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Depressão e o Mergulho
A depressão é uma desordem psiquiátrica que atualmente tem tido ampla
divulgação nos meios de comunicação, principalmente, pelas restrições a
uma vida normal que ela impõe e pelo alto grau de sofrimento que acarreta ao
portador. Isso é muito importante, principalmente, em relação às limitações
à realização das atividades de trabalho e ao cumprimento dos papéis
sociais daqueles que a apresentam. Graças a uma quantidade considerável de
medicações disponíveis no arsenal terapêutico, a reabilitação dos
portadores de depressão tem sido bem sucedida. Muitas informações têm sido
disponibilizadas em revistas de atualidades sendo que ela tem sido considerada
uma alteração decorrente de uma predisposição genética desencadeada, no
homem moderno, pelas dificuldades inerentes do viver, associado as novidades
de um mundo como o da sociedade contemporânea, altamente individualista e
promotora da solidão. Contudo, nessas divulgações, a depressão de sintoma
reacional muitas vezes não é bem diferenciada da depressão clínica, uma
desordem afetiva do grupo dos distúrbios do humor, que é uma doença
importante, muitas vezes debilitante e com risco de suicídio.
Estima-se que 1 entre 20 norte-americanos apresentam características que se
enquadram no diagnóstico de depressão clínica. Além disso, 1 entre 15
norte-americanos usam antidepressivos devendo ser considerado que há outras
indicações para o uso. Pesquisas sugerem que a prevalência da depressão em
mergulhadores ativos não difere da sua prevalência na população em geral.
A pessoa com depressão apresenta uma alteração do humor caracterizada por
perda de interesse ou prazer pelas suas atividades. Na verdade há uma
completa falta de energia no indivíduo. Além disso, pode apresentar
fadigabilidade aumentada, diminuição da atividade e cansaço
desproporcionalmente intenso após esforços leves. Outros sintomas são o déficit
de atenção e concentração, redução da auto-estima e autoconfiança,
sentimentos de culpa e inutilidade, visão desiludida e pessimista do futuro,
sono perturbado ou até apetite diminuído. São sintomas somáticos da
depressão a perda de interesse por atividades normalmente agradáveis, falta
de reação emocional a ambientes e eventos normalmente prazerosos, despertar
muito antes do habitual, evidência clara de retardo ou agitação
psicomotora, perda significativa de apetite e peso e perda da libido. Em casos
mais graves, podem ocorrer atos autolesivos, idéias suicidas e até mesmo o
suicídio. Em termos de critérios diagnósticos, pelo menos quatro dos
sintomas descritos devem ocorrer de modo persistente por, pelo menos, duas
semanas. Cabe salientar que, em crianças e adolescentes, o humor pode ser
irritável ao invés de triste.
No deprimido podemos observar um prejuízo significativo no funcionamento
social, profissional ou de outras áreas importantes do indivíduo.
Aspectos gerais da relação
da Depressão com o Mergulho
A depressão como desordem afetiva e outras condições psiquiátricas maiores
como, por exemplo a esquizofrenia, a desordem obsessivo-compulsiva e a
desordem do pânico, são condições que colocam em risco a saúde física de
seus portadores. No mergulho também impõem riscos à segurança pelas
dificuldades na capacidade de julgamento e de tomada de decisão que podem
impor. Doenças psiquiátricas orgânicas ou constitucionais graves são
contra-indicações absolutas à prática do mergulho autônomo profissional.
No mergulho autônomo amador, em relação à depressão, a decisão de
impedir de mergulhar, não é difícil, quando o candidato apresenta o extremo
das formas de apresentação clínica. Contudo, na depressão há espaço para
uma reabilitação com excelente nível de manutenção de qualidade de vida.
Porém, sempre que recebemos uma notícia de fatalidade em mergulho não
conseguimos deixar de pensar, dadas as condições muitas vezes inexplicáveis
do acidente, na possibilidade de ter sido um suicídio.
Algumas condições psiquiátricas não extremas ou consideradas reacionais a
determinado momento da vida de um mergulhador ou de qualquer outra pessoa que
possa estar passando por crises acidentais ou vitais, constituem uma outra
situação. São situações comumente observadas e não constituem quadros
psicóticos, havendo um completo vínculo com a realidade. Na realidade, são
estados de depressão reacional de curta duração, revelados por alterações
do humor da pessoa e relacionados ao seu grau de infelicidade. Elas estão
presentes, por exemplo, na morte de alguém querido, quando se tem alguma
desilusão, como a perda de um emprego, ou até mesmo quando há um
desentendimento numa relação envolvendo alguém que se ama.
