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Enjôo / Mal de Mer
“Existem três tipos de pessoas: o vivo, o morto e o mareado”
Anarcarsus, 600 a.C.
O enjôo em embarcação ou mareio
embarcado é um dos problemas mais comuns e debilitantes em operações de
mergulho em todo mundo. Existem pessoas resistentes ao enjôo. No entanto, uma
determinada aceleração angular desencadeante no momento certo pode provocar
enjôo em qualquer um. O enjôo não ocorre exclusivamente na navegação. É
muito comum pessoas, principalmente crianças, enjoarem em automóveis,
ônibus e aviões. No mergulho autônomo amador existem várias
circunstâncias em que podemos enjoar.
Em relação à epidemiologia podemos observar
que ele é raro em crianças menores de 2 anos e em adultos acima dos 70 anos.
Além disso, é 1,7 vezes mais frequente em mulheres do que em homens.
Observou-se que o mareio, além de ter a prevalência maior em mulheres,
ocorre mais durante a menstruação.
A fisiopatologia do mal de mer ainda
não é totalmente conhecida. Uma hipótese coloca que ela decorre da
incapacidade do cérebro de integrar informações conflitantes vindas da
orelha interna, dos olhos e de outros sensores referentes à posição
espalhados pelo corpo (propriopercepção). A incongruência entre as
informações oriundas dos vários órgãos sensoriais proprioreceptores do
corpo, como o estímulo visual, os movimentos da cabeça e dos olhos, e o
sistema vestibular que está sendo estimulado é desencadeada tanto por uma
aceleração linear quanto angular. Isso pode ocorrer, navegando, andando de
automóvel, avião ou mesmo em brinquedos de parques de diversão ou
atividades de lazer. Um estudo do tema, comparando vários tipos de
embarcações, revelou que a ocorrência de enjôo está relacionada à
magnitude da aceleração vertical observada em relação ao movimento linear
anterior.
O vômito é uma consequência de todo o
processamento de informações conflitantes no cérebro. Existe uma região no
sistema nervoso central que é o centro do vômito. Durante o processo de
mareio o centro do vômito recebe impulsos nervosos oriundos do sistema
vestibular na orelha interna. O vômito resultará da estimulação direta do
centro de vômito, evidenciando, no processo, uma inter-relação entre o
sistema nervoso somático e autonômico.
O mareio no mergulho não é somente um
acidente de percurso. Ele poderá ocorrer também quando o mergulhador está
em baixo da água. O enjôo relacionado ao ato de mergulhar pode ser
desencadeado no momento inicial das manobras de entrada na água. Quando o
barco pára, cessa o movimento constante direcional que mantém um certo
equilíbrio da embarcação durante a navegação. Na caída na água
percebemos uma série de movimentos verticais e laterais mais intensos de
acomodação. Ao entrar na água, pode ocorrer uma potente aceleração
angular, que, dependendo do tipo de entrada e como posicionamos a cabeça,
poderá gerar estímulos conflitantes no cérebro do mergulhador. Um estímulo
inicial, que muitas vezes passa despercebido, já desencadeou todo o processo
de mareio. A seguir, esperando o companheiro de mergulho, podemos experimentar
o balanço do movimento das ondas, que muitas vezes é bem intenso e acaba
adicionando mais estímulos.
Submersos, ainda existe a mudança de posição
do corpo para uma inclinação mais aguda para a descida ao fundo. Segue-se a
natação no sentido do deslocamento horizontal. A ansiedade inerente à
atividade, visibilidade baixa e o medo decorrente dela aliado a restrições
do campo de visão embaixo da água, proporcionadas pela visão em túnel da
máscara, propiciam, ainda mais, a ocorrência do enjôo. A flutuabilidade
neutra e a falta de estímulos proprioceptivos decorrentes dela contribuem
para as dificuldades que já vêm ocorrendo no cérebro para processar um
conjunto de informações desencontradas. Se já não estiver mareado, o
mergulhador poderá ficar. Essa é uma situação particular e especial de
segurança no mergulho, pois é difícil vomitar embaixo d’água sem maiores
complicações. Uma das complicações, a mais grave, é o afogamento durante
o vômito. Outra é a subida até a superfície segurando o ar com risco de
barotrauma torácico e doença descompressiva.
