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Primeiros Socorros - Acidentes de Mergulho
Continuando a série de artigos sobre primeiros socorros,
falaremos agora de acidentes de mergulho, especificamente dos problemas mais
graves, e felizmente mais raros no mergulho autônomo esportivo, a doença
descompressiva e a hiperdistensão pulmonar. Num próximo artigo, falaremos
de primeiros socorros a outros tipos de acidentes e de lesões por seres
marinhos e em um artigo específico, abordaremos mais a fundo a doença
descompressiva.
Doença Descompressiva
A doença descompressiva ocorre quando o nitrogênio
absorvido durante o mergulho é eliminado de forma inadequada, produzindo
bolhas no corpo. Como já sabemos, o nitrogênio está presente em grande
quantidade no ar e, apesar de respirado, não tem qualquer função no
organismo e nem causa qualquer problema, em condições normais de pressão.
Podemos dizer que, nestas condições, nosso corpo convive com uma
quantidade inócua de nitrogênio.
Quando começamos nossa descida, respiramos ar a
pressões pressões maiores, em proporção direta ao aumento de
profundidade. De maneira simplificada podemos dizer que, a 10 metros de
profundidade, estamos recebendo o dobro de carga de nitrogênio, a 20 metros
o triplo e assim por diante. Se um mergulhador ficasse submerso a 10 metros
por alguns dias, seu corpo estaria num estado que chamamos de
"saturação", ou seja, para aquela dada profundidade (em
consequência, pressão) o corpo se saturou completamente de nitrogênio e
tudo o que entra, sai, como acontece ao nível do mar. Como não vivemos em
habitats subaquáticos nem ficamos tanto tempo debaixo da água, usamos as
tabelas de mergulho, que prevêem a quantidade de nitrogênio absorvido,
pelo tempo e profundidade do mergulho, e calcula parâmetros para que
possamos subir eliminando o nitrogênio de maneira adequada, sem que volte
à forma gasosa. Quando isto não acontece e se formam bolhas no corpo, a
doença pode ocorrer.
Como reconhecer
A doença descompressiva pode surgir desde os primeiros
minutos da volta à superfície, até horas ou dias depois, mas comumente os
sinais e sintomas surgem na primeira hora e pioram progressivamente. Quadros
leves podem apresentar manchas avermelhadas com coceira na pele (em geral no
abdômen e no tórax), dor nas articulações (mais comumente o ombro).
Quadros mais sérios podem apresentar perda de
sensibilidade e de força progressiva nos membros, de maneira simétrica (as
duas pernas, por exemplo), fraqueza exagerada, vertigem inexplicada e
problemas respiratórios. Não espere por sinais/sintomas isolados, pois as
bolhas podem se formar em várias áreas do corpo, e podem circular,
atingindo diversas áreas.
Hiperdistensão Pulmonar
A hiperdistensão pulmonar ocorre quando um mergulhador
usando ar comprimido sobe prendendo a respiração, mesmo que por um pequeno
período ou distância da superfície, propositada ou acidentalmente.
Devemos lembrar que a maior expansão de volumes ocorre dos metros finais
até a superfície. Entre os fatores associados à sua causa estão alguns
erros técnicos, como subir muito rápido ou prender a respiração por ter
levado um susto, e alguns problemas pulmonares, como restrições nos
brônquios e bronquíolos (uma crise de asma, por exemplo).
Quando um alvéolo expandido se rompe, podem ocorrer
quatro condições graves, já descritas na matéria sobre barotrauma:
-
Embolia aérea (entrada de bolhas de ar na
circulação arterial), que pode levar a problemas circulatórios no
cérebro, condição gravíssima.
-
Pneumotórax (entrada de ar entre o pulmão e a caixa
torácica, impedindo a mecânica da respiração), que pode levar a uma
insuficiência respiratória importante.
-
Pneumomediastino (entrada de ar à volta do
coração), que pode causar problemas circulatórios e respiratórios
-
Enfisema subcutâneo (entrada de ar sob a pele),
condição menos importante porem incomum isoladamente.
