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Álcool e o Mergulho
Introdução
O mergulho é uma entre as várias
atividades de lazer do mundo moderno. Estas atividades, por definição,
devem gerar prazer e realização aos seus praticantes. O espírito de
aventura e a busca de novas sensações ao entrar num mundo diferente é o que
motiva muitos a viajar e mergulhar, sendo a maneira mais barata de se fazer
uma viagem a outro mundo.
O mergulho e toda atividade social a ele vinculada, pode ser o nosso programa
de férias ou mesmo de um final de semana de folga. Durante esses períodos,
nos tornamos mais sociais. Brincamos, festejamos o convívio com amigos e
dividimos o prazer de visitar este mundo submerso com nossos irmãos de
atividade. Enfim, nos divertimos e nos tornamos mais felizes.
Durante os ritos de socialização que envolvem o mergulho, há quem relaxa
num bar no meio do caminho de casa bebendo uma cerveja após ter realizado vários
mergulhos cansativos. Há quem beba um drinque no bar do hotel enquanto
aguarda os parceiros de mergulho para sair e passear. Há quem acabe jantando
fora e bebendo um bom vinho. E há aqueles que dão uma espichadinha para
continuar a se divertir bebendo e dançando até tarde da noite. É comum nas
atividades sociais paralelas ao mergulho que alguns mergulhadores se liberem
fazendo coisas que não fazem parte das suas rotinas habituais. Essas
atividades podem tirar o sono indispensável para que o mergulhador se refaça
de um dia de mergulho, gerando mais cansaço fazendo com que a hidratação
seja relaxada.
Atualmente podemos observar intermináveis discussões sobre o quanto o álcool
é ou não prejudicial à prática do mergulho autônomo amador. Pois bem, o
álcool, assim como outras drogas, não é compatível com este esporte e o
meu discurso não pretende ser a pregação de uma nova prática religiosa.
O Dr. Ernest Campbell, do Diving Medicine on Line, responde de maneira
objetiva, bem ao estilo norte americano, quando lhe perguntam se há algum
perigo em beber bebidas alcoólicas e mergulhar: "A resposta curta é que
bebendo álcool antes e durante viagens de mergulho um mergulhador coloca em
risco não somente ele, mas também seu parceiro de mergulho".
A ação do álcool
O álcool é seguramente a
droga mais relacionada ao uso abusivo. Apesar dos inúmeros trabalhos de
pesquisa que comprovam os malefícios que produz à saúde, ainda persiste o
mito que "alguns goles" não são significativos em relação à
diminuição do desempenho psicomotor na realização de certas atividades de
risco como, por exemplo, o mergulho autônomo amador.
O álcool é um depressor das atividades do sistema nervoso central. É uma
droga lícita que tem efeitos dependentes da dose consumida. Existe o consenso
de que a ingestão de álcool antes de executar tarefas que exigem da
psicomotricidade resulta em desempenhos ruins e risco aumentado de perda de
controle sobre a atividade realizada. Isto é válido mesmo que a pessoa se
sinta bem e que aparentemente esteja normal em seu comportamento.
O álcool tem efeito direto sobre a transmissão e condução nervosa. Ele tem
ação inibitória sobre a transmissão nervosa funcionando como um narcótico.
Parece claro que a performance motora está prejudicada em função dos seus
efeitos depressores sobre a atividade do sistema nervoso central e dos nervos
periféricos que carregam sinais nervosos aos músculos resultando em
movimento. Ou seja, pelo retardo na condução do estimulo nervoso que ele
provoca em o todo o sistema nervoso há um prejuízo na realização de
tarefas que exijam da psicomotricidade.
Especificamente está bem documentado os efeitos do álcool na coordenação,
no discernimento e no raciocínio mental sendo que estas alterações têm
implicações óbvias na capacidade de um mergulhador realizar as tarefas
pertinentes ao mergulho seguro. Essa redução de capacidade também se aplica
ao período de ressaca.
Foi observado que o tempo de reação, a performance de avaliação visual, a
atenção concentrada, a capacidade de procurar informação em tarefas que
dividem a atenção, o julgamento e execução de tarefas motoras, tão necessárias
à prática do mergulho seguro estão diminuídas quando o álcool está ou
esteve no corpo nas últimas 24 horas.
