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O Mergulho Autônomo e a
Menopausa
Cada vez mais observamos pessoas
com mais idade mergulhando. É comum viajarmos para os destinos mais inóspitos
e encontrarmos casais, além da meia-idade mergulhando e se divertindo,
aproveitando a vida. As preocupações que começam a surgir no climatério é
somente o início da percepção do envelhecimento. Elas são responsáveis por
uma série de constatações e reflexões em relação à saúde física e
psicológica da mulher. Felizmente, não só biologicamente falando, ela ocorre
num momento de extremo amadurecimento, no qual a mulher é capaz de suportar e
enfrentar as novas mudanças no seu corpo que estão por acontecer, e continuar
mergulhando.
Em termos do envelhecer
mergulhando, as preocupações residem mais no sistema osteomuscular, no aumento
da cardiopatia e das doenças crônico-degenerativas em geral. O risco de
aterosclerose aumenta após a menopausa. Existe atualmente, nos meios
científicos, uma sensação de risco aumentado de se desenvolver doença
descompressiva à medida que a idade avança. Não existe informação
disponível relacionada à doença descompressiva em mulheres em fase de
climatério ou menopausa de maneira definitiva. Na prática, o que podemos
observar é que a população que está envelhecendo, tem mergulhado em
segurança.
Em relação à menopausa de
maneira objetiva e independente da idade da mergulhadora em menopausa, o mais
importante é a sua relação com a osteoporose. Com o aumento da idade, podemos
observar a osteoporose e a necessidade de estrógeno para manter os ossos
saudáveis. Após a menopausa, podemos observar diminuição da saúde óssea
relacionada à gradual diminuição da densidade do osso. As alterações da
osteoporose decorrem da diminuição da atividade das células formadoras de
matriz óssea, os osteoblastos, e do aumento da atividade das células
remodeladoras dos ossos , os osteoclastos. O aumento da atividade de
osteoclastos resulta em desmineralização e reabsorção óssea. A idade média
de início da menopausa é 50 anos, a rarefação óssea ou osteopenia é
observada em torno dos 60 e fraturas podem ocorrer pelos 70-75 anos de idade. O
que se observa é que as mulheres têm pico médio de massa óssea menor que os
homens comparativamente numa mesma faixa etária e que esse fato está
relacionado com a diminuição dos níveis séricos de estrógeno na menopausa.
A rarefação óssea relacionada à idade da mulher na pós-menopausa também
tem relação com outros fatores, como, por exemplo, a baixa ingesta de cálcio,
o uso de dietas para emagrecimento, tabagismo e antecedentes familiares com esse
problema. O mergulho não parece ter qualquer efeito sobre a atividade
pré-programada das células ósseas na deficiência de estrógenos.
A osteoporose não deve ser
confundida com osteonecrose, outra complicação que pode ocorrer no mergulho. A
osteonecrose decorre da obstrução de pequenos vasos dos ossos. Ela é
observada principalmente no mergulho profundo e de longa duração, que não é
o caso do mergulho autônomo amador. Já que não há evidências definitivas em
relação a este tópico, é aconselhável que a mergulhadora no climatério ou
em pós-menopausa mergulhe de maneira mais conservadora expondo-se menos aos
riscos de doença descompressiva. Essa conduta evitaria o risco de dano ósseo
por bolhas e portanto, a ocorrência de osteonecrose superimposta aos ossos
desmineralizados da osteoporose.
Na realidade, a dificuldade de
esclarecer essas questões decorre do fato de não haver um quantitativo de
mulheres disponíveis que tenha experiência em mergulho e que ainda inclua mergulhos
profundos repetitivos para se realizarem trabalhos científicos. Atualmente o Divers
Alert Network (DAN) tem dado atenção a este grupo de mergulhadores,
tentando organizar melhor os dados relativos com vistas a realizar trabalhos
prospectivos.
Em relação à prática de
exercícios e à questão da osteoporose, devemos salientar que os exercícios
contra gradiente de gravidade são os ideais para evitar a osteoporose. No
entanto, eles somente produzem melhora da matriz óssea, se realizados na
presença de níveis séricos normais de estrógeno. A natação e o mergulho
autônomo não estimulam a mineralização por serem exercícios sem efeito
gravitacional. Contudo, não estamos autorizados a acreditar que natação e
mergulho prejudiquem a mineralização óssea, pois são praticados por pequenos
períodos de tempo, insuficientes para produzirem qualquer dano. Qualquer
exercício é melhor do que nenhum exercício. A orientação geral para todas
as mulheres, independentemente de serem mergulhadoras ou não, é a de manter a
prática de exercícios físicos e ingesta adequada de cálcio por toda a vida.
No mergulho, deve-se ter muito
cuidado com a mobilidade nas embarcações. Quando a mulher em climatério ou
menopausa mergulhar, deve ter uma atitude preventiva em relação a possíveis
quedas no barco. Para isso ela deve dar especial atenção ao uso de sapatos
adequados, preferencialmente tênis anfíbios e botas de mergulho com solado
anti-derrapante. Ao embarcar deve procurar identificar pontos de apoio, escadas
e corrimões. A mulher em menopausa não se deve constranger em exigir
cavalheirismo principalmente para carregar equipamento, receber apoio durante o
deslocamento no convés, se equipar e entrar e sair da água.
Reposição Hormonal
A reposição hormonal na
menopausa é individualizada e as medicações prescritas dependem de cada caso.
Muitas mulheres têm a reposição hormonal contra-indicada. A via transdérmica
parece ser a melhor maneira de reposição de estrógeno.
