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Mergulho em Apnéia: da Resposta Fisiológica
às Complicações
O mergulho é uma
atividade com uma grande variedade de modalidades, desde o livre em
apnéia até os sofisticados mergulhos comerciais. Possivelmente a
atividade de mergulho mais praticada no mundo todo seja o mergulho
livre.
Em relação ao mergulho
livre, o que mais tem surpreendido a todos e particularmente a
comunidade de mergulhadores, é a contínua quebra de recordes nas suas
várias categorias e em especial na No Limits. Essas quebras de
recordes têm impressionado todos nós em relação aos limites da
capacidade humana. Eles impressionam, pois extrapolam em muito o
desempenho do homem normal e, por isso, são objeto de inúmeros
estudos. O mergulho em apnéia tem atraído o interesse de muitos
pesquisadores da área da fisiologia humana nos últimos 50 anos. Com o
seu estudo, podemos entender melhor a sua fisiopatologia. Infelizmente o
mergulho livre recreativo e mesmo o profissional têm apresentado um
número considerável de acidentes.
Recentemente o mergulhador
cubano Francisco Pipin Ferreras, um ano após o acidente que vitimou sua
esposa, a mergulhadora Audrey Mestre, na tentativa de quebra do recorde mundial
na categoria No Limits, ultrapassou os 160 metros, colocando a atual
marca nos 170 metros de profundidade. Meses antes, tivemos o prazer de ler o
incrível relato da atleta Tanya Streeter, numa revista especializada, sobre a
quebra do recorde mundial feminino de mergulho livre na categoria No Limits. A descrição do seu feito é uma aula de fisiologia do mergulho e um
exemplo de dedicação, treino e tudo mais que eles representam para o sucesso
de uma empreitada dessa envergadura. Usaremos o seu relato para exemplificar as
alterações fisiológicas que ocorrem no mergulho livre ou em apnéia.
Durante o mergulho livre ou em
apnéia, ocorre uma série de respostas adaptativas fisiológicas para a
sobrevivência nessa condição. Nosso corpo tem condições de funcionamento
durante algum período de tempo às mais variadas condições ambientais. No
caso do mergulho, as adaptações que se apresentam, iniciam com a parada
voluntária da ventilação a uma pressão ambiente seguida do aumento
progressivo da pressão externa à medida que se mergulha e que dependerá da
profundidade que se pretende alcançar. Essa temporária e voluntária
condição adversa de vida termina com o retorno do mergulhador à superfície
e o restabelecimento da ventilação. Portanto, as respostas fisiológicas do
organismo humano que descreveremos, serão aquelas que se fazem necessárias
para manter a vida numa condição de diminuição crescente dos níveis de
oxigênio (hipóxia) e de acúmulo de gás carbônico no organismo
(hipercapnia), desencadeado pela parada voluntária da ventilação enquanto se
mantém a respiração celular. Além disso, acrescenta-se a necessidade de
outro conjunto de respostas fisiológicas para a manutenção da vida numa
pressão ambiental maior que uma atmosfera. As alterações fisiológicas
adaptativas apresentam limites de profundidade e de tempo a partir dos quais se
podem instalar lesões graves e até mesmo a morte. São os limites da
capacidade humana.
A existência dessa resposta
adaptativa demonstra a manutenção na nossa espécie de respostas
fisiológicas adaptativas e evolutivas comuns a outros mamíferos. Num
determinado momento da evolução dos mamíferos, anterior ao surgimento do
homem, essas adaptações ocorreram e permaneceram conosco, apesar da nossa
vida terrestre. O gosto e a capacidade de nadar e de mergulhar tornam evidente
uma relação ancestral com a água. Os resultados do treinamento demonstram
que a resposta adaptativa pode ser ampliada, reforçando ainda mais a resposta
fisiológica. Infelizmente existem limites que nos fazem retornar à vida
terrestre. Ultrapassar os limites do nosso corpo nessas condições significa
doença ou trauma. O estudo da biologia comparativa no que se refere aos
mamíferos aquáticos que evoluíram nesse meio, torna evidente que
apresentamos somente resquícios evolutivos e que nossa espécie se distanciou
muito da água.
Tanto quanto no mergulho
autônomo, observações relacionadas à saúde do mergulhadores livres e
medidas de segurança devem ser consideradas e adotadas no sentido de se
evitarem acidentes.
Seque o relato da odisséia
pessoal da atleta Tanya Streeter e as observações pertinentes à resposta
fisiológica no mergulho em apnéia a grandes profundidades.
