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Avaliação Clínica Psicolólogica
para Mergulho
Durante a avaliação de candidatos a mergulhador autônomo amador coletamos
uma história completa realizando, passo a passo, uma revisão dos vários
sistemas orgânicos, dos antecedentes e da história familiar relacionadas ao
estado de saúde e de doenças pregressas. A avaliação do psiquismo para o
mergulho é uma das mais difíceis tarefas para o clínico examinador, no
sentido de qualificar ou não o candidato. Durante o exame, não há uma
dificuldade acentuada em relação ao diagnóstico de psicoses graves. Estas são
facilmente diagnosticadas pelo acentuado grau de desconexão com a realidade
que o candidato apresenta. Raramente esperaremos que um psicótico ativo
incorpore a prática do mergulho no seu estado delirante. Outra possibilidade
é o diagnóstico de neuroses. As neuroses, além de serem um estado altamente
prevalecente na nossa sociedade, raramente trazem consequências graves ao
mergulho além do sofrimento do próprio neurótico. A imensa maioria das
neuroses não constitui contra indicação ao mergulho autônomo e apresenta
excelente resposta ao tratamento psicoteráptico. Talvez a maior preocupação
do avaliador esteja no diagnóstico de distúrbios de personalidade. O diagnóstico
é difícil e é muito importante, pois o portador de algum destes distúrbios
tem uma grande possibilidade de pôr em risco além da própria saúde, a de
seu companheiro de dupla e de todo o grupo envolvido numa operação de
mergulho.
Se tentarmos objetivar a avaliação, constataremos que não existem testes
objetivos para definir as várias situações que se podem apresentar. Por
isso existe a necessidade da avaliação ser realizada por um profissional
treinado. Um médico que já mergulhou e vivenciou as dificuldades de
mergulhar poderá perceber alguns sinais-chave no sentido de definir uma
qualificação. A prática tem demonstrado que um bom clínico com experiência
em mergulho pode revisar extensivamente alguns tópicos comportamentais comuns
à atividade sendo capaz de descartar um candidato de risco, utilizando questões-chave
como: Você costuma sofrer acidentes domésticos ou no trabalho com frequência?
Quantas vezes se machucou no último ano? Costuma bater de carro ? Quantas
suturas já precisaste fazer ? Quantas fraturas ósseas ? Entre
outras.
Contudo, a avaliação é muito subjetiva e, na dúvida, o candidato à prática
do mergulho autônomo é liberado para o aprendizado com a condição de
possibilidade de exclusão futura durante o treinamento.
Um bom instrutor além do clínico avaliador, é capaz de durante o
treinamento, longe do cotidiano do candidato e numa situação de estresse
desencadeante controlado, definir melhor do que o próprio médico no espaço
privado do consultório. Aqui cabe salientar que, pela possibilidade de
envolvimento dos instrutores em situações de risco, eles também devem ser
treinados para atuarem como promotores de saúde a partir de diagnósticos
preventivos. Acreditamos que um bom curso de formação de instrutores deve
fazer uma revisão sistemática de certos tópicos básicos comumente
relacionados à área da saúde. No caso específico das doenças mentais,
eles devem saber reconhecer sinais que identifiquem que algo não vai bem como
por exemplo, mudanças no auto cuidado ou aparência, reações
desproporcionais a fatos corriqueiros, mudanças do humor, irritabilidade fácil,
déficit de atenção, desinteresse, melancolia, insônia, entre outros.
O manuseio com o equipamento, exercícios repetidos com algum grau de
complexidade e as relações interpessoais observáveis durante o treinamento,
são vivências que podem definir a situação de saúde mental de um
candidato. Mesmo assim, nas condições atuais de ensino praticadas e
observadas no mergulho amador, algumas situações psiquiátricas importantes
em relação ao risco da atividade podem passar desapercebidas. Pelo alto grau
de exigência de instrutores e candidato isso é menos observado no
treinamento para a formação de mergulhadores profissionais.
Devemos ressalvar a necessidade do resgate do papel do instrutor ao lado do médico
avaliador, pela saúde do próprio mergulho enquanto atividade de lazer e
contra o paradigma comercial empresarial de formar o maior número de
mergulhadores. Hoje o que vemos é um processo seletivo intracurso menos
eficiente no sentido de excluir candidatos não habilitados à prática do
mergulho amador. Entre os fatores dessa diminuição de eficiência podemos
observar programas de treinamento prático menores, menos exigentes,
instrutores pouco experientes, grande número de instrutores, mercado
competitivo, característica da pressa na obtenção de títulos sem vinculação
com o tempo de experiência na atividade, ou treinamento. Não há como negar
que vivemos numa sociedade altamente individualista, que estimula o sucesso a
qualquer custo e no menor tempo possível além da busca pela obtenção de
certos títulos de qualquer maneira como símbolo de status social. Formar e
avaliar constantemente um mergulhador são tarefas que demandam tempo e tempo
e dinheiro nem sempre estão disponíveis. O mesmo, até certo ponto, pode ser
aplicado aos avaliadores médicos que muitas vezes, para agravar o problema,
sequer têm vinculação com a atividade de mergulho.
Nada adiantarão todos esses esforços na avaliação psicológica do
candidato a mergulhador se não pudermos contar com um avaliador honesto. O
candidato tem a obrigação moral de comunicar seus problemas, a medicação
que usa, ao avaliador médico e aos instrutores por mais insignificante que
pareça ser. Desta honestidade depende a segurança do companheiro de dupla,
do instrutor e de todos direta ou indiretamente envolvidos em operações de
mergulho.
Além disso, devemos sempre considerar a possibilidade de alguns candidatos ao
mergulho amador ou profissional poderem receber o treinamento em fases de
remissão de certas doenças. Nessas condições sempre as agências
credenciadoras, ou as escolas de mergulho em última análise e o avaliador,
devem ter consciência da importância, além da avaliação médica inicial,
da reavaliação periódica, se esta for indicada. A liberação de candidatos
para a prática do mergulho com desordens psiquiátricas considerada
permanente, poderá futuramente colocar em risco outras pessoas. Diga-se, de
passagem, que estes são riscos desnecessários a uma atividade que propõe-se
somente o lazer e a felicidade das pessoas. Também não podemos omitir a
utilidade terapêutica do mergulho. Quantos de nós não encontramos no
mergulho a possibilidade temporária de nos livrarmos das neuroses do
dia-a-dia ? O que menos queremos encontrar são pessoas com potencial
destrutivo na prática desta atividade.
Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico,
tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O caráter do
texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento
específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável
por qualquer consequência concebível relacionada à leitura deste texto.
Fontes Bibliográficas
1. Davis, J.C. and Bove, A.A.. Medical
evaluation for sport diver. In: Bove A.A.. Bove and Davi’s Diving Medicine,
3rd Edition, Philadelphia, WB Saunders Company ltd,1997;24:350-351.
2. United States Department Of Commerce. NOAA Diving Manual. Diving for
Science and Technology, 4th Edition, Arizona, Best Publishing Company, 2001;
20:20-1 – 20-22.
3. Bove, A.A.. Fitness to dive. In: Benett P., Elliot D..The Physiology
and Medicine of Diving, 5th Edition, Philadelphia, WB Saunders Company ltd,
2003; 12:714.
4. Campbell, E.. Psycohological issues in diving. Alert Diver. 2000;
September/October:24-27.
5. Bove, A.A.. Medical Examination of Sport Scuba Divers, 3rd Edition,
Flagstaff, Best Publishing Company, 1998; Section II:20-21.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.
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