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Lesões por seres marinhos
Você está em Fernando de Noronha, curtindo aquelas
férias merecidas e mergulhando que nem um louco. De repente, avista um
tubarão, e algumas sensações lhe atingem num piscar de olhos, "vou
virar refeição ?", "será que ele me viu ?", "como posso
fugir ?"
A menos que você seja um famoso cinegrafista, e pretenda
filmar todas as fileiras de dentes possíveis daquele "terrível"
tubarão, está com sensações erradas. Das mais de 300 espécies descritas
de tubarões, pouco mais de 10 são sabidamente agressivas, além de não
terem muito "apetite por mergulhadores".
Em verdade, a grande maioria das lesões que
mergulhadores sofrem por serem marinhos decorre de falta de cuidados com
animais que sequer se locomovem, ou seja, o contato é causado pelo
mergulhador. A idéia é discutir as lesões mais comuns, e longe de esgotar
o assunto, dar uma orientação geral de procedimentos. Maiores
informações podem ser obtidas em cursos de biologia marinha, disponíveis
nas diversas escolas, em livros específicos para o tema, e sempre
procurando orientação de guias de mergulho em locais onde o mergulhador
não esteja familiarizado.
De maneira grosseira, poderíamos classificar estas
lesões em:
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Perfurações, cortes e abrasões (esfoladuras)
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Picadas
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Reações alérgicas por contato
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Mordeduras
Nossa pele fica mais frágil após algum tempo na água,
e qualquer contato mais descuidado com pedras, corais, peças de
naufrágios, etc pode levar a cortes. A prevenção se faz com o uso de
roupas. Muitos resorts proibem o uso de luvas, pois alguns mergulhadores
certamente sairiam colocando a mão em tudo o que veem, destruindo corais. E
muitos inocentes pagam o "pato", pois mesmo com bom controle de
flutuabilidade, algumas vezes certos contatos são inevitáveis. Algumas
pessoas cortam suas mãos descendo pelo normalmente encrustrado cabo da
âncora.
Por menores que sejam, cortes e abrasões devem ser
limpos e desinfectados. Procure remover qualquer resíduo da ferida. Depois
de lavar com água potável, você pode passar uma solução desinfetante a
base de iodo. Cortes maiores podem precisar receber cuidados médicos
adicionais. Caso você venha a se cortar em ferragens de um naufrágio, que
não é exatamente um ser marinho, é importante usar água oxigenada no
ferimento e checar se sua vacinação para tétano está em dia. Não
confunda, a vacina pode ter validade de cinco anos, mas se você recebeu a
anatoxina (por outro motivo) a validade é de apenas seis meses.
Perfurações por ouriços são frequentes em
mergulhadores curiosos ou desatentos em demasia. Caso aconteça, tente
remover cuidadosamente com uma pinça o pedaço exposto, mas não cutuque
dentro da pele. Nosso corpo tem boa capacidade de "rejeitar" com o
tempo, o que ficou para dentro. Cuidado especial deve ser dado quando estas
perfurações atingem uma articulação. Nestes casos, é preciso
avaliação médica, pois há risco de infeção intra articular.
O termo picada não é exato, mas descreve lesões por
alguns tipos de conchas e peixes. Colecionadores de conchas devem saber no
que estão mexendo. De um certo tipo de concha, os conídeos, existem
algumas espécies cujo veneno pode ser letal ao homem. Estes bichinhos
simpáticos normalmente botam seu aparelho digestivo (probóscide) para
fora, injetando uma toxina paralisante no seu futuro "prato". No
caso do homem, estas conchas podem resolver fazer isto uma fez pegas na
mão. O socorro deve ser imediato. Se você souber como, faça um curativo
compressivo à volta da picada. Coloque o local afetado em água quente (43
à 45° C) para inativar o veneno e aliviar
a dor. A vítima deve ser hospitalizada, assim que possível. Felizmente,
espécies mais "agressivas" de conídeos são raras no Brasil.
Peixe-pedra, peixe-leão e outros peixes escorpionídeos
normalmente vivem em tocas, corais ou na areia e o contato casual ocorre
quando o mergulhador não vê onde pisa ou coloca a mão. Felizmente poucos
destes habitam as águas brasileiras. Uma espécie de peixe-pedra
australiana tem um veneno letal, e os hospitais locais costumam ter
antídoto para tal. Mesmo no Brasil, caso você tenha sido
"picado" por um peixe, alem de lavar com água doce e desinfetar a
ferida, a imersão da área afetada em água quente (43 à 45°
C) deve ser feita, por pelo menos 30 minutos. O mesmo procedimento se aplica
a ferroadas de arraias de fundo, além de tentar rmover resíduos do
ferrão. Tanto arraias como peixes-pedra costumam mimetizar com o meio, ou
seja, se na areia, ficam com a cor da mesma, camuflando-se.
Entre as reações alérgicas por contato, existem as
lesões urticantes por coral de fogo, água-viva, caravela e outros, que
embora tenham mecanismo diferente, recebem procedimento similar. Vale
lembrar que enquanto o coral de fogo não passeia pelo mar, a água viva
está em constante movimento e a caravela, embora se locomova pela
superfície, tem tentáculos submersos de até 10 metros de comprimento. A
caravela e a água-viva, emboram sejam animais diferentes, têm em seus
tentáculos uma estrutura chamada nematocisto, em cujo interior fica uma
espícula urticante, o cnidoblasto. Este, em contato com a pele, descarrega
a espícula. Nos cuidados com estas lesões, começe lavando a área afetada
com água do mar (para não "explodir" os nematocistos), depois
remova tentáculo(s) residuais com uma pinça ou uma caneta, pois alguns
nematocistos podem ainda não ter descarregado seus cnidoblastos. Use
vinagre abundantemente, até alívio total. Na falta de vinagre, pode-se
usar alcool ispropílico de 40 a 70%. Em último caso, use
"urina".
Certas pessoas podem apresentar reações alérgicas a
basicamente qualquer coisa do mar. Cremes ou pomadas anti-alérgicas
costumam aliviar a condição. Deve-se evitar pomadas a base de cortisona,
se houver corte ou risco de infecção na área.
As lesões mais raras são as mordeduras, que ocorrem
mais por um instinto de defesa do animal acuado do que para predar. Desde o
simpático polvo, que nem sempre quer ser molestado pelo mergulhador
(cuidado com o Polvo Azul do Pacífico), até a famigerada moréia, que pode
morder se acuada na toca, estes raros acidentes podem acontecer. Como já
mencionado no início da matéria, ataques de tubarões a mergulhadores são
raríssimos, e mesmo boa parte destes ataques comprovados não são letais,
se ocorrer o socorro adequado. Lavagem e estancamento da hemorragia do
ferimento são fundamentais, e como peixes não costumam escovar os dentes,
água oxigenada é o líquido preferido para uma boa limpeza. Muitas vezes,
cuidados médicos adicionais são necessários.
O tema é muito mais extenso e, como já dito,
impossível de ser esgotado. Uma vez mais, o Brasil é um paraíso neste
aspecto, a menos que você pratique surfe em Recife.
Bons mergulhos, sempre respeitando os "donos da
casa".
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