Existe também o enjôo em terra ou o mal do
desembarque. Ele é observado após uma navegação ou mesmo após viagens
longas com qualquer veículo de transporte. O mal do desembarque ocorre quando
o movimento cessa após a adaptação aos movimentos de aceleração
constante. A mudança abrupta decorrente da cessação dos estímulos a que o
cérebro estava acostumado desencadeia o enjôo.
Felizmente o mareio acaba sendo tolerado.
Acredita-se que, após três dias de estímulo continuado, haja uma
adaptação no sistema nervoso central. Por outro lado, em torno de 5% das
pessoas não se adaptam.
PREVENÇÃO
Sabemos que o mareio tende a diminuir como
consequência de maior tranquilidade do mergulhador, experiência de
navegação e convívio com os elementos da natureza. Pessoas de vida muito
urbana e de pouca atividade física tendem a sofrer mais. À medida que o
mergulhador fica mais à vontade com os equipamentos, com o mergulho
propriamente dito, com as condições de transporte até os pontos de mergulho
e com a intimidade com o ambiente marinho tanto fora como dentro da água, o
mareio tende a desaparecer ou ser mais bem tolerado e menos frequente. São
fatores predisponentes: nadar nas ondas, iniciar a submersão na parte alta da
onda e subitamente ser acelerado quando desce no balanço da ondulação, o
frio, a fadiga e a menstruação.
As medidas para se evitar o enjôo devem ser
instituídas, mesmo com o uso das medicações, no sentido de bloquear
estímulos. Isso reforça a idéia de que o movimento é um fator importante
no desencadeamento do enjôo, mas não é tudo. Fatores como o cansaço, o jet
lag, o fumo, os excessos alimentares e o uso de bebidas alcoólicas, além
do medo, da ansiedade e de outros estados psicológicos, aumentam a
possibilidade de ocorrência do enjôo. Além disso, devem-se reduzir os
movimentos da cabeça e do olhos. A melhor maneira de se fazer isso é evitar
olhar objetos em movimento e olhar para o horizonte, preferencialmente focando
objetos estacionários.
O mareio em barco pequeno pode ser prevenido.
Deve-se, portanto, evitar ir muito abaixo ou muito acima do deck.
Deve-se ficar perto do centro de gravidade da embarcação procurando o local
de menos movimento, e fixar o olhar no horizonte. Se o contato visual não é
possível, então se deve fechar os olhos. Além disso, procurar um local
arejado, bem ventilado e livre dos gases da combustão do motor. quem tem
predisposição ao enjôo, deve solicitar que o barco seja adequadamente
manobrado e fundeado em local calmo. Se for uma temporada de mergulho em live
aboard, preferir dormir em rede. Deve-se equipar de preferência num local
fresco e abrigado do sol, evitando olhar para o fundo do barco.
Ao chegar ao ponto de mergulho, temos observado
que a maioria das pessoas que está mareada procura cair na água o mais
rapidamente possível para não ficar "assando" na roupa enquanto
aguarda os procedimentos de entrada na água. Cabe salientar que muitas vezes
essa conduta não é segura, pois, como vimos anteriormente, os sintomas podem
piorar. Os estímulos poderão continuar, passando a entrar em ação novos
estímulos associados ao enjoar embaixo d’água propriamente dito. Portanto,
a situação poderá se agravar. Somente se indica cair rapidamente na água
naquelas situações em que, cessando o movimento da embarcação da
navegação, encontrarmos, na água, uma situação de acalmia de movimentos
não encontrada a bordo. Se cair na água, além de significar cessação dos
movimentos, for um momento de relaxamento, em que o mergulhador se refresca e
vai iniciar uma atividade a que ele está habituado e em que está à vontade
com muito prazer na sua realização, então isso é indicado. Do contrário,
para mergulhadores inexperientes, que ainda não estão habituados com os
equipamentos e a prática do mergulho, poderá ser a perpetuação de um
tormento que poderá acabar em afogamento. Nessa situação é mais seguro
abortar o mergulho e esperar a recuperação, entrando na água após a
melhora.