O sujeito que usa álcool pode achar que não está prejudicado na baixa dos
desempenhos citados anteriormente e até mesmo não parecer afetado quando
observado por outros. Mas, definitivamente e de forma bem comprovada
cientificamente, ele está comprometido. Estas alterações persistem por um
considerável período de tempo. As pesquisas demonstram que há uma redução
na capacidade individual de processar informações particularmente no que se
refere à realização de tarefas que requerem divisão de atenção, que
persiste por muitas horas após o nível de álcool no sangue chegar a zero.
Isto se deve ao fato de mesmo após o álcool ter chegado a níveis não
detectados, ele não foi eliminado totalmente e ainda está distribuído em
outros compartimentos do nosso organismo. A eliminação total demora tempo e
requer o equilíbrio de distribuição continuado entre os vários
compartimentos até eliminação completa. Ou seja, apesar do álcool não ser
detectado em um determinado momento no sangue, não quer dizer que ele foi
totalmente eliminado do interior de nossas células nervosas.
A concentração de álcool no sangue
Legalmente a intoxicação é
considerada quando há níveis de álcool acima de 0,1% no sangue. É difícil
aceitar que uma pessoa com uma concentração de álcool no sangue de 0,09% não
possa estar sob efeito do álcool. As pesquisas médicas tornam clara a
natureza individual da resposta tóxica à droga. Além disso, o efeito é
dose dependente e varia de pessoa para pessoa em função de limites
individuais de sensibilidade a droga. Portanto, qualquer ingestão de álcool
vai ter algum efeito sobre o sistema nervoso central. Quando o efeito do álcool
resulta em perda de controle ele torna-se bastante óbvio em termos diagnósticos.
O efeito do álcool nunca melhora a performance sobre atividades psicomotoras.
O sujeito simplesmente acredita que pode fazer algo melhor que o outro. É só
uma ilusão de quem está sob efeito do álcool. O uso do álcool, mesmo em
dose moderadas, claramente carrega um aspecto de comportamento auto-destrutivo
e leva a altas probabilidades de acidentes sérios. Principalmente em
atividades de risco como no mergulho autônomo.
Alguns dados são interessantes de relatar. A Associação Médica Americana
estipula em 0,05% o limite de concentração do álcool no sangue para dirigir
automóvel. Este dado é importante, pois ele é conflitante com o valor limítrofe
legal de intoxicação. Ou seja, a comunidade médica americana entende que há
um espectro de perdas de capacidade de desempenhos que é dose dependente. A
Autoridade Federal Aeroviária Norte Americana considera um aviador sobre
influência do álcool quando apresenta níveis sanguíneos tão baixos
quanto 0.04 %. Moskowitz identificou dificuldades na realização de tarefas
que exigem divisão de atenção quando há níveis de álcool no sangue de 0.015%. Um
estudo com mergulhadores profissionais bem treinados identificou diminuição
significativa de desempenho na realização de tarefas comuns ao mergulho autônomo
com níveis de álcool no sangue de até 0,04%. O mesmo trabalho cita um claro
aumento de risco de acidente com trauma quando um homem de 80 Kg ingere 1
latinha de cerveja em uma hora, estando de estômago vazio, antes de um
mergulho (Perrine, Mundt e Weiner).
Apesar de todas essas evidências, temos ainda presenciado as mais variadas
discussões em revistas, salas de chat na internet e fóruns de mergulho
defendendo que se pode beber cerveja nos intervalos de superfície.
O risco de acidente de um mergulhador de ressaca está aumentado
significativamente. Este risco é maior quanto maior for o nível de álcool
ingerido. Certamente ter qualquer quantidade de bebida no corpo é um risco
desnecessário considerando que mergulhamos num ambiente estranho à nossa
fisiologia e que há a necessidade de um conhecimento complexo não somente ao
ato de mergulhar mas também aos cuidados com a descompressão.
Não devemos esquecer que uma temporada de mergulho de vários dias com várias
imersões ao dia, mesmo com intervalos de superfície maiores que 12 horas, é
considerada, atualmente, uma intensa atividade de mergulho com riscos
descompressivos fora de tabela. Os dados atuais do registro de acidentes de
mergulho relatam a ocorrência de doença descompressiva mesmo tendo cumprido
tabela e tendo sido liberado pelo computador. O uso do álcool pode ser um
desses fatores.
O álcool pode sair do sangue numa taxa previsível que é em torno de 0.015%
por hora. Se fizermos as contas, é fácil concluir que, tendo bebido uma boa
quantidade de bebidas alcoólicas na véspera, no outro dia, no primeiro
mergulho da manhã ainda haverá uma quantidade considerável de álcool no
sangue para afetar nossa performance de mergulho.