Essas situações requerem que o candidato consulte um médico específico
para indicar o tratamento psicoterapêutico adequado e, muitas vezes, medicação
para uso por determinado período. O psiquiatra, junto com o avaliador clínico
do mergulho, decidirá pela liberação ou não para o mergulho com base na
relação risco-benefício da atividade e mesmo na sua capacidade
reabilitadora. Além disso, é recomendado um parecer do instrutor em campo.
É fundamental insistir na avaliação da motivação à prática do mergulho
inserida no contexto psico-social e individual do candidato a mergulhador. O
mergulho pode ser encarado como uma atividade de reabilitação e acompanhar a
abordagem psicoterápica.
Muitas vezes, a diferença da situação anteriormente descrita da desordem
afetiva é somente uma questão de tempo. Se os sintomas relacionados a algum
evento desencadeante persistirem por mais de duas semanas e houver uma
deterioração do estado geral daquele que apresenta os sintomas, ou se estes
estiverem num crescendo de intensidade, poderemos estar frente a uma depressão
clínica.
Nesse ponto cabe salientar a possibilidade da existência da situação em que
um mergulhador previamente credenciado passa a apresentar sintomas por mais de
duas semanas e, na verdade, caracteriza uma depressão clínica sobreposta em
quem já mergulhava e era considerado saudável. Primeiramente esse
mergulhador deve procurar ajuda profissional e parar de mergulhar até ter uma
solução do problema. Depois da abordagem inicial e começo de um tratamento
ele é reavaliado em relação à possibilidade da associação de medicação
e à manutenção do mergulho num caso específico como esse.
Em relação às manifestações da doença que põe em risco o praticante do
mergulho, está a dificuldade de pensar, tomar decisão, havendo indecisão e
falta de concentração. Na prática do esporte o mergulhador constantemente
é convidado a processar um conjunto de variáveis, como: localização,
suprimento de ar, profundidade, limites não descompressivos, o comportamento
do companheiro de dupla para elaborar uma decisão. Em baixo d'água e a vários
metros de profundidade, não é o local para indecisão, falta de atenção e
lapsos de memória. Além disso, o mergulho exige também um certo grau de
vigor físico para suportar as adversidades do fundo do mar. Ora, a falta de
motivação e de energia e a lassitude fazem parte do quadro depressivo e suas
manifestações podem ser negativas durante um mergulho. O mergulho também não
é compatível com outras manifestações da depressão, como a irritabilidade
e alguns sintomas como cefaléia e dores articulares. Os últimos podem gerar
confusão em relação a um diagnóstico de doença descompressiva.
Num deprimido não tratado é mais frequente a ocorrência do pensamento
suicida. Na ideação suicida incluímos a intenção e o planejamento.
Acredita-se que 9% dos suicídios ocorrem por afogamento. Algumas estimativas
relatam que em torno de 17 % dos acidentes em mergulhadores profissionais são
decorrentes de tentativas de suicídio. Não há estimativas em relação ao
mergulho amador, no entanto se acredita que ele tenha uma participação
importante nas estatísticas desta atividade.
Em relação ao uso de medicações e mergulho, a princípio, como regra
geral, pacientes que requerem medicações psicotrópicas, devem ser
desqualificados para a prática do mergulho autônomo amador. Algumas drogas
psicoativas, principalmente os antipsicóticos, produzem sonolência e podem
provocar crises neurológicas específicas como efeitos adversos. Esses
efeitos adversos podem ser incapacitantes embaixo d’água. Além disso, toda
medicação que produz sonolência, potencializa a narcose pelo nitrogênio.
Outro ponto a considerar é que os efeitos adversos de muitas medicações
dificultam o diagnóstico de condições como a doença descompressiva,
narcose por gás inerte, toxicidade por oxigênio e gás carbônico. No
mergulho comercial, acrescentam-se as dificuldades para o diagnóstico da síndrome
neurológica das altas pressões e o apagamento das grandes profundidades.
Essa é a regra geral.