A maneira de evitar o enjôo do mergulho
propriamente dito, ou seja, embaixo d’água, é o treinamento. Devem-se
treinar outras formas de perceber a posição do corpo em relação ao
ambiente. Percepções relacionadas a certas sensações, como a de busca da
posição vertical propiciada pelo efeito de bóia do tórax, a da força de
tração do cinto de lastro para o fundo, a observação da subida das bolhas,
a sensação de afundamento quando o colete está desinflado, auxiliam nosso
cérebro a ter referenciais e uma sensação correta de orientação em
relação ao espaço. Isso tudo deve ser utilizado principalmente em
condições limitadas de visibilidade. Enfim, o treinamento intensivo em
relação à atividade gera uma série de habilidades que fornecem elementos
ao cérebro para não ter informações conflitantes em relação à
orientação espacial. Dessa maneira, o treinamento e a consequente
familiaridade com a atividade são capazes de gerar os elementos necessários
para se evitar o desencadeamento do enjôo e suas formas mais graves.
TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO
Em relação aos tratamentos não
farmacológicos, existe uma quantidade considerável de medidas sugeridas para
o controle desta debilitante situação para uso no mergulho. Muitas são
completamente questionáveis quanto ao subsídio científico para o controle
do enjôo em relação aos mecanismos de intervenção na sua fisiopatologia.
Todavia, é oportuno ressalvar que existem pessoas que se sentem bem com uma
determinada medida. Não vem ao caso se interfere com algum mecanismo
psicossomático ou se tem efeito placebo. O que importa é que resolve e é
inócuo. Se a pessoa descobre algo que funcione, então tudo bem. Só se deve
certificar de que a medida é segura.
Por exemplo, há quem se sinta bem com óculos
que fazem visualizar um horizonte artificial. O mesmo se refere ao uso de
gengibre, que pode ser encontrado em várias formas de apresentação
comercial farmacêutica. Sua eficácia não foi comprovada em estudos
experimentais controlados.
Uma medida comumente sugerida é a aplicação
de pressão no ponto Neiguan. O chamado ponto Neiguan ou P6 na medicina
oriental relaciona-se à acuputura e está implicado no controle da náusea e
vômito. O resultado da acupuntura para o mareio, aplicando-se agulhas, nesse
ponto é contraditório. Existem comercialmente à disposição faixas
elásticas de pressão para uso a 3 cm do punho. Até o momento não se sabe
se foi publicado algum trabalho comprovando a eficácia do seu uso para o
tratamento do enjôo no mergulho.
Existe um equipamento
eletrônico semelhante às bandas elásticas cujo nome é ReliefBand®
NST. Esse equipamento teria utilidade para o tratamento das náuseas da
gravidez, quimioterapia e enjôo por discinesia no mar. A FDA liberou o
seu uso para tratamento da náusea observada no pós-operatório. O
mecanismo de ação é o mesmo das bandas elásticas com a diferença de
que utiliza impulsos elétricos em vez de pressão sobre as
terminações nervosas.
MEDIDAS PREVENTIVAS MEDICAMENTOSAS
Uma grande quantidade de medicações está
disponível para uso no sentido de prevenir o mal de mer. A maioria das
drogas contra enjôo, além de interferir no desempenho do mergulhador, tem
efeitos adversos que podem ser confundidos com a sintomatologia da doença
descompressiva ou embolia cerebral por gás. Inclusive para a maioria delas
pode haver potencialização à narcose por nitrogênio. Medicações
descritas como úteis na profilaxia são as do grupo dos chamados antagonistas
de receptores H1 (fenotiazinas, etolaminas e piperazinas) e a escopolamina
transdérmica ou a oral. A última pode ser associada à dextroanfetamina.
Outras medicações que também têm efeitos contra o enjôo, porém são
menos potentes, são a cinarizina e a fenitoína.