Cabe relembrar que a reposição
hormonal com estrógenos está absolutamente contra-indicada em mulheres em
pós-menopausa com tumor de mama, útero e rim, que são estrógeno-dependentes.
Outras contra-indicações são doença hepática aguda, doença
cérebro-vascular, tromboembolismo venoso ativo, melanoma maligno e sangramento
vaginal não diagnosticado. A reposição deverá ser cuidadosa em mulheres com
diabete mélito, hipertensão estrógeno-associada, colecistite e colelitíase,
pancreatite, insuficiência cardíaca, passado de endometriose e doença
neuro-oftalmológica. Obviamente muitas destas condições contraindicam a
prática do mergulho autônomo amador para as mulheres não só em falência
ovariana, portanto é indispensável a avaliação médica, objetivando tanto o
tratamento da menopausa como a liberação à prática do mergulho autônomo
amador.
As considerações pertinentes
aos efeitos dos estrógenos e progestágenos no mergulho são as mesmas feitas
em relação ao uso dos anticoncepcionais em mergulhadoras. Os estudos
observacionais em relação à doença descompressiva em geral identificam que
aproximadamente um quarto das mulheres usa anticoncepcionais e que nessas não
se observou uma maior incidência de doença descompressiva.
Em relação aos estrógenos,
devemos considerar o risco aumentado de trombose. Durante o seu uso, podem
ocorrer mais eventos trombóticos espontâneos não fatais do que na população
que não usa. Além disso, os pesquisadores em medicina hiperbárica especulam
que seu uso pode aumentar o risco de doença descompressiva ou o grau de
comprometimento e severidade do dano tecidual ocorrido num acidente. Contudo,
nenhum estudo em animais apoiou essa hipótese. Ao contrário, há registros na
literatura ginecológica de que 50 % dos episódios tromboembólicos decorrentes
do uso de anticoncepcionais viriam de interações entre eles e uma desordem de
algum fator de coagulação herdada. Sugerimos que, antes do uso, mesmo estando
fora do perfil de contra-indicação, e por se tratar de faixa etária indicada
em termos de medicina preventiva, seja realizado um exame laboratorial - a
dosagem de homocisteína- pelo seu valor preditivo em relação à doença
vascular arterial e ocorrência de fenômenos tromboembólicos.
Em relação às progestinas
podemos dizer que elas agem, limitando a inflamação. Dessa forma, poderiam
limitar o dano causado pelo processo inflamatório que segue à hipóxia
tecidual em acidentes com gases. Isso torna a progesterona de ação longa, em
altas doses, o anticoncepcional de escolha para a mergulhadora. É o caso da
depoprovera e dos implantes de depósito. Isso é lembrado, pois muitas
prescrições de reposição hormonal são individualizadas e podem incluir
essas substâncias.
Como qualquer medicação que
contenha estrógenos pode aumentar o risco de tromboembolismo e muitos acessos a
vários destinos de mergulho exigem que se viaje por muitas horas, o uso dessas
medicações deve ser sempre considerado muito importante em vôos longos para
locais remotos. Isso se torna relevante devido à imobilização que ocorre
durante o vôo e que propicia trombose venosa profunda, principalmente em
membros inferiores. Acreditamos que isso é mais importante que a própria
relação dos estrógenos com o mergulho, que ainda não está devidamente
esclarecida. Sugerimos que mulheres em terapia estrogênica movam-se
periodicamente durante os vôos e use meias elásticas.
Outra questão relevante é a
relação da reposição hormonal e a pressão arterial sistêmica. Segundo as
últimas diretrizes sobre a hipertensão arterial, a reposição estrogênica
pode ser recomendada, pois tem pouca interferência na pressão arterial. No
entanto, há necessidade de avaliação periódica, já que um pequeno número
de mulheres apresenta elevação da pressão arterial durante o uso de
estrógenos. Considerando as mergulhadoras, se houver elevação de pressão
arterial, individualização terapêutica deverá ser realizada. O mergulho deve
ser suspenso até se obter o controle da pressão. Nesses casos, se prefere o
tratamento não medicamentoso. O mergulho é seguro naqueles que controlam a
pressão com o alcance do peso ideal, restrição salina e exercícios. Outros
mergulhadores que têm controle com essas medidas mais o uso de diurético,
também podem mergulhar. Inibidores de enzima de conversão e bloqueadores de
canais de cálcio parecem seguros nas condições do mergulho autônomo amador.
Aqueles com indicação de betabloqueadores não são liberados à prática. Na
avaliação de mergulhadores com hipertensão arterial sistêmica, devemos
sempre considerar as causas da hipertensão. Órgãos que são alvos da
hipertensão também devem ser avaliados, como os olhos, coração, rins e
cérebro.
Concluindo
O mergulho é uma atividade de
lazer cada vez mais difundida e, pelas suas características de exigir
responsabilidade dos praticantes, tem excelente receptividade também a partir
da meia-idade. A correlação menopausa - mergulho não se restringe à questão
da crise hormonal, ela tem um significado maior. O mergulho é uma atividade de
lazer inserida no contexto sócio-cultural que nós, mergulhadores, vivemos.
Hoje vivemos numa sociedade em que a melhora das condições de saúde não
somente se reflete diretamente na melhora da sobrevida e na perspectiva de vida
das populações, mas também na qualidade de vida das pessoas individualmente.
Felizmente o mergulho é uma atividade que produz qualidade de vida da mesma
forma que a ela está associado. Conversar sobre a menopausa e o mergulho
significa planejar o mergulho e mergulhar num plano de vida. Para toda a vida.
Renúncia
Nenhuma representação neste
texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para
qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente
informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do
médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer
consequência concebível relacionada à leitura deste texto.
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