 200 metros a barlavento para jogar uma segunda garatéia, mas encontramos uma bóia. Quase comemoramos, pensando que tínhamos encontrado. Miguel se equipou e desceu, mas logo voltou contando que a boia estava amarrada a um saco com pedras. Uma boia presa a um saco com pedras no meio do Naufragio-IPesca-1mar, não era possível, ele tinha de estar ali !

Os jangadeiros normalmente amarram uma bóia há algumas centenas de metros a barlavento do ponto onde pretendem pescar, para fundear suas jangadas. Miguel desceu novamente para iniciar mais uma busca e nada encontrou.

E agora ? Tendo a boia dos jangadeiros como referência, fomos mais 200 metros para o lado da terra e jogamos uma segunda garatéia, fazendo um triângulo com a primeira e a boia dos jangadeiros. Desci para conferir e nada encontrei além de duas rêmoras que me perseguiram durante todo o mergulho.

Retornando à embarcação, conversamos à respeito. Onde procurar agora era a pergunta, mas para a nossa sorte, avistamos um jangadeiro vindo em nossa direção. Sozinho em uma jangada, esse jangadeiro fundeou seu pequeno barco na bóia e nos  apontou onde estava o naufrágio. Sozinho, sem GPS ou qualquer dispositivo eletrônico esse homem do mar deu uma surra na tecnologia e em nós, mergulhadores.

Com a dica do pescador, Danilo e Gonça desceram cada um segurando em uma ponta da carretilha a fim de “lançarem” o barco. Ideia que logo foi abandonada pelas dificuldades encontradas. Danilo subiu à bordo e o Gonça continuou a busca. Depois de alguns minutos o Gonça retornou comemorando. Havia encontrado o Ipesca V.

O Ipesca estava há alguns metros a sotavento da primeira garateia. Provavelmente, durante a primeira busca circular a linha da carretilha enganchou em alguma esponja e me desviou do naufrágio.

Esperamos duas horas para fazer uma boa dessaturação e mergulhar tranquilos no Ipesca.

Descemos por um cabo que o Gonça amarrou no convés. O naufrágio estava coberto por um cardume imenso de Xila, que tornaria o mergulho lindo se a visibilidade não estivesse tão ruim.

É um barco pequeno, aproximadamente uns 10 ou 12 metros de comprimento e está há 25 metros de profundidade na areia e 22 no convés. Está parcialmente destruído. Apenas o seu casco de ferro e madeira estão inteiros, mas não há nada onde seria a cabine de comando, desta, existem apenas restos de metal espalhados pelos lados. É possível penetrá-lo e percorrer toda a sua extensão, mas não há nada além de peixes em seu interior. Ao seu redor, junto ao casco, encontram-se marambaias de pneus (estruturas feitas pelos pescadores para formar recifes artificiais) e pedaços de redes de pesca.

A vida marinha é rica. Cardumes de Xila, Galos, Parús, Peixe-Anjo e Arraias “Bico de Remo” foram vistos durante o mergulho. Deve-se tomar cuidado com algas urticantes que cobrem a estrutura e são comuns em naufrágios aqui no Ceará. Apesar de parcialmente destruído é um mergulho bonito e vale a pena conferir, afinal é um pouquinho da história da pesca cearense que está lá no fundo.

Fizemos apenas um mergulho no naufrágio, pois já estávamos todos cansados e saturados depois de um dia duro que já estava no fim.

Voltamos à noite e chegamos ao cais por volta das vinte horas. Todos muito satisfeitos, pois agora Fortaleza, temos um novo ponto de mergulho.

Participaram da “Operação Ipesca V”:

– Subtenente Gonçalves
– Marcus Davis
– Luís Miguel
– Danilo
– Fernanda
– Thadeu Viana
– Francildo

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.