Em relação aos antagonistas de receptores H1,
o modelo é a prometazina (Fenergan®), que é uma fenotiazida. Ela é a droga
antienjôo mais potente dos antagonistas de receptores H1. É uma droga
relacionada aos tranquilizantes e tem efeitos anti-histamínicos. A
sonolência que desencadeia é um efeito adverso que a torna útil como
tranquilizante e hipnótico. Os efeitos adversos indesejáveis no mergulho
são, além da sedação, a descoordenação motora, o tinido, a lassitude, a
fadiga, a visão borrada, a visão dupla, a euforia, o nervosismo, a insônia,
o tremor e a falta de concentração. Provavelmente o efeito anti enjôo
decorra da sua atividade anticolinérgica. Durante o uso de anti-histamínicos
pode ocorrer um maior ou menor grau de perda da capacidade de julgamento e
reflexos. A falta de capacidade de julgamento pode desencadear uma série de
dificuldades de definição de processos decisórios importantes no mergulho,
como os cuidados de orientação subaquática, controle de velocidade de
subida e realização das paradas descompressivas. Os efeitos
anticolinérgicos destas medicações são: boca e vias aéreas secas, que
podem induzir a tosse, retenção ou frequência urinária e dor para urinar
e prisão de ventre. Anti-histamínicos têm efeitos aditivos ao nitrogênio.
Durante o seu uso a narcose pode ser mais severa e de resolução mais lenta.
Uso de álcool ou outro depressor do sistema nervoso central potencializam
esses efeitos adversos.
Do grupo dos antagonistas de receptores H1
relativos às etolaminas, temos o dimenidrato (Dramamine®), o dimenidrinato
(Dramin® no Brasil e Triptone ® nos Estados Unidos) e a difenidramina
(Difenidrin® e Difedril®). Os efeitos adversos mais proeminentes e com
relação negativa com o mergulho são a sonolência, tempo de reação
diminuído e dificuldade de manter a atenção. Os demais efeitos
anticolinérgicos são semelhantes aos da prometazina. Em relação às
piperazinas temos a ciclizina (Marezine® nos Estados Unidos) e a meclizina
(Antivert® nos Estados Unidos) com as mesmas ressalvas relativas aos efeitos
adversos do grupo de antagonistas de receptores H1.
Em relação à escopolamina, podemos dizer que
ela é a droga mais potente para a prevenção do enjôo. Há trabalhos
relatando não haver alterações no desempenho psicomotor no mergulho em
câmara hiperbárica. No entanto os efeitos adversos observados foram: fadiga,
sonolência, dificuldade de concentração, vertigem e visão borrada. Esses
efeitos são importantes e até limitantes para a prática do mergulho
autônomo. Não há avaliação em termos de medicina baseada em evidência
sobre o efeito anti enjôo no mergulho em águas abertas. No Brasil temos
Buscopan®, Hioscina Vital Brasil®, Hioscina Green Pharmar® Brometo de
Escopolamina Teuto®).
No caso dos patchs transdérmicos de
escopolamina, sempre se deve ter cuidados no manuseio. Como a escopolamina
causa dilatação da pupila e consequente borramento da visão, deve-se ter
maior cuidado durante o manuseio com as mãos molhadas. Em doses altas pode
produzir desorientação e alterações do comportamento. Esses adesivos têm
dose adequada para pessoas de tamanho normal. Intoxicação é comum em
crianças e idosos, os quais acabam apresentando uma pletora de sinais e
sintomas. Deve-se ter cuidado com o uso de patchs em pessoas pequenas,
pois elas poderão acabar recebendo dose maior e se intoxicar. A dose é fixa
em cada patch e não pode ser diminuída, cortando-se o dispositivo. Se
cortar o dispositivo, extravasará medicação e perderá a capacidade de
liberação lenta promovida pela membrana semipermeável do patch. A
escopolamina está contra-indicada para quem tem glaucoma e problemas
prostáticos ou de esvaziamento vesical pelos efeitos adversos farmacológicos
inerentes à droga.
O nome comercial no mercado norte-americano da
escopolamina transdérmica é Transderm Scop®. Muitos autores sugerem que, em
caso de se optar pelo uso dessa medicação, seja experimentada num momento de
folga das atividades habituais, por exemplo, em casa, num fim de semana, para
que se possa determinar a resposta individual ou reações à droga. O efeito
adverso mais comum experimentado é boca seca. Ele é mais intenso do que
durante o uso da prometazina e ocorre em aproximadamente metade dos usuários.