O álcool e a Doença Descompressiva
O álcool é um potente diurético.
Ele pode promover desidratação antes, durante e após o mergulho. A
desidratação é considerada uma das causas mais importantes na doença
descompressiva. Portanto, o uso do álcool potencializa a ocorrência de doença
descompressiva. Isto é valido para uso antes ou depois do mergulho
Além disso, a doença descompressiva tem sinais e sintomas decorrentes de lesões
provocadas no sistema nervoso central. O uso de álcool seguindo um mergulho
pode potencialmente mascarar alguns desses sintomas. Lembro que ao final de
uma temporada de mergulhos em dias sucessivos o risco de doença
descompressiva com manifestações tardias aumenta muito e os sintomas
decorrentes podem ser minimizados pelo uso do álcool.
O álcool e a narcose pelo nitrogênio
O álcool aumenta as chances de
desenvolver narcose pelo nitrogênio. Isto se deve a um efeito aditivo ao
nitrogênio como depressor do sistema nervoso central.
O álcool e as atividades aquáticas
(Resumo das Evidências observadas nos trabalhos científicos)
O Dr. Glen H. Ergstrom,
professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade da Califórnia
revisou mais de 150 estudos sobre os efeitos do álcool sobre a performance na
realização várias tarefas e pinçou as seguintes observações:
1 - Ingestão, mesmo de
pequenas quantidades de álcool, não melhora a performance psicomotora de
qualquer atividade, ao contrário, piora. Álcool nunca poderá fazer você
pensar melhor, pode apenas deixá-lo menos envergonhado quando erra.
2 - Embora exista variáveis
que retardam ou aceleram o início dos efeitos do álcool, elas não impedirão
a queda do rendimento do sistema nervoso central como um todo.
3 - O álcool é um depressor
do sistema nervoso como um todo que, por isso mesmo, acaba tornando mais
lentas as funções de vários outros órgãos do nosso corpo. Efeitos são
observados após um único gole.
4 - O álcool pode sair do
sangue numa taxa previsível. Geralmente esta taxa é de 0.015% por hora. Isto
não significa que a diminuição de desempenho tenha sido completamente
afastada no final da eliminação.
5 - Os efeitos são: elevação
do humor, euforia leve, sensação de bem estar, leve confusão, algumas
dificuldades de julgamento, de auto controle, de inibições e da memória.
6 - O Aumento do tempo de reação
e diminuição de coordenação seguem uma curva dose-resposta.
7 - Álcool está envolvido em
50% de todos os acidentes envolvendo pessoas em idade de beber.
8 - Os efeitos deletérios do
álcool sobre desempenhos são constantemente subestimados por pessoas que
bebem.
9 - Atividades que requerem
atenção dividida, ou seja, aquelas que o indivíduo deve monitorizar e
ajustar condutas seguindo as variações de informação que recebe, para
poder decidir e realizar uma determinada tarefa são afetadas pelo álcool. O
mergulho é considerado atividade de atenção dividida.
Concluindo
O álcool é uma droga que
afeta o desempenho e a capacidade de julgamento para pior. Ele é usado
abusivamente em certas esportes que interagem com as atividades sociais como
é o caso do mergulho. O uso de álcool e sua relação com o mergulho não
difere do uso habitual que se faz do álcool em outras atividades humanas na
sociedade. Todo o dia é relatado que vidas são destruídas e que há
acidentes e mortes que resultaram do abuso do álcool e de outras drogas que
afetam o desempenho do ser humano. As informações disponíveis sobre as
alterações relacionados ao uso do álcool devem ser informadas a todos os
mergulhadores para que eles possam construir seus sistemas de valores
individuais. Se o seu amigo de mergulho é um mergulhador inteligente ele
entenderá. Do contrário, talvez, se após uma boa e longa conversa como um
verdadeiro amigo ele não entender, então deverás rever teu sistema pessoal
de valores relacionado às amizades. Coisas ruins acontecem. Mais ainda quando
nos expusermos de forma frequente e de maneira mais arriscada. E, para
lembrar o dito popular, colocar ferrolho de nada adianta depois da casa estar
arrombada. Mergulhar e beber pode tornar uma atividade de lazer segura num
pesadelo para o praticante, para sua família e para seus companheiros de
mergulho e de embarcação. Isso é ainda mais válido quando se mergulha em
lugares inóspitos, com parcos recursos de atendimento médico e até mesmo
sem câmara hiperbárica.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.
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