Porque mergulhadores morrem em cavernas

Após tantas entrevistas dadas aos principais meios de comunicação e escutar diversas pessoas dizendo por aí, que praticar mergulho é por a vida em risco, decidi escrever esse artigo com o intuito de esclarecer os principais motivos que levam os mergulhadores de caverna à morte.

As estatísticas comprovam que o mergulho recreacional é um dos esportes mais seguros do mundo. Por outro lado, o mergulho em caverna é um dos esportes mais perigosos.

Antes de mais nada, vamos compreender as diferenças básicas entre os tipos de mergulhos existentes.

Apneísta e Caça Submarina – Recreativos – Técnicos – Caverneiros – Comercial

Quando a mídia em geral fala o termo “mergulhadores”, nunca é especificado a categoria em que o mergulhador acidentado se encontra.

Apneísta e Caça Submarina

É o mergulho realizado prendendo a respiração. Quando é realizado sem um dupla, o mergulhador fica vulnerável e quando realiza a técnica da hiperventilação, a vulnerabilidade aumenta ainda mais no caso de um apagamento, que é um desmaio provocado pelo próprio organismo, com intuito de se manter vivo com o restante de oxigênio restante na circulação sanguínea.

Mergulhadores Recretivos

São pessoas que praticam o mergulho como turismo em geral. Essa categoria abrange as pessoas que mergulham puramente para apreciar o mundo submarino, como também, para tirar fotos ou captação de imagens em vídeo, mergulhando em profundidades relativamente rasos e sem riscos maiores.

Um problema comum nesse tipo de mergulhador, é que ele não se dedica a intensificar suas habilidades como mergulhador, ficando limitado em termos de conhecimento e técnicas.

Mergulhadores Técnicos

Mergulhadores com um conhecimento aprofundado em mergulhos profundos e que requerem maior habilidade técnica embaixo d´água, equipamento aprimorado, de alta performance, além de cursos especializados nesse tipo de atividade.

Mergulhadores de Cavernas

Quanto aos Caverneiros, ou melhor dizendo, mergulhadores de cavernas, além de serem também mergulhadores técnicos, são pessoas que realizaram cursos específicos para o mergulho em caverna. Normalmente são pessoas já com a experiência em Mergulho Técnico e que possuem larga experiência em mergulho recreacional.

Um mergulhador recreativo não realiza um curso de mergulho em caverna diretamente. Ele precisa comprovar uma experiência mínima para que possa realizar um curso de mergulho em caverna, que por sinal, é ministrado em módulos, exigindo aulas teóricas em sala de aula e prática em cavernas de diferentes tipos.

Os requerimentos mínimos para se tornar um mergulhador de cavernas são grandes, e para receber a certificação, o mergulhador deve comprovar o total conhecimento quanto às técnicas necessárias para esse tipo de atividade. Certamente, não é um tipo de mergulho para todas as pessoas.

Comerciais

São os mergulhadores que trabalham nas plataformas de petróleo ou nos chamados serviços comerciais, como em serviços de manutenção de represas, hidrelétricas, tubulações de esgoto e coisas do tipo.

Acidentes

Conforme a causa da morte, é possível ter uma idéia do tipo de categoria em que o mergulhador se encaixa. Digo idéia, por não ser possível estar 100% certo até sabermos quem é a pessoa acidentada e seu grau de conhecimento em mergulho.

Um mergulhador recreacional pode ter morrido por ter realizado um mergulho em caverna por exemplo, mesmo não estando habilitado para tal atividade. Nos Estados Unidos e no México, há diversas cavernas onde mergulhadores recreacionais adentram sem a devida autorização, apesar de saberem dos riscos que essa atividade envolve. O resultado disso, foram as dezenas de pessoas que morreram pela falta de conhecimento técnico.

O mergulho em caverna exige toda uma técnica especial, equipamentos apropriados de alta performance, e principalmente, uma atenção triplicada por parte do mergulhador.

A grande maioria das causas de acidentes com mergulhadores de caverna, está ligado à falta de treinamento e atenção durante o mergulho.

No mergulho em caverna existem quatro pontos críticos:

1) Gerenciamento do consumo de gás presente nos cilindros de mergulho

Durante o mergulho, o mergulhador de caverna precisa ter uma atenção especial ao consumo do gás que ele carrega em seus cilindros. Como forma de segurança, utilizamos a regra de terços, ou seja, utilizamos 1/3 da capacidade do cilindro para adentrar na caverna, deixando os outros 2/3 para um retorno seguro.O terceiro terço para ajudar o dupla num eventual problema.