Isso pode ser um problema importante, considerando que o ar oferecido no
mergulho autônomo é seco. Na literatura norte-americana, o produto é
considerado mais eficiente que os antihistamínicos e a maioria dos usuários
não sente nada. Autores australianos consideram que os efeitos adversos do
tipo boca seca, visão borrada e sonolência tornam a medicação inaceitável
para o uso no mergulho autônomo amador. Na Austrália, a forma de
apresentação transdérmica foi retirada do mercado.
A indústria farmacêutica norte-americana
coloca para uso na população em geral (grupo de não-mergulhadores) que os
comprimidos de hidrobromido de escopolamina são mais eficientes que
escopolamina transdérmica. Não temos relatos de estudos comparativos em
mergulho dessas duas formas de apresentação. O comprimido teria mais
flexibilidade de dose, menor incidência de efeitos adversos, menor pico de
início de ação, menor tempo de duração e seria mais barato. Nos Estados
Unidos é comercializado com o nome de Escopace ®. Em relação às
apresentações farmacêuticas, não está disponível no Brasil o
hidrobromido de escopolamina que é muito mencionado na literatura
norte-americana, mas sim o butilbrometo de escopolamina ou hioscina,
considerados similares. Escopolamina em doses terapêuticas produz
sonolência, fadiga, alterações do ritmo cardíaco, inibição da secreção
mucosa das vias aéreas, pele e mucosas secas, constipação e retenção
urinária. Devido à frequência e intensidade dos efeitos adversos, ela não
deve ser usada no mergulho sem antes ser experimentada em condições
controladas. Cabe salientar que a dose da apresentação farmacêutica
disponível é de 10 mg por comprimido e a dose preconizada para o uso no
enjôo é de 0,3 a 0,6 mg. Essa ressalva é importante, pois, usando uma dose
maior, há maior exposição aos efeitos adversos e tóxicos da droga.
A associação de escopolamina com
dextroanfetamina foi experimentada no tratamento do enjôo no programa de
medicina aeroespacial. Essa associação não foi liberada pela Food and
Drug Administration (FDA). Alguns países têm disponível para uso nestas
situações associações de dextroanfetamina em combinação com escopolamina
ou prometazina. No Brasil há como substituto a efedrina ou pseudoefedrina.
A título de documentação, parece que a
cinarizina (Antigeron®, Cinageron®, Cinaran®, Cinarix®, Stugeron®) tem
efeito na prevenção do enjôo no mar. Apesar de menos eficiente teria menos
efeitos adversos. Na Bélgica é tida como a mais eficiente e está
disponível em associação com domperidona (Motilium®). Deve ser iniciado o
uso, pelo menos 24 horas antes da atividade. Outros congêneres são a
meclizina e a ciclizina, sendo que estas não têm apresentações
farmacêuticas no Brasil. Na literatura australiana, é citado o uso seguro de
meclizina 8 horas antes do mergulho ou ciclizina 1 hora antes.
A Fenitoína (Hidantal®, Epelin®), droga
anticonvulsivante, também é citada como tendo efeito anti-enjôo. No
entanto, não foi aprovada para esse uso pela FDA. Apesar de ser segura, não
é livre de efeitos adversos. Existe um estudo do seu uso em câmara
hiperbárica em mergulho a 46 metros ("mergulho no seco") sem se
observar potencialização da narcose pelo nitrogênio, comparando com grupo
controle.