A RESPOSTA ADAPTATIVA INICIAL
AO MERGULHO EM APNÉIA
"Uma hora antes do mergulho, eu me alongo e relaxo,
desligando-me das coisas à minha volta e visualizando o mergulho que estou
prestes a fazer.
40 minutos ... Entro na água. Usando apenas um snorkel,
mergulho meu rosto e respiro profundamente, fitando as profundezas. O ato
expõe os receptores sensitivos do meu rosto ao estímulo da água fria, que
desperta o instinto do mergulho cravado em minha fisiologia. Fico boiando
assim por cinco minutos. No decorrer dos próximos 25 minutos, vestindo minha
máscara, dou alguns mergulhos rasos a 15 metros, daí a 20 metros e, imóvel
na superfície, prendo a respiração algumas vezes por aproximadamente 2,5
minutos e depois por 3,5 minutos. Esta rotina de aquecimento prepara meu corpo
para o que está por vir.
10 minutos ... Os mergulhadores de apoio entram na
água. O par que irá mais fundo iniciará sua descida de 135 metros daqui a
sete minutos, então eu roubo um momento a sós com cada mergulhador."
A resposta fisiológica ao
mergulho pode ser desencadeada antes mesmo de o mergulho iniciar. Ela é
desencadeada pelo simples ato de cessar voluntariamente a ventilação ou
apnéia propriamente dita. Além disso, ela também é desencadeada pela
imersão da face na água ou o seu esfriamento. O efeito desencadeante mais
significativo do reflexo ancestral do mergulho é provocado pela combinação
de apnéia e esfriamento de regiões da face inervadas pelos ramos oftálmicos
do nervo trigêmio, ou seja, a região da testa e a região peri-ocular. A
flutuação com a face em contato com a água que sucede a entrada na água
pelo mergulhador, serve para prepará-lo para a arriscada tarefa que tem pela
frente.
Outras respostas são
adicionadas à medida que o mergulhador submerge. No entanto, há diferenças
importantes entre a resposta fisiológica da apnéia realizada na superfície e
a do mergulho em apnéia. Ao segundo acrescentam-se a alterações
hemodinâmicas e nas pressões parciais dos gases no alvéolo e na circulação
do mergulhador, à medida que submerge, a pressão externa aumenta. Logo, a
apnéia estática na superfície e o mergulho livre profundo requerem
pré-requisitos distintos quanto as características físicas do mergulhador e
ao esforço que se faz necessário para ultrapassar os limites impostos aos
atletas.
Atletas experientes realizam
alguns mergulhos, a pequenas profundidades, de 2 a 3,5 minutos, durante o
período adaptativo inicial antes de um mergulho profundo como forma de
aquecimento. Hoje sabemos que apnéias repetidas podem fortalecer a resposta ao
mergulho, bem como a própria capacidade de mergulhar. Além disso, elas
também aumentam a tolerância psicológica ao mergulho.
O aquecimento inicial pode ser
prolongado com uma pequena série de mergulhos com intervalos de superfície
maiores que 3 minutos. Sabemos que mergulhos em apnéia com intervalos de
superfície menores que isso podem causar retenção de gás carbônico. Uma
maior retenção de gás carbônico apresenta o potencial de causar uma
diminuição do tempo de mergulho, pois o mergulhador chegará a um nível de
gás carbônico no sangue capaz de desencadear o reflexo ventilatório para
reestabelecer a ventilação de forma mais precoce. Os estudos fisiológicos
demonstraram que o reflexo ventilatório no núcleo respiratório do nosso
cérebro é desencadeado por níveis críticos de gás carbônico produzido
pela respiração celular e não pela diminuição de oxigênio no sangue.
Além disso, cabe salientar que o aumento de concentração do gás carbônico
acima de certos valores pode potencializar narcose por nitrogênio quando
consideramos as grandes profundidades a que o mergulhador irá se expor.
"5 minutos ... Retiro minha máscara e o snorkel
e subo no sled. Sento relaxada e continuo a respirar com meus braços
entrelaçados ao redor do T do sled. Movo-me com as ondas, fecho meus
olhos e visualizo minha respiração à medida que ela entra e sai de meu
corpo."
A retirada da máscara, expondo
as regiões peri-oculares e da testa, acentua a bradicardia provocada pelo
mergulho livre. É um fenômeno neurológico e um reflexo natural. O estímulo
desses receptores cutâneos da face é dependente da temperatura da água. O
reflexo de imersão da face em água fria parece proteger do afogamento. Isso
é observado e é particularmente relevante na imersão acidental de crianças.
