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O Mergulho e a Gravidez
Introdução
"A mesma mulher que não fumará ou beberá
durante sua gravidez gostará de saber por que ela não pode mergulhar.
Nesta sociedade litigiosa somente existe uma única resposta: não
mergulhe enquanto grávida ou mesmo enquanto tenta engravidar",
relata a Dra. Maida Taylor. Existe escassa informação científica
relevante sobre gravidez e mergulho. Poucos são os dados relativos ao
risco das mulheres grávidas e de seus fetos decorrentes da prática do
mergulho autônomo.
As mulheres grávidas têm maior risco teórico de
apresentar doença descompressiva. Este risco decorre das alterações
fisiológicas da gravidez. Durante a gravidez a mulher retém líquido,
cuja redistribuição, nos vários compartimentos, está alterada. Esse
fenômeno, diminui a retirada de gases dissolvidos na circulação
central, favorecendo a embolia gasosa. O volume de distribuição passa
a ser maior e passando a ser um local de retenção de nitrogênio.
Logo, aumenta a potencialidade para a ocorrência de doença
descompressiva. A retenção de líquidos na gravidez também pode
ocasionar o inchume do nariz, ouvidos e garganta, ou seja, das vias aéreas.
O que aumenta, pelo menos teoricamente, o risco de barotrauma nos
ouvidos e seios da face. Outro problema é a ocorrência de náuseas e vômitos
durante a gravidez. Isto favorece ao enjôo na embarcação e pode levar
à fadiga por desidratação e perdas de sais (eletrólitos). Além
disso, o cansaço e o estresse relacionados a essa situação durante a
navegação favorecem as reações de pânico.
É uma constatação fisiológica que os fetos não têm a
proteção dos pulmões para filtrar e eliminar as bolhas gasosas na corrente
sanguínea como os adultos. Estudos laboratoriais são restritos a animais. O
modelo animal correspondente ao humano é a ovelha pelo fato da sua placenta
ser muito semelhante à humana. Estudos de doença descompressiva nesses
animais mostraram altas taxas de mortalidade fetal provavelmente pela passagem
de bolhas à circulação arterial através de foramens ovais patentes. Outros
estudos animais de doença descompressiva durante a gravidez revelaram um
maior índice de malformações cardíacas.
Existem relatos de casos de tratamentos de mulheres grávidas
com intoxicação por monóxido de carbono em câmaras hiperbáricas, sem
documentação de efeitos adversos sobre os fetos. Na medicina russa há
relato do uso de oxigenoterapia hiperbárica para tratamento de gravidez de
alto risco. Foi relatado em 54 casos sobre 700 gestações de doença pulmonar
em fetos de mulheres submetidas a oxigenioterapia hiperbárica. No entanto o
estudo não era controlado. Algumas séries observadas não constataram riscos
aumentados. Outras, que evidenciaram lesões em fetos, quando comparadas com a
população gestante em geral, não apresentaram diferenças significativas. Há
um relato de caso (Caso Turner) evidenciando lesões severas no feto de uma
mergulhadora, no entanto, cabe lembrar que um único caso não cria uma doença.
A verdade é que não existem estudos bem delineados que
provem que mergulhar durante a gravidez não é seguro. No entanto os riscos
existem e devem ser alertados. Quem gostaria de participar de um estudo
controlado com este tipo de risco? Dificilmente ele seria liberado por alguma
comissão de ética em pesquisa. Como o mergulho é uma atividade eletiva e,
via de regra, de lazer, para as mulheres mergulhadoras grávidas não há
sentido em mergulhar já que existe um risco teórico. Atualmente as unidades
de tratamento com oxigenoterapia em câmaras hiperbáricas não permitem que
auxiliares ou técnicos do sexo feminino, que estejam grávidas, trabalhem
nesses locais. Pela limitação de informação e importante risco teórico
levantado, conclui-se que o mergulho pode aumentar o risco de lesão durante a
gravidez para a mãe e o feto.
