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Entrevista: Edson Prando
Edson, a quanto tempo você mergulha e como ingressou na filmagem
submarina ?
Minha história com água salgada começa desde muito cedo, ali por volta
de um ano de idade. Mas essa é outra história. Mergulho profissionalmente
com carteira assinada desde 1974. Quanto as imagens, em 1985 senti misto de
necessidade e paixão. A necessidade de transformar o Arquipélago de Fernando
de Noronha em Parque Marinho, pois existiam coisas importantes e difíceis
para serem ditas sobre aquela lugar. As imagens foram de fundamental
importância no processo que culminou no Decreto nº 446, de 06 de junho de
1985, assinado pelo Governador Cel. Ivanildo Sirotheau Corrêa, e que
transformou o arquipélago em parque Marinho de Fernando de Noronha. Esse
decreto foi publicado em Diário oficial, tendo força de lei em todo o
território.
Paixão, porque essa linguagem universal tem poder de mudar as coisas.
Nessa época barcos chegavam a trocar o óleo na Baía dos Golfinhos, imagine
só !!! Fernando de Noronha era povoado por monstros submarinos
imaginários. Quando aparecia uma arraia jamanta, por exemplo, os barqueiros se
assustavam e tiravam os turistas da água imediatamente. Comecei a fazer
imagens desses seres e os tabus continuavam, apoiados na espantosa idéia que
eu usava lentes de aproximação "para gravar os bichos de longe".
Então transformei o sonho, um garoto pescador da ilha em mergulhador, e
mostrando à ele, que não era verdade tudo aquilo, coloquei-o para contracenar
com arraias e tubarões e os mitos caíram. Bastaram para isso, que as imagems
fossem repetidas nos intervalos da única e recém inaugurada TV Globo, via
antena parabólica que servia a ilha. Isso foi uma fantástica
transformação. Muitos jovens dessa geração, ingressaram no mergulho, e
hoje, trabalham como fiscais ou guias subaquáticos.
Acredito nesse tipo de ação, meus filhos cresceram vendo minhas
imagens no RA-TIM-BUM (Programa da TV Cultura, premiadíssimo no mundo). As imagem
submarinas do Programa de TV sobre a ECO 92 passado para o mundo inteiro, são
imagens minhas. Essas coisas não têm preço. Foi a verdade de fazer alguma
diferença que me fez começar.
Quais foram as primeiras dificuldades que você encontrou ao
ingressar na área ?
Olha, a história do mergulho autônomo (SCUBA) é recentem pois começa
experimentalmente por volta de 1942 na Europa. No início dos anos setenta no
Brasil, tínhamos a caça submarina em evidência, o mergulho profissional
usando narguile, quase nenhum compressor de alta pressão à disposição de
um civil. Esse pioneirismo era companheiro da falta de infra-estrutura,
tornando tudo muito difícil. Desde o meu primeiro fusca, e depois as
variantes (as vans da época), sempre carreguei cilindros de mergulho para lá
e para cá. Nesses tempo, era pouco comum a imagem de um mergulhador. As vezes
eu era rodeado por pessoas ao entrar ou sair de um mergulho de praia. Aliás,
deixo uma pergunta no ar, "porque se mergulha tão pouco de praia aqui no
Brasil ?"
Nomes como Atlântica e Draeger em São Paulo, Naim em Angra dos Reis, eram
como oasis no meio de um deserto de ar comprimido. Outro fato muito importante,
foi a criação do primeiro compressor brasileiro para recarga de cilindros,
criados pelos irmãos Cláudio e Celso, em Limeira, São Paulo. Foi quando
pequenas escolas de mergulho pelo Brasil puderam adquirir
"fôlego". Essa empresa, hoje com o nome Air-Lung, ainda é a única
fabricante de compressores nacionais.
Quanto as filmagens, cabe a mesma analogia, pois vídeo embaixo d'água
salgada era investimento caro e de alto risco para a época, e as TV's tinham
enorme resistência em colocar seus equipamentos embaixo d'água, e a nós,
uns poucos pioneiros, coube tal risco. Hoje os equipamentos evoluíram e se
popularizaram muito.
Você chegou a realizar algum curso específico ?
O mergulho profissional derrubou as portas da paixão auto-didata. Sou
formado por várias certificadoras e estou sempre me reciclando na área de
vídeo. Fui um privilegiado pois pude aprender e praticar tudo em lugares maravilhosos e trabalhando com mestres.
Atualmente ouvimos falar mais sobre cursos de Foto-sub do que Vídeo.
Haveria um motivo em especial ?
Creio tratar-se de um paradigma. Fora d'água também tem sido
historicamente assim, porém, a onda do vídeo é arrasadora. Nesta época,
Câmera Digital de Vídeo é também uma Câmera Fotográfica e as
fotográficas podem gravar algumas imagens em movimento, sendo uma tendência irreversível seja como for, embaixo d'água
acontecerá o mesmo.
