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Doença Descompressiva e Recompressão na Água
Sempre que alunos de curso básico aprendem sobre a
doença descompressiva, acabam perguntando "se o tratamento é
recompressão, porque não fazê-la na água". Embora pareça obvio, o
procedimento não é simples nem muito seguro, apenas um opção em
circunstâncias bastante raras.
Como a recompressão age
Em primeiro lugar é importante que se entenda como a
recompressão age no tratamento da doença descompressiva. Tal doença
decorre primariamente da formação de bolhas ricas em nitrogênio nos
tecidos e no sangue, devido à eliminação inadequada deste gás (ver scuba
número ???). As bolhas podem causar lesão direta no tecido ou obstruir a
circulação, impedindo uma oxigenação adequada. Uma vez que uma bolha
tenha se expandido, é necessária uma pressurização de 5 ATAs (pelo menos
40 metros de profundidade), para reduzir seu diâmetro em 50 %.
Um paciente que chega a uma câmara de recompressão nas
primeiras horas posteriores ao acidente é frequentemente recomprimido a
esta pressão, visando inicialmente uma redução no tamanho das bolhas.
Depois, numa segunda fase, a pressão é diminuida, e o paciente respira
oxigênio, que ajuda a remover o nitrogênio de dentro da bolha. Entre as
diversas etapas, se passam algumas horas.
Imagine agora tentar tratar uma pessoa na água com o
perfil recompressivo supra-citado. Imagine levar uma pessoa com as pernas
paralisadas a 40 ou 50 metros de profundidade no mar, e imagine a quantidade
de descompressão que será necessária para retirá-la da água. Imagine
ainda a quantidade necessária de gás e o tempo do tratamento. Imagine
ainda condições de mar muito ruins, dificultando as paradas de
descompressão nas profundidades.
Pelos motivos acima citados, além de estatísticas
mostrando maus resultados, a recompressão na água à grande profundidade,
com ar, não é feita em nenhuma circunstância.
O oxigênio hiperbárico
O oxigênio beneficia o tratamento da doença
descompressiva ajudando na eliminação do nitrogênio. Ao administrarmos
oxigênio, mesmo na superfície, geramos um grande gradiente de pressão
entre o tecido (ou sangue) à volta da bolha. Com este gradiente, o
nitrogênio passa a sair da bolha, enquanto o oxigênio entra. No início,
os sintomas podem piorar pois o oxigênio entra mais rápido do que o
nitrogênio sai. Depois o oxigênio, metabolizado pelo corpo, passa a sair.
É por isto que fornecemos oxigênio como medidas de primeiros socorros.
Quanto mais oxigênio melhor ?
O oxigênio hiperbárico (sob pressão) é mais efetivo
que 100 % de oxigênio na superfície, pois criará um maior gradiente de
pressão, além de efeito anti-inflamatório no tecido afetado. O motivo é
simples, em condições normais de pressão não conseguimos assimilar mais
oxigênio do que nossos glóbulos vermelhos podem carregar. Em condições
hiperbáricas conseguimos dissolver este gás diretamente no plasma (parte
líquida do sangue). Um problema importante é a toxicidade deste gás.
Normalmente, não se usa mais do que 1.6 ATAs de oxigênio no mergulho
(respirar 100 % de oxigênio a seis metros de profundidade), sob o risco de
convulsão, o que seria letal debaixo da água (a vítima se afoga).
Tabelas de tratamento para recompressão na água são
usadas em situações extremas (e uma evacuação para uma câmara irá
demorar demais), com 100 % de oxigênio em profundidades pequenas – de 9
metros (aonde se respira 1,9 ATA de oxigênio) até a superfície.
Para que uma possível convulsão na água não se torne
letal, algumas medidas são mandatórias, como o uso de máscara full-face
(cobre todo o rosto e caso ocorra uma convulsão, a vítima não perde o
regulador), proteção térmica adequada para o tempo de recompressão e
temperatura da água, quantidade suficiente de oxigênio, condições
ambientais que permitam e uma pessoa observando o procedimento na água.
A tabela mais comumente usada preconiza 180 minutos de
oxigênio, distribuídos entre 9, 6 e 3 metros.
Vale o risco ?
Extremamente complexa, se bem aplicada a recompressão na
água, com oxigênio puro, mostra bons resultados. Nunca superiores do que a
recompressão em câmara, e muitas vezes também não superiores do que o
oxigênio na superfície. Então, porque e quando usar ?
Em locais remotos, onde uma evacuação para câmara
será extremamente demorada e o oxigênio de superfície não se mostra
efetivo (se aplicado corretamente, com válvula de demanda, a 100 %), e o
quadro parece piorar, por exemplo com evolução de sintomas localizados
(pele e juntas) para sintomas de comprometimento nervoso.
É importante lembrar que a doença descompressiva é
muito rara no mergulho recreacional não descompressivo, e que o equipamento
para recompressão na água é caro, complexo e quase nunca está
disponível, a menos que planejado anteriormente. Já mergulhadores
técnicos, em função do risco aumentado, costumam ter este tipo de
equipamento à mão
Fica então minha opinião final que a recompressão na
água se limita a casos extremos em locais remotos, onde não surge
alternativa melhor.
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