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A Mulher e o Mergulho
INTRODUÇÃO
Atualmente é crescente o número
de mulheres que pratica o mergulho autônomo amador. Para este grupo existe
uma série de perguntas específicas relacionada à condição de mulher e
suas características como mergulhadoras.
À medida que vários estudos na área da medicina do mergulho foram sendo
divulgados, muitas dúvidas se esclareceram. Anteriormente, respostas a certas
perguntas não eram fornecidas pela medicina baseada em evidências. Somente
mais recentemente passamos a dispor de um conjunto de informações claras e
confiáveis. Mesmo assim, muitas dúvidas ainda persistem.
Neste campo devemos muito às
pesquisas da Dra. Donna Ugoccini, estudiosa de fisiologia do mergulho e
pesquisadora sobre a mulher e o mergulho pelo Dive Alert Network (DAN) e da
Dra. Maida Beth Taylor, outra especialista com várias publicações sobre o
assunto. As informações contidas neste boletim têm como referência os
relatos da experiência dessas duas pesquisadoras. Por ser extenso,
dividiremos o assunto em várias apresentações.
Para se ter uma idéia da falta de informação segura no passado recente
sobre o tema, exemplificaremos com uma pergunta considerada por Joel
Dovenbarger das mais comuns sobre o tema: as mulheres são mais suscetíveis
à doença descompressiva que o homem por apresentarem mais tecido adiposo ?
A pergunta vem acompanhada de uma afirmação. As mulheres, por apresentarem
mais gordura corporal decorrente da ação hormonal fisiológica específica
vinculada ao gênero, teriam maior probabilidade de vir a desenvolver doença
descompressiva. A base do raciocínio está no fato de o tecido adiposo fazer
parte do grupo de tecidos que têm um dos maiores tempos de desaturação após
um mergulho. Não necessariamente seria por esse motivo que as mulheres teriam
maior probabilidade de desenvolver doença descompressiva. Se esse fosse o
fator mais importante, homens com adiposidade extra correriam o mesmo risco.
As evidências apontam que
mulheres saudáveis não têm maior risco de desenvolver doença
descompressiva que homens com características físicas semelhantes. Elas
seguem as mesmas orientações de segurança preconizadas pelas certificadoras
de mergulho que os homens.
Quando analisamos os relatórios de acidentes com lesões relacionadas ao
mergulho por sexo e experiência do mergulhador, somente o que se pode
observar é uma forte correlação entre mulheres e sua experiência de
mergulho. Mulheres que mergulham há menos de dois anos geralmente
correspondem de 39 a 50 %, dependendo da série, das que se acidentam
mergulhando. O resto são especulações baseadas em hipóteses fisiopatológicas
decorrentes de opiniões particulares sem validação no mergulho autônomo
recreativo. Inicialmente abordaremos 4 temas de relevância entre as questões
sobre a mulher e o mergulho: menstruação durante a atividade de mergulho,
anticoncepção, tensão pré-menstrual e implantes mamários.
MENSTRUAÇÃO DURANTE A
ATIVIDADE DE MERGULHO
Existem achados sugestivos de
que a mulher teria maior risco de apresentar doença descompressiva quando
mergulhasse durante a primeira semana do ciclo menstrual, ou seja, durante a
semana de menstruação. Estes achados são descritos na literatura
aeroespacial e foram observados em câmaras durante terapias hiperbáricas
para outras doenças que não a descompressiva. Eles não foram estudados em
mergulhos.
A explicação para uma maior predisposição estaria relacionada com as mudanças
fisiológicas que ocorrem durante a fase menstrual do ciclo, tais como: alterações
hormonais, eletrolíticas, reatividade vasomotora e vasoconstrição periférica.