Como reconhecer
Sintomas de hiperdistensão pulmonar surgem imediatamente
da volta à superfície, até no máximo alguns minutos após. É comum o
mergulhador vir a apresentá-los, ainda na água. Dor no peito, tosse com
catarro sanguinolento, problemas neurológicos assimétricos (um lado do
corpo paralisado, por exemplo) e até perda de consciência podem ocorrer.
Como socorrer
Sempre que se suspeita que um mergulhador está com
sinais/sintomas de doença descompressiva ou hiperdistensão pulmonar, o
mesmo deve receber primeiros socorros para tal. Como o socorrismo é
idêntico para as duas condições, o diagnóstico preciso não é tão
importante nesta fase, mas sim o tempo de inicio dos socorros e do
tratamento, fundamental para um melhor resultado.
O primeiro passo é colocar a vítima, se consciente,
deitada ou sentada em posição confortável. Uma pessoa inconsciente deve
ser deitada de lado, na posição de recuperaç.
Vítimas de hiperdistensão pulmonar podem vir a ter
parada cardíaca, necessitando de ressuscitação. A seguir, deve-se
fornecer oxigênio, na mais alta concentração possível, beneficiando as
duas condições. Na doença descompressiva, o oxigênio acelera a
eliminação do nitrogênio, fazendo que as bolhas diminuam de tamanho, pois
"saturando" o corpo de oxigênio, acabamos deixando uma diferença
grande de pressão de nitrogênio das bolhas para o mesmo, e este gás
começa a sair das mesmas. Na hiperdistensão pulmonar ajuda na oxigenação
da vítima de pneumotórax, cujos pulmões já não funcionam a "todo
vapor", e mais importante, ajuda a oxigenar e preservar áreas
cerebrais que estejam sofrendo falta de irrigação sanguínea, devido à
oclusão de artérias por bolhas de ar, usando artérias adjacentes à area
afetada. Ainda, produz um efeito "anti-inflamatório".
Idealmente, devem ser usadas as unidades de oxigênio de
demanda, que fornecem próximo de 100% de oxigênio. Similar a uma unidade
scuba, o equipamento de demanda tem um regulador, que libera o oxigênio
apenas quando o paciente inspira. Associado a uma máscara facial de boa
vedação, fornece o bom resultado supra citado.
Na falta de uma unidade de demanda, a unidade de fluxo
contínuo pode servir, se usada com uma máscara acoplada a uma bolsa
especial (NON-REBREATHER). Com esta máscara, consegue-se uma boa
concentração de oxigênio, mesmo que se desperdice uma grande quantidade
de gás, pois o mesmo flui continuamente.
Pacientes que estejam conscientes e sem problemas
neurológicos devem ingerir líquidos isotônicos em abundância, pois uma
boa hidratação é importante para ajudar a eliminação do nitrogênio.
Outro fator importante é impedir a perda desnecessária de calor e por isto
a vítima deve ser mantida coberta e aquecida.
Tratamento
O tratamento específico é a recompressão do paciente
em câmara, para diminuir o tamanho ou eliminar as bolhas já existentes.
Ainda, o uso de oxigênio sob pressão, neste ambiente controlado, ajuda na
recuperação do processo. Isto, desde que o paciente não esteja tão grave
que tenha que ser hospitalizado e estabilizado. Idealmente, deveria ser
recomprimido numa câmara dentro de ambiente hospitalar. Nas primeiras horas
posteriores ao acidente, é importante o uso de câmaras que possam levar o
paciente a grandes pressões (pelo menos 5 atmosferas).
É importante lembrar que o mergulhador deve estar
constantemente aprendendo e os cursos de mergulhador de resgate (rescue
diver) e dentro deste curso, ou como um curso à parte, existe o programa
Oxygen Provider da DAN, que visa ensinar especificamente o uso de oxigênio
nos acidentes de mergulho.
Bons mergulhos, prevenindo problemas com boa técnica e
bom senso, mas lembre-se que estas condições existem.
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