A resposta fisiológica
envolvendo sensibilidade de termo-receptores cutâneos ativados por variações
na temperatura e pelo contato com a água sugere uma resposta adaptativa dos
mamíferos ao mergulho. Como o homem é um animal completamente adaptado à
vida no ecossistema terrestre, o questionamento do porquê da existência dessa
resposta remete à reflexão sobre a possibilidade de uma resposta adaptativa
evolutiva comum aos mamíferos anterior ao surgimento da nossa espécie.
O relaxamento visualizando a
ventilação antes do mergulho, percebendo o ar entrar e sair do corpo é uma
técnica de concentração. Essa forma de concentração lembra uma manobra
meditativa. A meditação é utilizada no preparo de muitos atletas.
Relaxamento, atenção, concentração, compreensão e pensamento plenos e
corretos naquilo que se está por realizar são os caminhos escolhidos durante
a preparação física e psicológica para vencer a tarefa. A resposta
fisiológica do mergulho é maior em mergulhadores experientes e tranquilos.
A melhor e mais segura maneira
de aumentar a duração da apnéia é o relaxamento e a realização do menor
esforço antes e durante o mergulho. Dessa maneira, o oxigênio disponível
dura mais e o gás carbônico aumenta lentamente a sua concentração no
sangue.
HIPERVENTILAÇÃO E O MERGULHO
LIVRE
"2 minutos ... Coloco o prendedor de nariz para
fechar completamente minhas narinas e impedir a entrada de água. Isto permite
que eu faça a compensação sem usar minha mão.
1 minuto ... Eu respiro com inspirações rápidas e
expirações profundas e vigorosas. Esta "descarga" reduz o
depósito de dióxido de carbono no corpo, aliviando meu desejo de respirar
muito cedo."
Na respiração celular, para a
produção de energia necessária para a vida, utiliza-se o oxigênio e
libera-se o gás carbônico. O gás carbônico é eliminado pelos pulmões
durante a ventilação. A eliminação do gás carbônico do corpo produzido
pode ser acelerada pela hiperventilação, que serve para diminuir a sua
concentração no sangue. Com a hiperventilação, decorrerá mais tempo até
que a concentração do gás carbônico produzido durante o mergulho chegue aos
níveis de disparo do reflexo da ventilação. Quando a pressão parcial do
gás carbônico alcança valores entre 43,3 e 53,5 mm de Hg no sangue arterial,
começa haver estímulo para ventilar. Esse é o chamado ponto de corte
fisiológico para o reinício da ventilação. A tolerância a esse estímulo
pode ser postergada através de atos intencionais como a deglutição, a
realização da manobra de Valsava, o apertar de um objeto ou mesmo a
realização de cálculos matemáticos.
Algumas colocações parecem
importantes para o entendimento da tolerância à apnéia. Sabemos que o que
põe fim a uma apnéia voluntária é a sensação de asfixia. A sensação de
asfixia é provocada pelo alto nível de gás carbônico e pelo baixo nível de
oxigênio no sangue arterial, o que ocorre à medida que a apnéia se estende
por um período de tempo maior. O fim do mergulho é sinalizado pela
contração involuntária do diafragma e é o ponto de corte fisiológico
mencionado anteriormente. Muitos mergulhadores profissionais conseguem
controlá-lo conscientemente como é o caso das Ama japonesas e as Haenyo
coreanas. No entanto, o ponto de corte chamado convencional, aquele que acaba
terminando a apnéia e é incontrolável, que também é o mais conhecido, é a
sensação aflitiva da asfixia. Essa não dá para controlar e chega num
momento em que o reinício da ventilação é inevitável. Se ocorrer em baixo
da água, poderá significar afogamento.
A hiperventilação realizada
antes do mergulho em apnéia e que pode prolongar o tempo de mergulho é
perigosa. Uma hiperventilação pré-mergulho forçada pode retardar o acúmulo
de gás carbônico necessário para desencadear o reflexo da ventilação.
Dessa maneira, antes de haver um reflexo ventilatório para que a ventilação
seja reassumida, poderá haver uma hipóxia grave. A hiperventilação aumenta
o tempo de apnéia somente por diminuir a concentração de gás carbônico.
Ela não aumenta a pressão parcial de oxigênio no sangue arterial de maneira
significativa. A hiperventilação aumenta levemente a pressão parcial do
oxigênio intra-alveolar mas não a concentração da oxi-hemoglobina, que já
é de 100% no momento do início da hiperventilação. Como a taxa de queda da
concentração do oxigênio no sangue arterial é a mesma com ou sem
hiperventilação, a extensão do tempo de apnéia diminui a pressão parcial
do oxigênio no sangue arterial, levando-a a níveis perigosos capazes de
provocar hipoxemia, causando a perda da consciência pelo mergulhador. O
exercício durante o mergulho em apnéia potencializa a perda de consciência
por diminuir mais rapidamente a pressão parcial do oxigênio no sangue
arterial.