Ou seja, seguindo a regra do terço, ele sempre terá gás suficiente para sair da caverna em segurança.

2) Lanternas

No mergulho em caverna utilizamos pelo menos três lanternas, sendo uma conhecida como primária e outras duas denominadas secundárias.

A lanterna primária detém alta potência e normalmente, carga para pelo menos 4 horas de luz ininterruptas. Com os novos modelos fabricados com Led, algumas lanternas chegam a ter autonomia de até 8h.

Havendo uma falha na lanterna primária, o que é um fato raro, o mergulhador terá outras duas lanternas secundárias para sair da caverna utilizando o cabo guia. Normalmente essas lanternas possuem uma potência inferior à primária, porém, com longa autonomia. Alguns modelos de lanternas secundárias chegam à ter 15 ou 30h de autonomia, não deixando que o mergulhador fique sem luz.

Ainda assim, ele terá as lanterna de seu dupla de mergulho, o que praticamente zera as chances dele ficar perdido e sem luz embaixo d´água.

Mesmo havendo a visibilidade reduzida (Silt), o mergulhador ainda assim consegue sair navegando seguindo um procedimento denominado “toque contato” ou “Bump and Go” pelo cabo guia.

3) Forma de batimento de pernas

Um dos pontos principais no mergulho em caverna, é a forma como se bate as pernas com as nadadeiras para se locomover embaixo d´água. No mergulho tradicional, movimentamos as pernas para cima e para baixo.

O grande problema desse tipo de movimentação, é que ela realiza um grande deslocamento do volume d´água, e este volume irá gerar um deslocamento da areia, lodo ou de carste (tipo de relevo geológico caracterizado pela dissolução química das rochas), deixando a água como um “café com leite”.

Essa rápida diminuição da visibilidade do mergulhador, fará com que ele fique sem orientação. Isso chama-se Silt (suspensão), e quando isso ocorre, ele deve segurar o cabo guia para voltar à ter referência de onde se encontra e para onde está a saída da caverna.

Para evitar esse deslocamento de água e consequentemente o silt, no mergulho em caverna, utilizamos a “Frog Kick”, ou batida de pernas como “sapinho”, movimentando as nadadeiras de forma que ela desloque o volume d´água para as laterais, e não para cima e para baixo no método tradicional de mergulho.

Essa técnica é obtida durante os cursos de mergulho técnico e de caverna.

4) Cabo Guia

Todas as cavernas de mergulho possuem um cabeamento que vai até os limites seguros do mergulho. Se guiando pelo cabo, o mergulhador vai encontrar setas que sinalizam a direção de saída da caverna.

O que mais acontece em termos de acidentes de mergulho em caverna, é o mergulhador se distrair durante o mergulho e perder o cabo guia de vista, e quando por algum motivo a visibilidade cai drasticamente, o nível de stress aumenta exponencialmente, levando-o ao desespero, quando o mergulhador não está devidamente treinando para essa atividade, pois ele não como deve proceder para sair dessa situação.

Um mergulhador treinado quando enfrenta um momento desses, detém um controle emocional superior, pois ele já passou por essa situação durante as aulas práticas de mergulho em caverna, e sabe como deve proceder para sair desta situação em segurança e principalmente, sem o desespero.

Em uma situação como essa, o mergulhador treinando irá parar, raciocinar e irá executar os procedimentos para encontrar o cabo guia que ele perdeu de vista.

A falta dos procedimentos corretos e principalmente o desespero, são os principais motivos que levam um mergulhador que esteja em uma caverna vir à falecer.

Conclusões

Mergulhar com segurança em caverna, é:

  • Realizar todos os treinamentos necessários para esta atividade;
  • Ter o equipamento apropriado para tal;
  • Treinar a técnica e habilidades;
  • Realizar o mergulho para o qual você está qualificado;
  • Jamais ir além dos limites;
  • Ter um controle emocional.

Quando um mergulhador não segue esses procedimentos, as chances de um acidente são quase certas.

Hoje o Brasil possui muitos mergulhadores de caverna que realizam a atividade com segurança, e os números de acidentes por ano, chega à zero, em razão da forma como os cursos são ministrados no Brasil.

No ano de 2012, infelizmente tivemos uma fatalidade envolvendo três mergulhadores, sendo dois deles brasileiros, que foram realizar um mergulho de caverna no México. O mergulho era guiado por um mergulhador local, e infelizmente não sabemos o motivo inicial do acidente, mas todos os detalhes indicam que a falta de orientação e técnica dos integrantes deste mergulho, desencadeou uma série de problemas levando-os ao acidente fatal.