O problema dos distúrbios psicológicos e o mergulho não se limitam somente
aos riscos de ter a doença e aos riscos do uso de medicações, mas também há
a sua associação com o mergulho e a possibilidade de colocar em risco a saúde
de outros praticantes envolvidos na atividade. O maior problema da grande
maioria dos mergulhadores que apresentam depressão, é o fato de ter de usar
medicação para aliviar seus sintomas. Numa tendência de uma prática mais
liberal em relação ao mergulho autônomo amador, candidatos ao mergulho que
usam essas medicações somente poderão vir a ser liberados se houver
acompanhamento psiquiátrico e se o psiquiatra estiver ao alcance do instrutor
de mergulho e do clínico avaliador para uma constante reavaliação em relação
aos critérios de liberação. Devem ser contra-indicados à prática aqueles
candidatos que usam medicações antidepressivas sem acompanhamento clínico e
psiquiátrico continuado. Sempre a família deve ser chamada para tratar do
assunto e encaminhar o melhor tratamento.
Essa tendência liberal vem da observação de que, dentre as doenças psiquiátricas,
as desordens afetivas, as depressões, são as que melhor respondem ao
tratamento. Ou seja, o tratamento adequado promove adequada reabilitação com
produtividade e qualidade de vida. Aí vem a questão de por que não liberar
os reabilitados para o mergulho ?
Tratamento medicamentoso da
depressão e o mergulho
Atualmente são utilizados três tipos de antidepressivos para o tratamento da
hipertensão. Eles são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina,
os inibidores da monoamina oxidase e os antidepressivos tricíclicos e heterocíclicos.
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina ficaram muito populares
após um intenso trabalho de divulgação nos meios de comunicação, como
capazes de acabar com o problema. A verdade é que são drogas seguras e bem
toleradas apesar de mais caras. São exemplares deste grupo o citalopram
(Cipramil®), fluvoxamina (Luvox®), paroxetina (Aropax®, Pondera® e
Cebrilin®), fluoxetina (Prozac®) e a sertralina (Zoloft®).
Apesar de seguras em relação aos efeitos adversos, ainda assim apresentam ação
no sistema nervoso central, portanto são capazes de predispor à narcose pelo
nitrogênio. Um terço dos usuários deste grupo de medicações experimenta
sonolência que provoca uma diminuição da atenção e do estado de vigília.
A sonolência diminuirá com o uso continuado e melhorará se a medicação
for usada na hora de dormir. Usuários de antidepressivos que são liberados
para o mergulho através de um consenso multiprofissional, devem evitar o
mergulho nas primeiras semanas de uso destas drogas. É nesse período que os
efeitos sobre a vigília e estado de alerta são mais intensos.
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina são drogas que
apresentam negligíveis efeitos anticolinérgicos (por exemplo podem provocar
visão borrada e boca seca), sobre o sistema cardiovascular, sobre a pressão
arterial e sobre o ganho de peso. O efeito adverso de boca seca tende a
diminuir com o uso continuado. Ela aumenta o risco de problemas dentários.
Tremor de extremidades pode ser observado e diminui com o uso continuado.
Em doses maiores, elas podem tanto sedar, quanto tornar o indivíduo agitado
ou ansioso, comportamentos que são capazes de colocar em risco o mergulhador
durante o mergulho. O efeito adverso de ansiedade tende a melhorar com uso
continuado e dose adequada. A ressalva maior é que se deve ter muito cuidado
com uma acentuada melhora do humor que acompanha o uso destas medicações nos
deprimidos. A melhora do humor não deverá ser tão intensa que torne o
mergulhador um eufórico sem condições de realizar com segurança os
processos decisórios que envolvem a atividade, acarretando riscos desnecessários
à pratica do mergulho.
Existem estudos correlacionando níveis elevados de serotonina no cérebro com
um aumento da fadiga durante o exercício com uma diminuição da resistência
física em 30%. Isso associado à falta de ânimo da depressão pode ser
perigoso durante o mergulho em condições adversas do meio ambiente, como no
mergulho profundo, no frio e contra correnteza. Além disso, num modelo
experimental animal, o aumento do nível de serotonina no sistema nervosos
central está associado à ocorrência da síndrome neurológica das altas
pressões. Teoricamente qualquer droga que aumente os níveis de serotonina no
cérebro, também está associada à predisposição à toxicidade pelo oxigênio,
o que deverá ser considerado durante o mergulho com misturas com maior pressão
parcial de oxigênio, como no mergulho com nitrox.
Um efeito adverso importante dos antidepressivos, em especial dos inibidores
seletivos da recaptação de serotonina, é a convulsão. A ocorrência de
convulsão está documentada no uso em altas doses. Ela é especialmente
importante no mergulho pelo risco de afogamento. Naqueles em que foi
observada, torna-se contra-indicação absoluta.