Como podemos ver, atualmente existe uma grande
quantidade de medicações disponíveis que apresentam diferenças em termos
de eficiência para prevenir o mareio em relação ao uso individual ou
combinado de cada uma delas. Em termos de uso geral, não relacionado ao
mergulho, as drogas indicadas para a prevenção da condição de mareio
intenso são a hioscina, a prometazina, as associações de hioscina com
dexanfetamina e prometazina com efedrina. A duração aproximada do efeito
antienjôo é variável e é de 4 horas para a hioscina, 12 horas para a
prometazina, 6 horas para a associação de hioscina com dexanfetamina e de 12
horas para prometazina com efedrina. Hioscina ou escopolamina é a droga
individual mais potente. A combinação de prometazina com efedrina é a
associação mais eficiente. A hioscina ou escopolamina combinada com efedrina
ou anfetamina é mais eficiente que o uso individual. Para casos moderados de
enjôo estaria indicada a prometazina, que tem duração de efeito de
aproximadamente 6 horas. O dimenidrinato é considerado mais eficiente que a
escopolamina transdérmica. Dimenidrinato associado com efedrina é mais
eficiente que usado sozinho. A escopolamina é preferível para exposições
curtas e os anti-histamínicos para exposições mais demoradas. Para casos
leves estaria indicado a ciclizina ou
meclizina. Alguns estudos não evidenciam diferenças em termos de eficácia
em relação à ciclizina, quando comparada com o dimenidrinato. No entanto, a
ciclizina teria menos sintomas gástricos e sonolência.
Devemos ter em mente o uso de drogas para a
condição de prevenção do enjôo em geral e o uso específico dessas drogas
por mergulhadores. No caso do mergulho, a escolha deve ser individualizada e
os efeitos adversos devidamente avaliados em relação específica com o
mergulho. No caso do mergulho, independentemente da droga escolhida, ela deve
ser experimentada previamente em condições controladas para se certificar em
relação a efeitos adversos relacionados à resposta individual ao uso. Além
disso, o mergulho deve ser limitado até os 18 metros para se evitarem os
efeitos adicionais e potencializadores provocados pela narcose do nitrogênio.
Idealmente não deve haver sedação antes do mergulho. Um esquema
relativamente seguro sugerido é, para mergulhos no início da manhã, usar a
prometazina ou similar do mesmo grupo farmacológico na noite anterior. Nesse
modo de uso, ainda haveria efeito antienjôo no início da manhã, sendo que o
efeito sedativo já teria passado. A literatura australiana considera a
prometazina, o dimenidrinato, a mezoclizina e a ciclizina drogas relativamente
seguras para o uso nas condições de mergulho sugeridas acima. Já a
literatura norte-americana refere-se ao uso da escopolamina nas suas várias
apresentações também como seguro.
A indicação do uso de drogas contra o mareio
em atividade de mergulho deve ser condicionada, considerando-se os efeitos
adversos individuais experimentados em condições controladas de uso. O
mergulho deve ser limitado em termos de profundidade e monitorizado com um
dupla capacitado para atender a situações risco. Todo o usuário dessas
medicações deve comunicar o seu uso para o responsável pela operação de
mergulho quando embarcado. Preconiza-se que, em operações em que se permita
o uso dessas medicações, deva obrigatoriamente haver profissional capacitado
para tratar prontamente as complicações advindas do seu uso. Isso inclui a
capacidade de tratamento farmacológico específico em caso de intoxicação
por qualquer uma das drogas na situação de haver complicações
cardiovasculares ou do sistema nervoso central decorrentes dos efeitos
atropínicos de muitas dessas drogas.
TRATAMENTO MEDICAMENTOSO
Alguns neurolépticos do grupo das fenotiazidas
foram usados para tratamento de náusea e enjôo no mar. A prometazina já foi
mencionada na profilaxia do enjôo. Seu uso intramuscular tem efeito imediato
sobre o enjôo. O uso intramuscular não está indicado para a prevenção de
ataques de enjôo no mergulho, no entanto pode ser uma forma de tratamento de
situações agudas já estabelecida. A hipotensão é um efeito adverso grave
e num mergulhador depletado por náuseas e vômitos adquire importantes
proporções. São drogas que, durante o uso parenteral, também produzem
crises extrapiramidais que podem ser perigosas embaixo d’água. Entre elas
temos as chamadas crises óculo-gíricas. Por essa razão são drogas que não
devem ser usadas para combater o enjôo em mergulhadores antes do mergulho.