Concluindo, o maior perigo da
hiperventilação está associado à hipóxia com consequente perda da
consciência e afogamento antes que se tenha um estímulo para se reiniciar a
ventilação.
A HIPERINSUFLAÇÃO PULMONAR
"30 segundos ... Começo minha respiração
final. Esta última respiração é toda direcionada ao volume. Devo recolher
o maior volume de ar possível para assegurar que eu possa fazer a
compensação a uma grande profundidade. Começo a armazenar, utilizando minha
cavidade oral para sugar porções de ar. Após cada sucção, impulsiono o ar
para dentro dos meus pulmões, deixando-os literalmente cheios. Minha
frequência cardíaca aumenta.
Zero ... Meus pulmões repletos, com 6 litros de ar, eu
aviso que estou pronta, e meu marido libera o sled."
Durante o mergulho, ocorrem
modificações na distribuição do volume de sangue nas várias regiões do
corpo. Essas mudanças visam a priorizar o fluxo de sangue para estruturas
vitais para a manutenção da vida. Além disso, elas facilitam a adaptação
para a sobrevivência num ambiente com aumento da pressão externa. O sangue
acaba sendo redistribuído da periferia do corpo para dentro do tórax. Isso
será importante para a adaptação às grandes profundidades que se fará
necessária.
A hiperinsuflação pulmonar
aumenta o volume de ar dentro dos pulmões aumentando o estoque de ar
disponível para o período em apnéia, e também serve para diminuir o volume
de sangue intratorácico no início do mergulho. A inspiração profunda com
acréscimos posteriores com a glote fechada obstruindo a saída de ar serve
para aumentar a capacidade pulmonar total e o volume de ar residual nos
pulmões. A duração do mergulho livre depende da capacidade do mergulhador de
guardar oxigênio e de liberar de gás carbônico dos pulmões no início do
mergulho. A resistência à apnéia depende da quantidade desses gases
estocados no início do mergulho ou seja, muito para o oxigênio e pouco para o
gás carbônico. O treinamento leva a uma condição de melhor percepção do
quanto podem ser hiperinsuflados e hiperventilados os pulmões sem risco de
apagamento.
Quando o mergulhador enche os
pulmões de ar na superfície, há um aumento da pressão intratorácica com
diminuição do retorno venoso e diminuição do débito cardíaco. Nessas
condições iniciais, a diminuição do débito cardíaco induz a uma
taquicardia reflexa compensatória para retornar ao débito normal. O
mergulhador é capaz de perceber o aumento dos batimentos cardíacos.
A hiperinsuflação também
aumenta o volume de ar disponível para a realização das manobras de
compensação de pressão nas estruturas do nosso corpo que contém ar. Essas
manobras são necessárias pela variação de volume de ar que ocorre nessas
estruturas principalmente nas fases iniciais do mergulho e para que não ocorra
barotrauma da descida em seios da face e orelha média.
A RESPOSTA FISIOLÓGICA AO
AUMENTO DA PRESSÃO EXTERNA
"Superfície em direção a 60 metros ... Á
medida que desço, eu compenso a pressão nos meus ouvidos. Nesta profundidade
é fácil porque os meus pulmões ainda têm um grande volume. Minha
frequência cardíaca diminui para aproximadamente 60 batimentos por
minuto."
Quando o mergulhador submerge se
acrescem às alterações fisiológicas desencadeadas com a apnéia e o
estímulo da face pela água as decorrentes do mergulho propriamente e o
consequente aumento da pressão do meio externo. Em relação às manobras de
compensação, podemos dizer que nos metros iniciais ele ainda não apresenta
dificuldades em compensar a orelha média. Ainda há um grande volume de ar
disponível.
Antes mesmo de chegar aos 60
metros, o mergulhador já percebe a diminuição dos batimentos cardíacos
(bradicardia). À medida que submerge, a sobre-pressão voluntariamente
provocada com a hiperinsuflação pulmonar realizada para estocar uma maior
quantidade de ar possível cede. A pressão do interior do tórax passa a se
igualar à pressão externa. À medida que a pressão externa aumenta, há uma
intensificação da diminuição dos batimentos cardíacos. A resposta
fisiológica ao mergulho continua.
