Brasil Mergulho - A referência em mergulho
 

Principal     Artigos > Medicina Hiperbárica
  
Imprimir Favoritos Recomende
Barotraumas

O que você sabe e esquece e o que você provavelmente não sabe.

"Mamãe, fui naquela escola de mergulho massa, desci um metro e meio de profundidade e você não vai acreditar, tive um barotrauma do ouvido médio de terceiro grau".

Imagine você a cara da mãe, assustada com este tremendo palavrão. E provavelmente a grande maioria dos mergulhadores, porque barotraumas incomodam uma barbaridade e são responsáveis por uma série de cancelamentos de mergulhos. Curiosamente, a maioria destes poderia facilmente ser evitada com técnica correta e algumas precauções.

O termo barotrauma significa traumatismo (trauma) causado pela pressão (baro). De uma maneira grosseira, podemos classificá-los em barotraumas de descida e de subida, embora algumas lesões possam ser geradas por problemas na descida e na subida.

Antes de descrever os barotraumas é importante relembrar que nosso corpo sofre a maior variação de pressão nos metros mais próximos à superfície. Por exemplo, ao descer da superfície para 10 metros, no nível do mar, a pressão dobra, de 1 ATM para 2 ATM. Quando vamos de 10 para 20 metros, a pressão aumenta apenas um-terço, de 2 para 3 ATM e assim por diante. Concluimos daí que o maior cuidado com a pressão deve ser tomado nestes metros iniciais. Outro conceito importante a relembrar é que barotraumas só ocorrem por compressão ou expansão de espaços com gás, pois líquidos não são compressíveis.

O barotrauma mais comum é o barotrauma do ouvido médio, que é um compartimento aéreo, localizado para dentro do conduto auditivo externo. Quando descemos, o aumento da pressão da água começa a empurrar a membrana do tímpano, que delimita o ouvido médio. Se não equalizamos corretamente, esta membrana pode ser machucada em graus variáveis, desde um quadro simples com dor, mas sem lesão na membrana, até o extremo com a sua ruptura. Para a sua prevenção devemos, desde a superfície, equalizar esta pressão, antes que surja dor. Talvez esteja aí o maior erro técnico relacionado à equalização, as pessoas costumam esperar a dor ou sensação de pressão, para iniciar a equalização. Uma vez que surja um gradiente de pressão e dor importantes, há uma musculatura da tuba auditiva que se contrai, impedindo a continuidade do processo. Lembre-se, equalize desde a superfície, equalize com frequência e caso o ouvido venha a "travar", suba até que a sensação passe e volte a descer, equalizando constantemente.

Um fato curioso é que muitas vezes o indivíduo segue mergulhando com dor, que passa após algum tempo, pois o ouvido médio, já inflamado, se enche de líquido. Após o mergulho vem a sensação de surdez e de água no ouvido.

O barotrauma do ouvido médio pode ocorrer durante a subida, quando mergulhamos resfriados, ou usamos descongestionantes cujo efeito passe durante o mergulho, o que chamamos bloqueio reverso. Se você vier a ter um bloqueio reverso, desça alguns metros e volte a subir lentamente, fazendo movimentos laterais com o pescoço.

Os seios paranasais, (ou seios da face) são cavidades distribuidas na face e no crânio, forrado de tecido mucoso nasal. Temos os seios da face (frontal e sinusal) e internos na cabeça (etmoidal e esfenoidal) que são equalizados da mesma forma, através da manobra de Valsalva. Todos seios paranasais podem sofrer barotraumas, embora mais raros, pois a forte dor impede que o mergulhador desça. Também em graus variados, pode gerar desde uma sensação de peso até hemorragias, com dor na área afetada. É importante lembrar dos seios etmoidal e esfenoidal. Estes podem causar dores de cabeça vagas, pouco relacionadas pelo mergulhador.

Cuidado, infeções de vias aéreas, rinites e outros quadros acabam dificultando a equalização do ouvido médio e dos seios paranasais. Não mergulhe se estiver com alguma das condições acima. O uso de descongestionante pode levar a bloqueio reverso, tanto no ouvido médio, como nos seios paranasais.

Um quadro quase pitoresco é o barotrauma da máscara (ou facial), que ocorre quando não equalizamos o espaço aéreo artificial criado pela máscara. Com o aumento de pressão na descida, a máscara aperta gradualmente a pele da face, causando uma sensação de pressão na face. Os vasos sanguíneos da face começam a se romper, causando um hematoma. Muitas vezes ocorre hematoma no branco dos olhos (conjuntiva). O problema é que o processo todo é indolor, e muitas vezes o mergulhador sai da água sem perceber nada, até que vira motivo de chacotas, com a tal "face de guaxinim" e o caso se resolve sózimho com muitos dias de cara roxa (aliás, muda de cor). Um detalhe, já vi instrutores mencionando que os olhos poderiam saltar da órbita, o que não passa de tremenda mentira.

