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Aprendendo
a Mergulhar
Você não sabe se foi
aquela viagem a Fernando de Noronha ou o bate-papo com os
amigos, mas de algum modo resolveu aprender a mergulhar.
Afinal, são milhões de mergulhadores espalhados pelo
mundo e cenas incríveis aparecendo em filmes, artigos em
revistas e reportagens na TV. O único problema é se
orientar no meio de tantos anúncios e siglas e descobrir
como se iniciar no que provavelmente será a atividade de
lazer que mais crescerá na década de 90, empurrada pela
onda ecológica. Aprender
a mergulhar é como aprender a dirigir - existem boas e
más auto-escolas, equipadas com carros em diversas
condições e empregando todos os tipos de instrutores.
Do mesmo modo, existem alunos que aprendem rapidamente e
outros que tem maior dificuldade, mas nenhum deles sai da
auto-escola pronto para enfrentar o trânsito da Marginal
Pinheiros em São Paulo ou da Avenida Brasil no Rio em
plena hora do rush. O segredo está em começar bem, sem
traumas ou sustos e realmente aprender.
Qualquer pessoa dos 12 aos
80 anos, homem ou mulher pode mergulhar. Basta vontade e
um mínimo de condicionamento físico. No Brasil já
contamos inclusive com instrutores habilitados a
acompanhar deficientes físicos de diversos tipos e são
poucas as doenças que criam restrições reais à
prática do mergulho. Mesmo assim, toda escola deve
exigir um exame realizado por um médico que conheça
medicina do mergulho. O objetivo deste exame é apenas
detectar eventuais disfunções que possam vir a causar
complicações debaixo d'água.
Como
começar
Existem três maneiras
fáceis de começar a carreira de mergulhador: as splash
parties, os resort courses e os cursos
básicos. Logo de início, tire da cabeça a idéia de
aprender com aquele amigo que mergulha há tantos anos.
Apesar do reduzidíssimo número de acidentes, o mergulho
é uma atividade potencialmente perigosa e saber
mergulhar é bastante diferente de saber ensinar, mais
ainda de saber tratar de uma emergência. No mergulho, um
bom treinamento é absolutamente essencial. As splash
parties são há anos o meio mais comum de apresentar
o mergulho às pessoas e estão se tornando cada vez mais
comuns no Brasil, organizadas por escolas de mergulho em
conjunto com clubes e academias. Nelas, em geral após
uma palestra com slides ou vídeos e algumas instruções
rápidas, você poderá experimentar a sensação de
mergulhar em uma piscina, acompanhado de um instrutor, em
condições absolutamente controladas e a um custo muito
pequeno.
Já os resort courses
foram criados para levar ao mundo submarino pessoas que
visitam lugares como o Caribe, Fernando de Noronha ou
Angra dos Reis. São cursos bastante resumidos que
habilitam a mergulhar sob a supervisão de um instrutor
em condições específicas, mas estão longe de
realmente credenciar um mergulhador.
A verdadeira porta de
entrada para o mergulho é o curso básico de mergulho
autônomo (Open Water Diving). Em cerca de 20
horas de aulas em teóricas e práticas e pelo menos 3
mergulhos no mar, você aprenderá o essencial sobre o
equipamento, como usá-lo, que atividades desenvolver
debaixo d'água, como lidar com situações de
emergência e o que são palavras como
"descompressão" e "barotrauma".
Escolhendo a escola
O passo mais difícil e
decisivo é a escolha da escola para o curso básico.
São dezenas de escolas espalhadas por todo o Brasil
(mesmo longe do mar com em Belo Horizonte). Em São
Paulo, por exemplo, as opções passam de 20, sem contar
os instrutores que trabalham como autônomos, oferecendo
cursos particulares (muitas vezes de excelente
qualidade). Tantas opções acabam por tornar a escolha
bastante complicada.
A confusão começa na
sopa de letras: "Você sabe, nosso certificado é da
ABCD que é melhor que o da FGH que não respeita os
princípios da XKWP. É claro, não ?". Do mesmo
modo que para dirigir um carro você necessita de uma
carteira de habilitação, ao terminar o curso você deve
receber um certificado. No futuro, ele servirá para
mostrar às operadoras (empresas que alugam barcos e
equipamentos para mergulho) que você realmente está
treinado para mergulhar. No passado, cada escola fornecia
um certificado próprio, mas com o aumento do número de
escolas ficou difícil para as operadoras conhecerem
todas e decidir quem tinha um bom programa de
treinamento. Surgiram assim as agências certificadoras,
que se propõe a padronizar currículos, treinar
instrutores e fornecer material didático, garantindo um
padrão mínimo de ensino. Hoje, praticamente todas as
escolas são filiadas a alguma certificadora. No Brasil,
três certificadoras internacionais estão presentes
garantindo a qualidade das escolas e instrutores
associados: PDIC, NAUI e PADI. Todas elas fazem parte do
RSTC, uma espécie de conselho das certificadoras
existente nos EUA e que é responsável pelas exigências
mínimas de treinamento, além de terem seus certificados
reconhecidos em todo o mundo. Sem dúvida alguma,
escolher escolas ou instrutores credenciados por estas
organizações já é meio caminho andado, embora também
existam boas escolas fora destes grupos.
O que define uma boa
escola ? Fatores como sala de aula, equipamentos,
material didático, piscina e local para as práticas de
mar sem dúvida alguma tem bastante influência, mas o
fator decisivo é um só: a equipe de instrutores. Os
equipamentos mais modernos no mais caro barco não
adiantam nada se o instrutor não souber aproveitá-los.