Das reportagens realizadas para a TV, qual foi a mais difícil de ser
realizada ?
As TV's têm o hábito de não consultar muito um profissional subaquático
para determinar épocas mais propícias para gravar imagens submarinas. No
início eu ficava na frente das lentes e tinha pouca força de influenciar a
equipe. Posteriormente passei também a gravar porque necessitava
expressar-me. Vivi grandes desafios de ter que resolver o problema com um
único tiro.
Estar dentro de um veleiro com equipamento de vídeo rumo à um lugar como o
Atol das Rocas por exemplo, é sempre muito difícil e gera uma
responsabilidade estressante, pois você tem que voltar coma matéria, não
há uma segunda chance e não são aceitas explicações.
Sempre tive muita sorte e estive em lugares maravilhosos e em épocas
maravilhosas. Tenho muita saudade do seriado Desafio ao mar, dirigido
por um grande diretor de cinema, Maurice Capovilla, e que foi veiculado na
Manchete, ou do filme Baía dos Golfinhos, do grande Jack Mackinie.
Houve também um episódio do Globo Repórter que marcou profundamente,
porque levei um repórter (Ernesto Paglia) à 42m de profundidade, para
reportar o fenômeno do tubarão Bico Fino, que dormia numa espécie de
caverna no cabeço da Sapata, em Fernando de Noronha. Nessa época muita gente
ainda achava que tubarão não dormia no fundo. Encontrar e filmar pela
primeira vez a Corveta
Ipiranga, foram tempos de descobertas e usamos tecnologia moderna como por
exemplo, equipamento profissional e veículos submarinos, que na época eram
raríssimos na terra brasilis.
Qual foi o trabalho mais interessante na sua opnião ?
Foi justamente o especial que fechou a série "Desafio ao mar", e
que ganhou o prêmio como melhor do ano. Especial também, foi mergulhar no
coração da Amazônia com Índios quase em estado selvagem absoluto e virar
lenda cantada. É bom lembrar. É gostoso falar dessas coisas.
Quanto tempo normalmente se gasta para se fazer um comercial ?
Taí uma resposta difícil de responder sem me alongar, assim vou tentar
resumir.
Sou do tempo em que diretores pediam as coisas mais impossíveis e vi de
tudo. Teve um que se inspirou em cenas do agente 007, James Bond. Depende
muito do que é para ser feito. Existe a fase da captação das imagens e aí,
depende do diretor, da época e local, das habilidades dos modelos, etc.
Depois existe a fase de pós produção que também demora conforme a
complexidade da coisa. Vou contar duas histórias: uma vez passei dois dias
inteiros dentro de uma piscina com a Tânia Correia totalmente nua gravando um
comercial de trinta segundos. Na época, ela era capa da Revista Playboy.
Outra vez, fechei um bom negócio com imagens de arquivo. É imprevisível.
Para a realização de uma filmagem embaixo d'água, exige-se mais
habilidade com o equipamento e estabilidade. Você tem alguma dica para isto ?
Existem detalhes que se aplicam aqui e ali, mais a técnica fundamental,
está no equilíbrio hidrostático, aliado à respiração e deslocamentos
cuidadosos. Deve haver harmonia no conjunto câmera e mergulhador.
Você pensa em lançar algum vídeo específico no
futuro ?
Sim ! Todos nós brasileiros que temos alguma coisa à
dizer, sempre temos a pretensão de lançar mais um trabalho. Porém, nosso
modelo cultural anacrônico e a falta de verba, estrangulam tais iniciativas.
Aqui, como no resto do mundo, necessita-se de algum tipo de apoio para esse
tipo de empreendimento. As idéias não param, estamos engajados em um projeto
cultural de vídeo submarino. Estou morando, por assim dizer, temporadas num
barco e já temos parte do material, mas há que se ter calma !
Também estou engajado em projetos onde participo como diretor de
fotografia e câmera subaquático. No início de
julho estarei fazendo as imagens do lançamento programado do navio Victory
8B
de 90 metros de comprimento e com 13m de altura, tratando-se do maior
naufrágio programado da América Latina. Essas imagens irão para o mundo
inteiro. Mais informações www.cleanupday.com.org.
Para aqueles que pretendem iniciar na filmagem submarina, que conselhos que
você daria ?
Aos amadores, diria que se
informem e partam sem demora para a ação. Meu conselho é que comecem com
equipamentos simples e se possível, faça um curso básico. E para aqueles que
desejam se profissionalizar em vídeo submarino, que preparem-se para um caminho
cheio de desafios, que é gratificante, mas difícil.
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Edson Prando
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