Pego de surpresa pela correnteza – Nasci de novo ?

Foto: Clecio Mayrink

Apesar de muitos não comentarem suas experiências negativas com o mergulho, sou contra essa postura, pois acredito que a disseminação da informação é uma forma de todos expandirem seus conhecimentos.

Estava lendo esta semana uma notícia de um mergulhador que ficou perdido sozinho por 17h no mar da Austrália. Ele havia ido mergulhar em um famoso naufrágio, e ao pular na água, a forte correnteza o levou para longe da embarcação, não o deixando retornar.

Essa história me fez lembrar de uma situação que passei no naufrágio Duane, um navio da marinha americana que foi descomissionado para a criação de recife artificial no sul da Flórida.

Há muitos anos, fiquei hospedado na casa de um casal de amigos que residem na Flórida para passar umas férias e fazer alguns mergulhos nos naufrágios da região. Meu amigo Márcio, possuía na época, um flexiboat com comando central, um tipo de barco inflável que pode ser levado em uma carreta e puxado por um carro ou pick-up, ficando fácil transportá-lo para os locais mais próximos dos pontos de mergulho.

Em um determinado dia, deixamos sua esposa e filho em casa, e pegamos a estrada em direção à Key Largo, área próxima aos naufrágios Duane e Bibb, nossos principais alvos de mergulho naquele dia.

Chegamos na marina pública, baixamos o barco e navegamos em direção ao naufrágio Duane.

No local do naufrágio, existem três grandes boias brancas em formato de bola, sendo uma fixada na proa, outra no meio do naufrágio, e a terceira fixada na popa. Todas servindo de amarração para as embarcações de mergulho.

Ao chegarmos ao local, lembro bem de três embarcações de mergulho se arrumando pra retornarem as suas bases e uma embarcação particular parada na boia da proa.

Amarramos o barco e montamos os equipamentos. Ansioso para entrar na água azulada, fiquei pronto primeiro, dei o OK e me joguei na água.

Veio o susto !

Havia caído na água pela proa do barco e havia uma fortíssima correnteza não visível no local. Imagino, que tenha sido a mesma situação do mergulhador levado pela correnteza na Austrália na semana passada.

No meu caso, em questão de segundos fui levado pela corrente para a popa do barco e só não me distanciei, pois tive a reação de jogar o braço em direção a lateral do barco e ter conseguido agarrar o cabo que ligava a proa à popa, usado para subir na embarcação.

Literalmente tive a sorte de conseguir pegar o cabo e me segurar junto ao barco, e literalmente virei uma “bandeira” de tão forte que estava a correnteza no local. Mal conseguia mexer com o outro braço devido ao arrasto da caixa estanque.

Com a ajuda do meu amigo, subi, descansei, e passado o susto, observamos que o grande fluxo não era visível do barco. Pequenas marolas passavam e não davam a real dimensão do quanto a corrente estava forte no local.

Com muito cuidado, ainda assim, descemos e mergulhamos no Duane. Um naufrágio belíssimo e grandioso, e lembro que a corrente era tão forte, que mesmo aos 35m de profundidade, ainda havia corrente. Dentro da cabine de comando do naufrágio, víamos as barracudas nadando contra a corrente do lado de fora. Fomos e voltamos literalmente agarrados no cabo até a superfície. Enquanto estávamos na parada de segurança, as mangueiras dos reguladores “tremiam” por causa do forte fluxo da corrente que passava por nós.

Retornamos ao barco e finalizamos o mergulho. A embarcação particular já não se encontrava mais no local e estávamos sozinhos por lá.

Navio Duane durante a Segunda Guerra Mundial
Navio Duane durante a Segunda Guerra Mundial

Erros básicos

Conseguimos mergulhar no Duane, porém, erramos ao não obter previamente, as informações importantes para mergulhar naquele local, principalmente no que diz respeito as marés.

Os mergulhos por lá são realizados conforme o horário das marés, situação bem diferente dos locais onde meu amigo estava costumado. Deveríamos ter perguntado antes de simplesmente ter ido.

Esse dia ficou marcado em nossas memórias, pois apesar do naufrágio ser belíssimo, poderíamos ter tido problemas sérios. Se tivéssemos pulado na água ao mesmo tempo, poderíamos não ter conseguido retornar ao barco e seríamos levados pela corrente do Golfo, com poucas chances de sobrevivência.

Preparando o inflável para mergulhar
Preparando o barco para mergulhar

Situações como essa nos amadurecem como mergulhadores e que nos mostram que sempre estamos aprendendo e devemos dar muita atenção antes de sair para mergulhar, e a vantagem de sair com as operadoras de mergulho, é sem dúvida, que há um aumento na margem de segurança do mergulhador, além é claro, do conforto durante toda a operação de mergulho.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.