Além de possuir um vasto conhecimento sobre mergulho, é
fundamental que o instrutor saiba transmiti-lo e que seja
capaz de conseguir a confiança dos alunos.
Se você fez um resort
course ou participou de uma splash party e se
sentiu satisfeito, vá a frente com a mesma escola. Se
você não gostou do que viu ou não teve a oportunidade
de experimentar, pergunte aos amigos que fizeram curso
recentemente. A melhor avaliação de qualquer empresa de
serviços é aquela feita por seus clientes. Mas
lembre-se que o mergulho é um mercado muito dinâmico:
instrutores mudam de escola e bons barcos são vendidos -
não adianta nada consultar alguém que fez um curso há
cinco anos e nunca mais usou os serviços da escola. Por
outro lado, escolas que estão no mercado há dez ou
quinze anos tem alguma razão para isto: em geral, a
qualidade constante dos serviços.
E os preços ? Aqui talvez
esteja a maior preocupação de todos nós e talvez a
parte mais escorregadia da escolha. Tome muito cuidado
com as comparações diretas de preços entre escolas,
pois elas podem ser bastante enganosas. Algumas fazem dos
cursos "pacotes fechados", onde você paga uma
única vez e sai com o certificado na mão. Outras passam
o preço do curso e depois cobram uma série de
adicionais. Ao pesquisar preços, não deixe de se
informar sobre a duração do curso e o que está
incluído no preço. Itens como emissão de certificado,
material didático, exame médico, teste em câmara
hiperbárica, aluguel de equipamento e saídas de barco
podem dobrar o preço inicial. Se as práticas em mar
forem fora de sua cidade, considere também os custos de
hospedagem e alimentação. Esteja preparado para gastar
entre 150 e 350 dólares em um curso básico completo.
Talvez o mergulho seja um dos melhores exemplos do velho
ditado: "o barato sai caro"...
Outro fator a considerar
é o que acontece se você perder uma aula de piscina ou
enjoar no barco e não puder realizar uma prática de
mar. Quando você poderá repor a aula perdida ? Quais os
custos envolvidos em uma nova saída ?
A hora do curso
Tudo resolvido, é hora de
começar. Praticamente todas as escolas exigem que você
possua pelo menos o equipamento básico para iniciar o
curso: máscara, nadadeiras, snorkel e cinto de lastro.
Nestes equipamentos você vai gastar entre 50 e 100
dólares, dependendo da loja e da qualidade do
equipamento. Não economize aqui, pois este tipo de
equipamento geralmente dura vários anos e o conforto é
essencial. Uma nadadeira que machuca os pés ou uma
máscara que não se ajusta bem ao seu rosto podem ser
inconvenientes maiores do que se imagina durante o curso.
Comprar na própria escola é uma boa idéia, mas em caso
de dúvida não hesite em procurar outras lojas
especializadas. A quantidade de opções e a opinião de
um vendedor experiente é fundamental nesta hora. E o
restante do equipamento (roupa, cilindro, regulador, etc)
? Não compre nada agora, pois o investimento pode ser
grande (pelo menos 600 dólares em um equipamento
completo) e você ainda não sabe o que precisa nem qual
modelo é o mais adequado. Além do que, todas as
operadoras alugam os equipamentos mais caros.
Nas aulas teóricas você
aprenderá o por que e nas de piscina, o como. Durante o
curso, não deixe passar nada. Você tem o direito de
perguntar o que quiser e o instrutor, a obrigação de
responder. Repita os exercícios até se sentir
absolutamente confortável dentro d'água. Não se deixe
intimidar por companheiros que aprendem mais rápido,
siga em seu próprio ritmo.
Com o certificado na mão
O curso acabou, tudo
correu bem e lá está você com a colorida carteirinha
de plástico na mão - seu próprio certificado de
mergulhador ! E agora ? Muito provavelmente a escola não
lhe ensinou tudo e é hora de começar a adquirir
prática. Nos primeiros mergulhos (lembre-se da
comparação com a auto-escola), você ainda se sentirá
desconfortável e inseguro - e isto é absolutamente
normal. Nesta fase você provavelmente vai encontrar o
seu segundo instrutor (ou instrutora), vamos chamá-lo de
guru. Ao contrário do primeiro, ele não tem obrigação
nenhuma de ensiná-lo, mas mergulha há algum tempo,
conhece várias operadoras, se sente confortável dentro
d'água e acima de tudo está disposto a colaborar. Os
gurus estão em toda parte e vão poder ajudá-lo a
comprar e ajustar o equipamento, escolher os melhores
locais e operadoras e, com sorte, mergulharão com você
dando aquela confiança que faltava. Depois do décimo
mergulho, praticamente todos já se sentem confortáveis
e podem ser considerados "iniciantes
experientes".
Depois, provavelmente
você vai querer aprender mais e será hora de voltar à
escola. Todas as agências certificadoras oferecem os
programas de educação continuada, onde você poderá
ter contato com as especialidades (mergulho em
naufrágios, mergulho fundo, mergulho noturno, fotografia
submarina e muitas outras) e, se quiser, iniciar sua
carreira de instrutor de mergulho. Volte a sua escola (ou
procure outras) e pergunte o que elas oferecem.
Outro ponto importante é
o contato com um grupo de mergulhadores ativos, amigos ou
a sua turma do curso básico. Mergulhar sempre com os
mesmos companheiros facilita tudo, principalmente a
organização das saídas.
O mergulho é uma
atividade fascinante, abrindo as portas para um mundo
diferente do que você está acostumado. Se você ainda
não experimentou, vá em frente. E boa sorte !
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