Uma forma de barotrauma é a hiperdistensão pulmonar, aliás a doença mais grave e felizmente mais rara do mergulho autônomo. A hiperdistensão ocorre durante a subida, quando o mergulhador não deixa que o ar saia naturalmente dos pulmões. Muitas vezes isto ocorre por falha técnica ou stress, mas certas doenças podem precipitar a condição, como a asma. O quadro é variável, mas pode gerar quatro situações:

  1. Embolia aérea: bolhas de ar na circulação arterial, que podem obstruir a circulação cerebral, condição gravíssima.

  2. Pneumotorax: Escape de ar entre o pulmão e a caixa torácica, fazendo que o pulmão afetado diminua sua capacidade.

  3. Enfisema subcutâneo: Escape de ar por baixo do tecido gorduroso, normalmente acima da clavícula.

  4. Enfisema mediastinal: Escape de ar à volta do coração.

Mais um detalhe, há casos descritos onde o acidente ocorreu de pouco mais de três metros para a superfície. É difícil imaginar que esta pequena variação de pressão possa gerar tal problema. Para entender o que acontece, imagine que seu alvéolo pulmonar é uma bola mucha macia, com uma válvula de enchimento, mais dura. Se você expandir a bola rapidamente, toda a sua circunferência irá expandir, exceto a área do bico. Isto poderá fechar esta área, impedindo o escape de ar

É importante lembrar que a vítima pode apresentar todas as condições acima, e que é fundamental prevenir a hiperdistensão pulmonar, usando a regra básica mais importante do mergulho autônomo:

 

NUNCA PRENDA A RESPIRAÇÃO ENQUANTO ESTIVER UTILIZANDO AR COMPRIMIDO

 

Um cuidado deve ser exercido quando o mergulhador faz a prática do exercício de subida livre de emergência. Embora muitas pessoas utilizem uma técnica um tanto discutível, de exalar sem o regulador na boca, a mesma não tem qualquer fundamento técnico ou médico e a inalação acidental de água ou um espasmo podem precipitar uma embolia aérea. A técnica correta consiste em exalar continuamente através do regulador, que permite a exalação num fluxo adequado e protege o mergulhador da condição antes descrita.

Vale a menção que mencionei exercício de subida livre, e não rotina. Mergulhadores não devem, sob qualquer circunstância, permitir propositalmente que seu ar acabe debaixo da água

Um barotrauma que não permite equalização é o barotrauma dental, causado quando se formam cavidades geradas por cáries, material odontológico que retraí ou ainda tratamento de canal mal feito. O quadro é bastante doloroso e pode ocorrer tanto na descida como na subida. A prevenção se faz com visitas periódicas ao dentista, fazendo-o saber que está tratando de um mergulhador.

Outro barotrauma por espaço artificial é o barotrauma da roupa seca. Como qualquer espaço aéreo, a roupa seca deve ser equalizada com ar durante a descida, e ventilada durante a subida. A condição é muito rara, pois quando o mergulhador desce com a roupa seca, é quase impossível se mover se esta não for equalizada.

Existem barotraumas mais raros, que evitarei mencionar por falta de espaço. Apenas uma curiosidade com respeito a barotrauma intestinal ou de vísceras: a menos que o mergulhador tenha alguma condição cirúrgica prévia ou doença, qualquer gás produzido no aparelho digestivo tem duas vias naturais de escape. Obviamente não é confortável ingerir alimentos fermentativos e permitir a expansão deste gás na volta do mergulho, pois a coisa pode ficar "explosiva" por perto.

Para finalizar, barotraumas são condições facilmente evitáveis, com boa técnica e sem teimosia.

Bons mergulhos

 
Gabriel Ganme
, mergulha desde 1980 e além de médico, é Course Director pela PADI desde 1990. Possui diversas especialidades. É Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Cavern Instructor (PADI). Instrutor técnico pela TDI e IANTD e Trainer de Deep Tec pelo DSAT. É membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society, Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), National Speleological Society / Cave Diving Section (NSS/CDS) e foi autor de várias colunas nas revistas Scuba e Mergulho.

Site: www.divingcollege.com.br

E-mail: gabriel@divingcollege.com.br














 
  Topo
 
     
    Termos de Uso     Mídia     Anuncie     Fale Conosco  
     
    Parceiros  
 
     
Apoiamos
Daniel Botelho
Instituto Laje Viva
Revista Mergulho
Coral Restoration Foundation    
Projeto Meros do Brasil    
Conexões

 
   
  O site Brasil Mergulho é integrante da Brasil Mergulho Produções e foi criado com a missão de oferecer informações sobre Mergulho e todos os assuntos relacionados de forma qualificada, rápida e gratuita. O Brasil Mergulho Produções não se responsabiliza pelo conteúdo exposto, não comercializa produtos e não atua na área de cursos e treinamentos de mergulho. Caso você não concorde com algum conteúdo exposto neste portal ou possua alguma dúvida em relação aos termos de uso do portal, entre em contato com nossa equipe para mais esclarecimentos. Publicidades e campanhas aqui veiculadas, não refletem nossa opinião. Mergulhar requer cursos e treinamentos.