Menos importante em relação aos inibidores seletivos da recaptação de
serotonina é a tendência de aumentar o tempo de coagulação com propensão
a maior sangramento durante um trauma. Isso é particularmente importante em
relação ao mergulho pela possibilidade de ocorrência de barotrauma durante
sua prática bem como de acidentes de percurso por manuseio de equipamentos
pesados. Usuários destas medicações devem redobrar os cuidados durante as
manobras de compensação. Como estas drogas têm algum efeito analgésico, o
diagnóstico pode ser mais difícil. Cuidados maiores devem ser tomados
durante o uso concomitante com aspirina e antiinflamatório não esteroidais,
pois há potencialização do efeito adverso de sangramentos.
Em relação ao uso dessas drogas e à doença descompressiva, podemos dizer
que alguns efeitos adversos delas podem simular a doença descompressiva.
Todas as classes de antidepressivos produzem reações que são muitos
semelhantes à doença descompressiva como a dor de cabeça, fraqueza, cansaço,
descoordenação motora, alterações da visão e formigamentos em
extremidades.
Outros antidepressivos de uso consagrado são os antidepressivos tricíclicos
e heterocíclicos, que, apesar de eficientes, apresentam efeitos adversos
muito importantes que dificultam a liberação para a prática do mergulho autônomo
amador por, na relação risco-benefício, pender mais para ao risco. Sonolência
e diminuição do estado de alerta são comuns a todos os antidepressivos, porém
parecem ocorrer mais frequentemente durante o uso de antidepressivos tricíclicos.
É um problema intenso nas primeiras semanas de uso ou com o aumento da
dosagem. Com o uso continuado, tende a desaparecer e uma conduta para
minimizar o efeito é usá-los na hora de dormir. Tontura pode ocorrer e
decorre da hipotensão postural, que a medicação pode provocar. Deve-se
evitar levantar ou trocar de posição rapidamente. Boca seca pode ocorrer e
tende a desaparecer com o uso continuado. Visão turva também pode ocorrer,
sendo geralmente temporária. Raramente visão turva é um efeito grave e
diminui com o uso continuado. Neste grupo temos a amitriptilina (Amytril®,
Tryptanol®), nortriptilina (Pamelor®), maprotilina (Ludiomil®), mirtazapina
(Remeron®), desipramina (Norpramim® e Pertrofane® nos Estados Unidos) e
doxepina (Sinequan® nos Estados Unidos). Eles também são usados para tratar
ansiedade e dor crônica.
Os inibidores da monoamina oxidase têm sido cada vez menos prescritos. Isso
provavelmente decorre de seus efeitos adversos, principalmente, relacionados
ao desencadeamento de hipertensão arterial sistêmica. A hipertensão
observada durante o uso de inibidores da monoamina oxidase decorre da interação
da medicação com certos alimentos, bebidas e outras drogas. Tontura é
observada nos primeiros meses de tratamento ou quando a dosagem é aumentada.
Ela ocorre quando o paciente se levanta ou muda abruptamente de posição e
decorre de hipotensão postural. Tomar a medicação ao dormir ou pequenas
doses fracionadas podem melhorar esse efeito adverso. Sonolência também pode
ocorrer. Ela é transitória e dura alguns meses. Durante o seu uso,
raramente, pode ocorrer tremor de extremidades. Ele tende a melhorar com o uso
continuado. São representantes desse grupo a fenelzina (Nardil® nos estados
Unidos) e a tranilcipromina (Parnate® e Stelapar). Eles também são usados
para o tratamento de desordens da ansiedade.
Está bem documentado que muitos mergulhadores amadores têm mergulhado sem
problemas, usando inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Além
disso, quantos deprimidos estão mergulhando neste momento sem um diagnóstico?
Essa situação lembra-nos muito a questão da asma e o mergulho. Por muito
tempo, numa seleção nada liberal a asma era considerada uma contra-indicação
absoluta ao mergulho. Com o tempo não se conseguiu correlacionar portadores
da doença com acidentes de mergulho. Além disso, pode se constatar a existência
de uma grande quantidade de instrutores asmáticos que vinham mergulhando sem
qualquer problema. Cabe também registrar que muitos asmáticos candidatos ao
mergulho autônomo omitiam a informação sobre sua doença.