Tais mudanças fariam com que as mulheres manejassem diferentemente a saturação
de gases no corpo em mergulhos que necessitassem descompressão. Em tese,
devido à retenção de líquidos e reações teciduais específicas, as
mulheres estariam com menos capacidade de liberar o nitrogênio dissolvido após
um mergulho. Assim, seria prudente que durante a menstruação as mulheres
mergulhassem de maneira mais conservadora. Isto é, que mergulhassem menos,
que os mergulhos ocorressem em águas mais rasas e que prolongassem as paradas
de segurança. No entanto, deve ficar claro que, com base na informação
disponível no momento relacionada à prática do mergulho autônomo, as
mulheres que estão menstruando não têm risco aumentado de desenvolver doença
descompressiva quando comparadas com mulheres que não estão menstruando.
Um fato a ser considerado como fator de risco para doença descompressiva é o
uso de anticoncepcionais orais. Num estudo foi observado que 38 % das mulheres
que apresentaram um episódio de doença descompressiva também estavam
menstruando. Também foi visto que 85 % delas faziam uso de anticoncepcional
oral. Esta observação sugere, mas não comprova, os anticoncepcionais orais
aumentam o risco de doença descompressiva durante a menstruação. Desta
maneira devemos sugerir que mulheres menstruando e que usam anticoncepcional
oral devem mergulhar de maneira mais conservadora, ou seja, que reduzam o
risco diminuindo a exposição à profundidade, ao tempo de fundo e ao número
de mergulhos por dia.
Em relação ao ciclo menstrual, pode-se dizer que, se a mulher não apresenta
sintomas ou desconfortos que afetem a sua saúde, não há motivo para deixar
de mergulhar durante a menstruação. Algumas considerações em relação ao
fluxo menstrual devem ser feitas. Grandes fluxos menstruais podem acarretar
problemas em relação à higiene e privacidade. Algumas mulheres com fluxos
menstruais intensos preferem não mergulhar nesses dias. Fluxos intensos
acompanhados de anemia podem prejudicar a dinâmica circulatória e estar
correlacionados com mais cansaço durante o mergulho.
Apesar de ser um fator predisponente para infecções pélvicas, não há
correlação entre menstruação, banho e infecção pélvica. Não existem
evidências de que tampões vaginais ou outros objetos intravaginais sejam
perigosos sob os efeitos diretos do aumento de pressão ambiente.
Relatos de ataques de tubarões a mulheres são raros. Não há evidências de
aumento de ataques de tubarões a mergulhadoras que estejam menstruando.
Informações atuais referem que muitos tubarões não são atraídos por
sangue ou outros restos teciduais encontrados na menstruação.
ANTICONCEPÇÃO E
MERGULHO
Durante o início do uso
de anticoncepcionais a mulher pode experimentar alguns sintomas como náusea,
vômito, inchaço, tonturas e dor de cabeça. Ao uso de anticoncepcional
oral também estão associados elevação da tensão arterial e risco
aumentado de acidentes tromboembólicos como, por exemplo, trombose
venosa profunda. Durante o seu uso podem ocorrer mais eventos trombóticos
espontâneos não fatais do que na população que não usa. Logo,
considerando o risco aumentado de trombose, os pesquisadores em medicina
hiperbárica especulam que seu uso pode aumentar o risco de doença
descompressiva ou a extensão e severidade do dano tecidual ocorrido num
acidente. No entanto nenhum estudo animal apoiou esta hipótese, ao
contrário.
Os anticoncepcionais orais podem aumentar a suscetibilidade
a doença descompressiva durante a menstruação. Provavelmente isso se deva
às alterações hormonais que provocam. Eles produzem redução do tônus
venoso e retenção de água, aumentando o volume de distribuição do
nitrogênio pelo corpo e interferindo com a velocidade de eliminação do
mesmo. Ressalvamos que são dados teóricos, extrapolados de outras
observações e que não há pesquisa específica que evidencie que o uso de
anticoncepcionais orais constituam uma contra-indicação à prática do
mergulho autônomo recreacional.