Outras drogas deste grupo farmacológico como a
perfenazina (Trilafon®) e a clorpromazina (Clorpromazina Vital Brasil®,
Clorpromazina NeoVita®, Amplictil®), apresentam ação no sistema nervosos
central e são antieméticos potentes. Foram observadas crises óculo-gíricas
em alguns indivíduos mesmo em doses tão baixas como 5 mg de clorpromazina. O
haloperidol (Haldol®), um outro composto heterocíclico do grupo dos
antipsicóticos, também tem o mesmo efeito. Como apresenta efeitos adversos
muito semelhantes a este grupo de medicamentos, não deve ser usado no
mergulho.
Metoclopramida (Plasil®) tem ação
antiemética no sistema nervoso central, efeitos de contração sobre o
esfíncter do esôfago e de promoção do esvaziamento estomacal. Ela alivia o
desconforto do vômito e da náusea, mas também produz sedação e tem
efeitos extrapiramidais, sendo de uso restrito.
Essas medicações são úteis em live aboards
no sentido de controlar o enjôo até que a adaptação ao movimento ocorra.
Assim que os sintomas passarem, se interromperá o uso e se aguardará,
dependendo da medicação usada, entre 12 e 24 horas, para que se inicie o
mergulho.
CONCLUSÃO
Não se esqueça de que quem já enjoou, está
sugestionado a enjoar de novo. A sugestão tem um efeito desencadeante
importante e já foi comprovada como tal. Mantenha-se descansado, tendo
repousado bem na véspera do mergulho. Evite o álcool, mantenha-se hidratado
e bem nutrido. São atitudes que poderão evitar o desencadeamento do enjôo.
Mergulhe com pouca comida no estômago, evitando refeições abundantes.
Embarcando, procure montar seu equipamento, num local arejado, logo que puder.
Evite trabalhar olhando para o chão e qualquer desconforto, enquanto a
embarcação está balançando. Evite montar o equipamento durante o trajeto
até o ponto de mergulho. Procure ficar num local que tenha menos movimento,
que tenha visibilidade para a linha do horizonte, que seja bem ventilado e que
esteja longe da fumaça do motor. Identifique os desencadeantes pessoais. Eles
podem ser o movimento, sons, cheiros e preocupações.
Em caso de optar pelo uso de uma medicação,
tenha consciência de que as mais eficientes têm sérios efeitos adversos que
não são compatíveis com o mergulho. Como os efeitos adversos têm uma
variabilidade individual, experimente antes de estar na operação de
mergulho. Prefere-se utilizá-los muitos dias antes e em casa ou, idealmente,
em condições de treino na escola de mergulho. Sempre se deve avaliar se os
efeitos adversos são piores que o próprio enjôo no mar para decidir sobre o
uso de medicações. Dependendo do mergulhador e, neste momento é valorizada
a sua experiência, o enjôo é fugaz e transitório. Aguardar o tratamento
conservador terá o melhor efeito. Por outro lado, se o mergulho não pode ser
adiado, então o uso da medicação pode ser preferido.
Optando por tratamentos farmacológicos ou
outras medidas não farmacológicas, deve-se ter fé na eficácia destas.
Deve-se ter consciência de que o enjôo tem um momento em que pára. O enjôo
em atividades de grupo muitas vezes gera um sentimento humilhante, devendo, no
sentido psicológico, ser tratado antes. Essa conduta tem também o caráter
de prevenir a auto-sugestão. Os sentimentos negativos em relação ao enjôo
são maiores em mergulhadores iniciantes. Na cultura do mergulho, onde as
chamadas provas de mar são encaradas como ritos de passagem, eles tendem a
ser mais observados (observação pessoal).
Enfim, para evitar o enjôo no mergulho,
deve-se treinar bastante e ficar familiarizado com essa atividade de lazer.
Deve-se evitar mergulhar em condições de mar impróprias. O mergulho é só
uma diversão e como tal deve dar prazer aos praticantes. A confiança vai
gerar segurança e afastar a apreensão inerente à atividade, que é capaz,
por si só, de induzir o mergulhador ao enjôo no mar.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de
oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou
doença relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado
em conjunto com o aconselhamento específico do médico de medicina do
mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência concebível
relacionada à leitura deste texto.
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