A verdade é que não há estudos controlados demonstrando risco em mergulhar,
usando qualquer medicação e, especificamente, este grupo de medicações. Não
há estudos dos efeitos destas drogas em mergulhos de grandes profundidades,
em mergulhos com misturas gasosas ou de saturação. O risco é hipotético.
No entanto, sabemos que estas medicações afetam a bioquímica do sistema
nervoso central sob a pressão atmosférica ambiente. Não é razoável que se
ache que seus efeitos adversos vão melhorar, aumentando a pressão parcial do
nitrogênio sem potencializar a narcose. No entanto, cabe ressalvar que alguns
efeitos adversos raramente ocorrem e que nem todos podem ser atribuídos
exclusivamente a estas drogas. A maioria das pessoas que usam estas drogas, as
toleram, sendo que uma boa parcela que apresenta efeitos adversos, relata que
eles desaparecem após algumas semanas de uso. Além disso, alguns efeitos
adversos melhoram com alterações na prescrição, como a dose, a hora do dia
em relação à tomada e o intervalo de dose. Há também a possibilidade de
escolher a droga que apresente melhor efeito em determinada pessoa.
O que ocorre é que se imagina uma interação negativa entre os efeitos
fisiológicos (ou fisiopatológicos) do mergulho e os efeitos farmacológicos
das medicações. Sabemos também que cada mergulhador responde diferentemente
aos efeitos dos vários gases sob pressão. Esse raciocínio é coerente e
procede em termos de lançar a atividade ao melhor nível de segurança.
Medicações com indicação de cautela durante o seu uso enquanto se dirige e
se opera máquina perigosa também são válidas para o mergulho por oferecer
risco aos mergulhadores.
O que dificulta a decisão é que a depressão se caracteriza por mudanças
complexas na bioquímica do cérebro e que a bioquímica reguladora do humor não
está funcionando bem, indicando desequilíbrio de neurotransmissores. Porém,
sabemos que a resposta terapêutica é muito boa e se traduz em excelentes níveis
de reabilitação psico-social, constatando-se um grau elevado de felicidade
naqueles que respondem ao tratamento.
Em que situações é seguro
mergulhar com depressão ?
Hoje, cada vez mais, nos afastamos do modelo de super-homem mergulhador e nos
aproximamos do homem comum mergulhador, com seus medos e problemas do
cotidiano. A orientação seria que regras rígidas não se aplicam a todos e
cada situação requer avaliação individual e deve incluir o potencial
reabilitador da própria atividade. O que dizer em relação ao cerceamento do
trabalho de todos que apresentam alterações psiquiátricas tratáveis ?
O mergulho amador, a inexistência da obrigatoriedade de mergulhar num
determinado momento, torna o tratamento do tema mais liberal, o contrário das
obrigações encontradas no mergulho profissional além do tipo específico de
mergulho. A posição radical de não liberar para o mergulho mergulhadores
com depressão não é sustentável pela carência de resultados objetivos no
campo da pesquisa médica. Reconhecidos especialistas em medicina do mergulho
vêem, com reservas, a liberação para o mergulho o portador de depressão
mesmo em tratamento. Outros mais conservadores acreditam que na ausência de
informação consistente não se deve cair no excesso da liberalidade. Esses
utilizam o princípio ético da não-maleficência, ou seja, primeiro não
prejudicar, não fazer o mal, para não liberar a prática. Nesse caso
evoca-se o princípio da não-maleficência pelo conhecimento técnico-científico
do médico da existência da possibilidade, mesmo que mínima, de prejuízo ao
candidato.
No Reino Unido, o Comitê Médico de Mergulho Esportivo adotou uma posição
radicalmente conservadora e desaconselhou mergulhar enquanto em uso de
bupropiona (Zyban® e Wellbutrin SR®). A brupopiona é um antidepressivo atípico,
não classificado nos grupos anteriores, não tendo sido mencionado
anteriormente que tem efeitos negligenciáveis em relação à sedação, ação
anticolinérgica, cardiovasculares, incluindo hipotensão e ganho de peso. No
entanto, ela tem grave efeito convulsivante e é dose-dependente. Cabe
salientar que a droga é usada no tratamento da interrupção do tabagismo e
no tratamento de desordens do déficit de atenção. Nessa mesma comunicação
estava sendo aconselhado que qualquer usuário de inibidores seletivos de
recaptação de serotonina deve ser desaconselhado a mergulhar.