MERGULHO EM INÍCIO DE GRAVIDEZ
Se uma mulher mergulhou sem saber que estava no início da
gestação, não há dados que justifiquem a indicação de abortamento. A
tese que justifica a ocorrência de mal formações associadas ao mergulho
baseia-se na possibilidade de transferência de bolhas intravasculares da mãe
ao feto. Como não há uma circulação efetiva no início da gestação, o
risco inexiste. O embrião não se gruda realmente à parede do útero na
primeira semana. Nesse período, recebe sua nutrição por embebimento de
fluidos secretados pela trompa de falópio e o útero. A formação de uma
circulação sanguínea materno-placentária efetiva é mais tardia, em torno
de 7 a 10 dias. Muitas mulheres devem ter mergulhado sem saber que estavam grávidas
e no início da gestação. No entanto, não há relatos relacionando abortos
ou outros problemas na gravidez em mulheres que mergulharam no início da
concepção.
RETORNO AO MERGULHO APÓS A GRAVIDEZ
O reassumir das atividades físicas depende de vários
fatores. Entre eles incluem-se o nível prévio de condicionamento físico e a
continuidade da prática de exercícios durante a gravidez. Gravidez
complicada por doenças subjacentes, nascimentos múltiplos, partos e cesáreas
complicadas podem postergar a recuperação, e a resposta sobre a questão do
retorno ao mergulho deve ser individualizada. Internações prolongadas com
repouso no leito levam à perda da condição física e da capacidade aeróbica
que são importantes na prática do mergulho autônomo amador. Não se deve
esquecer que a mergulhadora durante a gravidez perde muito da sua condição
de tolerância ao exercício prévia e que o equipamento é pesado e exige um
esforço físico adicional. Após o parto, os cuidados com o bebê podem
limitar o tempo disponível da mulher para se dedicar à recuperação da
condição física prévia. Além disso, a fadiga decorrente do pouco sono
devido aos cuidados com o bebê e amamentação podem retardar o início das
atividades de mergulho ou potencializar a fadiga durante o mergulho e até
mesmo facilitar o pânico. O sentido da maternidade pode adiar o reinício das
atividades de mergulho por motivos psicológicos.
EM CASO DE PARTO
A mergulhadora poderá retornar ao mergulho após seu útero
retornar ao tamanho normal, quando não houver secreção vaginal ou estiver
liberada para manter relações sexuais. Esse período é variável e deverá
ser individualizado. Geralmente é de 4 a 6 semanas após o parto.
Habitualmente o colo uterino volta ao normal em 21 dias. O tônus da
musculatura perineal retorna ao normal em torno da quarta semana, dependendo
do grau de atividade física prévia da mulher. Por essa época também já
deverá estar bem cicatrizada a episiotomia.
EM CASO DE CESÁREA
A cesárea é uma cirurgia. Além dos fatores mencionados
anteriormente deve-se considerar a completa cicatrização da ferida operatória
e a reabilitação física da paciente. Deve-se também considerar a doença
subjacente que indicou a cesárea. Geralmente, em partos cesáreos uma anemia
mais intensa é mais frequente. Um período de 8 semanas parece razoável, se
não ocorreram complicações cirúrgicas, para o retorno completo às
atividades normais, incluindo o mergulho.
AMAMENTAÇÃO E O MERGULHO
Há quem pergunte se é seguro mergulhar durante o período
da amamentação. Quantidades insignificantes de nitrogênio podem estar
presentes no leite materno após o mergulho. Entretanto não existe risco de a
criança acumular esse nitrogênio. Em relação à mãe, não existe um bom
motivo para não mergulhar a menos que haja alguma condição clínica
relevante, como uma infecção da mama -mastite- com inflamação intensa e
febre, ou até mesmo um abscesso, que comprometa o estado de saúde da
mergulhadora e a impeça de mergulhar.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio,
localizada em Porto Alegre-RS.
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