Existem doenças herdadas da coagulação sanguínea relacionadas a fatores
da coagulação que têm sido implicadas nas complicações vasculares
associadas ao uso de anticoncepcionais orais. Há registros na literatura
ginecológica de que 50 % dos episódios tromboembólicos decorrentes do uso
de anticoncepcionais viriam de interações entre eles e a desordem de fator
de coagulação herdada. Desta maneira, mulheres que têm esta associação
identificada devem receber orientação médica específica relacionada à
prática do mergulho autônomo amador.
Especula-se se a progesterona de ação longa, em altas doses, seja o
anticoncepcional de escolha para a mergulhadora. É o caso da depoprovera e
dos implantes de depósito. Esta hipótese baseia-se no fato de que as
progestinas agem limitando a inflamação. Desta forma, poderiam limitar o
dano causado pelo processo inflamatório que segue a hipóxia tecidual em
acidentes com gases.
Em relação aos outros métodos, podemos dizer que o uso de dispositivo
intrauterino (DIU) não acarreta perigo à mergulhadora. Muitas mulheres têm
aumento do tempo e de quantidade de fluxo menstrual durante a utilização de
DIU, o que pode ser somente um inconveniente. Quanto aos métodos de barreira,
o enxágue que pode ocorrer com o banho e contato com a água é mínimo,
não acarretando maiores problemas.
SÍNDROME DE TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL
Por volta de uma semana antes do surgimento do fluxo
menstrual, ou seja, ao final do ciclo, um número considerável de mulheres
apresenta uma série de sintomas psicofisiológicos cujas causas são pouco
conhecidas. É a chamada síndrome da tensão pré-menstrual ou como comumente
é conhecida, TPM.
Os sintomas incluem alterações do humor, irritabilidade, tensão,
diminuição da atenção, fadiga, depressão, dor de cabeça, sensibilidade
nas mamas, dores articulares e outros sintomas próprios a cada mulher. A
síndrome de tensão pré-menstrual pode exacerbar distúrbios emocionais ou
estar associada a doença psiquiátrica. Atualmente não há um tratamento
consistente apesar de comumente se usar a progesterona.
Pesquisas demonstraram que os acidentes em geral são mais frequentes em
mulheres com TPM. Especificamente no mergulho, é prudente que as mulheres com
esses sintomas mergulhem de maneira mais conservadora, diminuindo com isso os
riscos. Não há evidência científica de associação entre TPM e acidentes
em mergulho ou com a doença descompressiva.
Mulheres com comportamento anti-social e depressão devem ser bem avaliadas
quanto à possibilidade de as alterações psicofisiológicas imporem riscos
de segurança a si e aos companheiros de mergulho tanto na embarcação como
durante o mergulho.
IMPLANTES MAMÁRIOS
Implantes mamários são
utilizados tanto na cirurgia plástica reconstrutiva quanto na
estética. Vários são os tipos de materiais utilizados na sua
confecção. Não se pode mergulhar até completa cicatrização da
cirurgia e liberação pelo cirurgião. Deve-se rever os tirantes de
coletes equilibradores e o formato das roupas para evitar a pressão
indesejada e desconfortável sobre o implante. Os implantes de silicone
são mais pesados que a água e podem alterar a flutuabilidade e a
posição da mergulhadora durante o mergulho. Isto é particularmente
válido nos implantes volumosos. Os implantes de salina são neutros e
não acarretam maiores problemas.
Foi realizado um estudo
experimental em que vários tipos de implantes foram colocados em câmara
hiperbárica e submetidos a vários perfis de mergulho. Observou-se que há
uma diferença de solubilidade do nitrogênio em função da composição do
implante. Houve um aumento do tamanho das bolhas das várias próteses que
dependeu da profundidade e de tempo de mergulho a que foram submetidas. Esse
aumento foi maior nas próteses de silicone e salina juntas. O aumento das
bolhas observados não foi suficiente para provocar ruptura. Com o tempo, as
bolhas voltaram ao tamanho original. Por ser um estudo experimental,
salientaremos que ele não responde definitivamente sobre a questão dos
implantes em mergulhadoras.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.
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