Após o que já foi argumentado, existe a possibilidade de assumir uma posição
de que tanto a depressão como o seu tratamento medicamentoso podem ser
liberados em casos bem individualizados baseados no princípio do benefício
da atividade para o portador de depressão e no respeito à autonomia do
deprimido de optar por mergulhar. Essa posição considera o mergulho como uma
atividade que, apesar dos riscos pode ser reabilitadora, e o mergulhador não
quer prescindir dela.
Apóiam essa decisão algumas observações em relação ao portador da
desordem. A primeira é a constatação de que a doença está bem controlada
e não há outras contra-indicações no quadro clínico. Além disso, o
mergulhador sente-se bem e compreende plenamente os seus riscos. E, para
finalizar, o mergulhador usa a medicação há tempo e efeitos adversos não
foram relatados nem observados num exame clínico cuidadoso.
Portanto, pode mergulhar aquele que apresenta boa resposta à medicação,
ficando assintomáticos por um longo período. Ainda, o uso de medicações não
pode interferir nos processos decisórios, na capacidade de se equipar, de se
deslocar na água e nas relações de responsabilidade em relação a outras
pessoas envolvidas na pratica do mergulho. A segurança da melhor decisão
dependerá da avaliação individual criteriosa de cada caso. Nesse ponto,
deve-se considerar especificamente a resposta terapêutica à medicação,
o(s) tipo(s) de droga(s) e o período de tempo em que o esquema terapêutico
afasta o mergulhador da recidiva da doença.
Acredito também que aqueles que forem liberados deverão mergulhar em condições
especiais. O mergulho deverá ser extremamente conservador. O plano de
mergulho deverá ser conferido e confirmado por instrutor qualificado e com
familiaridade sobre o tema. Ele não deverá ser descompressivo ou seja, não
poderá ultrapassar limites não descompressíveis. No plano de mergulho deve
haver limitações de profundidade devendo ficar abaixo da profundidade onde há
maior pico de incidência de narcose pelo nitrogênio ou seja, 30 metros de
profundidade. Cabe registrar que a partir dos 20 metros a sintomatologia da
narcose já pode ser observada. Nesse tópico deve ser considerado o limite
individual de resposta à narcose. É proibitivo o mergulho solo. O
mergulhador com esse problema e consequentes limitações de plano de
mergulho deverá selecionar o companheiro de mergulho de modo adequado.
Preferencialmente um mergulhador bastante experiente com treinamento em
resgate. As condições ambientais de visibilidade e correntes deverão ser
adequadas assim como as de navegabilidade. A possibilidade de abortar o
mergulho deverá ser tratada previamente entre todos os envolvidos numa operação
de mergulho recreativo.
O importante é que o mergulhador seja honesto com todos os envolvidos no
mergulho desde o momento da avaliação médica, durante o período de
treinamento e de aprendizagem e finalmente com seu companheiro de dupla e
operadoras de mergulho recreacional. O mais importante é que o mergulhador
seja honesto consigo mesmo.
Conclusões
Para concluir, gostaríamos de salientar especificamente que qualquer estado
que dificulte a capacidade de tomada de decisões no mergulho representa
perigo não só ao praticante, portanto aqueles que apresentam tais estados, não
devem ser liberados. Permitir que um mergulhador não reabilitado, sintomático
ou que apresenta efeitos adversos suficientemente comprometedores para a excelência
da prática do mergulho autônomo amador representa perigo suficiente para o
praticante, para o seu companheiro de dupla e para as outras pessoas
envolvidas numa operação de mergulho. Portanto, a decisão de liberar para o
mergulho algum candidato vai além do princípio de autonomia de decisão do
candidato, pois a prática do mergulho envolve vários personagens. Além
disso, pode ser alegado que candidatos que apresentam depressão não têm
autonomia para decidir, pelas características da doença, sobre a prática
dessa atividade de risco. O princípio da justiça também indica que todos
com condições têm pleno direito ao usufruto de uma medicina moderna e ética.
A medicina atual não tem plenas condições de definir uma conduta padrão rígida
nesses casos. Aqui lembramos que a justiça, como princípio, nos faz refletir
sobre a necessidade deste tipo de exposição no sentido de proteger médicos,
instrutores, companheiro de dupla, companheiros de embarcação e operadoras
de mergulho de lazer e suas equipes, em relação a demandas judiciais
futuras.
Renúncia
Nenhuma representação neste
texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para
qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente
informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do médico
de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência
concebível relacionada à leitura deste texto.
Fontes Bibliográficas
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Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.
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