O “guia” não era um profissional de mergulho, e sim, um aventureiro que ali estava para ganhar dinheiro. Ele entrou na caverna com o casal sem nenhum treinamento de mergulho em cavernas e pouquíssima experiência, usando um cilindro duplo que já havia sido usado antes em dois outros mergulhos (já com pouco gás).

A luz no local já estava reduzida, pois eram 16:30h na caverna Chac Mool, além da caverna possuir muita haloclina, processo químico que dá a água, uma tonalidade de espessura, como um leite. O pior de tudo que foi feito, foi terem burlado a regra principal do mergulho em caverna: saíram do cabo guia de Caverna para um cabo de Cave, que são dois cabos diferentes, sendo um deles, voltado para mergulhadores iniciantes no mergulho em caverna e o outro, para os profissionais neste tipo de mergulho.

Outra falha gravíssima, foi a falta de gerenciamento de gás do casal. A negligência do guia e a inexperiência de todos, foram as causas da morte desses três mergulhadores.

As pessoas precisam parar de achar que o simples fato de ter um guia, irá eximí-las do perigo. Não se deve acreditar que o guia é todo poderoso e que pode livrá-los de um problema.

O mergulho em caverna possui riscos como toda atividade, no entanto, se o mergulhador for treinado e habilitado para tal atividade, as chances de um acidente serão próximas à zero.

Eu completaria que o mergulho em cavernas é realmente uma atividade de risco. Porém ao contrário do que muita gente acha, não se mergulha em cavernas por ter coragem. Ppelo contrário, se mergulha em cavernas graças às técnicas de gerenciamento de risco. O risco é gerenciado pelo conhecimento do que pode dar errado.

Como disse Sheck Exley, a “paranóia controlada” é o que o manteve vivo durante muitos anos. Graças a essa técnica, podemos rodar continuamente um “diagnóstico” dos riscos, localizando onde estão os problemas potenciais e traçando estratégias para lidar com eles.

A gestão de risco se dá de duas formas distintas: a preventiva, onde se evita a ocorrência dos riscos já identificados, e a corretiva que, caso aquele risco se realize, define estratégias de lidar com ele.

A gestão do risco no mergulho pode ser realizada usando ferramentas de gestão, feita da mesma forma que em uma empresa ou em um investimento. Essas ferramentas se chamam FMEA (Failure Mode and Effect Analysis).

Outra coisa altamente impactante no risco é a atitude do mergulhador. Na curva anexa, temos três pontos distintos:

A – Mergulhador iniciante, que têm pouco tempo de mergulho e baixa segurança, justamente por ser inexperiente;

B – Mergulhador que, graças ao seu suficiente tempo (e dedicação ao mergulho) tem um grau muito alto de segurança (logicamente isso é uma abstração, não se pode estar 100% seguro), mas que por não ter muito tempo (ou tempo demais) de mergulho, ainda mantém e respeita procedimentos de segurança;

C – Mergulhador que, por excesso de confiança e indolência, acaba por negligenciar as regras de segurança e consequentemente os riscos, assim reduz sua segurança. Note que, segundo o estudo do Sheck Exley os mergulhadores treinados e experientes no mergulho em cavernas têm as seguintes estatísticas de acidentes:

DO          – Depth – Profundidade Excessiva
GOOD      – Guide Line: falta em seguir um cabo guia contínuo até a superfície
ALWAYS   – Air: falta em seguir a regra dos terços;

Note que todas essas causas de acidentes são tipicamente problemas relativos ao excesso de confiança.

Porém o q vc precisa frisar é que o mesmo Sheck Exley definiu que, ao se considerar os acidentes em que todos os membros da comunidade de mergulho em geral (e não somente os caverneiros):

TRAINING  – Falta ou insuficiência de treinamento
GIVES       – Guide line: falta de cabo guia
ALL          – Air: falha na gestão dos terços
DIVERS     – Depth: excesso de profundidade
LIFE         – Light: falta de lanternas redundantes

Ou seja, o treinamento aqui tem o maior impacto nas estatísticas (que chegam a quase 70%) de acidentes.

Esse artigo foi elaborado com a participação especial de Romeu Dib, instrutor de mergulho em cavernas há mais de 15 anos e coordenador das operações de mergulho da operadora Dive Gold, na Mina de Mariana, em Minas Gerais, principal local de cursos e treinamentos de mergulho em caverna no Brasil, onde em mais de 10 anos de atividades, não ocorreram acidentes.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.