Cabe registrar que toda a
resposta fisiológica do mergulho livre está direcionada ao menor consumo de
oxigênio e a um redirecionamento do fluxo sanguíneo, priorizando áreas a
serem perfundidas. Elas são o sistema nervoso central, o coração e os
pulmões.
Duas são as alterações
básicas de que nossa fisiologia lança mão para alcançar esse objetivo. A
primeira é a mencionada diminuição do débito cardíaco, a segunda é a
vasoconstrição periférica. A vasoconstricção periférica é desencadeada
via reflexo neurológico no início do mergulho e pela diminuição da
temperatura externa. A diminuição da perfusão das extremidades decorre do
aumento da atividade simpática adrenérgica do sistema nervoso autônomo sobre
o leito da vasculatura arterial dessas regiões do corpo.
Seguem à bradicardia reflexa
desencadeada pela estimulação dos neuro-receptores cutâneos da face uma
vasoconstrição periférica e um aumento inicial da pressão arterial
sistêmica. O débito cardíaco é o produto da frequência cardíaca pelo
volume sistólico de cada contração do ventrículo esquerdo do coração. No
mergulho, o sangue é redistribuído da periferia do corpo para o coração e o
leito vascular intratorácico, passando-se observar um aumento do volume
sanguíneo intratorácico. O aumento do retorno venoso para o coração produz
aumento da pressão do átrio direito (a primeira câmara cardíaca a receber
sangue), do volume sistólico ventricular (volume de sangue disponível para a
contração do coração) e consequentemente do débito cardíaco.
Na continuação do mergulho,
há uma diminuição do débito cardíaco. A pressão arterial sistêmica, que
no início do mergulho aumenta, à medida que ele continua, tende a diminuir
devido à diminuição do débito cardíaco. Numa análise de biologia
comparativa, podemos observar que os outros animais habitualmente mergulhadores
têm um balanceamento entre o débito cardíaco e a vasoconstrição
periférica de modo que a pressão se mantém constante.
A bradicardia é mantida não
somente pelo reflexo do estímulo cutâneo da água em regiões da face.
Também mantêm a resposta bradicárdica a própria apnéia, o estímulo
mecânico decorrente do aumento do retorno venoso e a hipóxia. O débito
cardíaco tende a diminuir no sentido da economia de consumo de oxigênio para
privilegiar a perfusão de áreas nobres.
Com o aumento do tempo de
mergulho, a diminuição da concentração do oxigênio no sangue arterial
começa a aumentar ainda mais, provocando diminuição dos batimentos
cardíacos. Por outro lado, o acúmulo de gás carbônico é um estímulo capaz
de provocar uma aceleração dos batimentos cardíacos. O resultado final da
soma dos estímulos no sentido de diminuição dos batimentos, que são a
apnéia e a hipóxia, menos o estímulo no sentido de aceleração cardíaca,
que é a hipercapnia, é a redução da frequência cardíaca. Alguns autores
ressalvam que a bradicardia e a redução do fluxo sanguíneo periférico são
independentes do nível de asfixia.
Em relação à vasoconstrição
periférica, além do reflexo neurológico, devemos considerar o efeito da
temperatura externa. A temperatura da água no mergulho é menor que a
temperatura considerada termoneutra de 35° C. Essa temperatura mais baixa por
si só leva à vasoconstrição periférica. Devido à vasoconstrição
periférica, os músculos são privados da maior parte do fluxo sanguíneo. A
duração da apnéia será inversamente proporcional à taxa metabólica do
indivíduo. A vasoconstrição periférica leva ao acúmulo de lactato em
tecidos periféricos como a musculatura das extremidades. O metabolismo
anaeróbio é maior no mergulhador treinado.
Estudos demonstram um aumento do
fluxo sanguíneo das artérias carótidas para o cérebro. Além disso, o
aumento do gás carbônico no sangue produz vasodilatação nos vasos
cerebrais. É uma compensação à hipóxia arterial vasoconstritora para se
manter a perfusão cerebral.
Outra resposta adaptativa
observada é a contração de baço. A contração do baço libera mais
células vermelhas para a circulação. A contração do baço acaba aumentando
a capacidade de estocar e transportar oxigênio na circulação. Ela é
observada não só no mergulho, mas também no simples ato de realizar uma
apnéia, mesmo sem mergulhar.
A resposta fisiológica ao
mergulho em humanos é mais fraca que em outros animais mergulhadores. Ela
diminui com a idade e é mais forte naqueles que o exercitam.
BAROTRAUMAS DA DESVIDA
"60 metros para 80
metros ... Enquanto o sled acelera, eu ergo meu braço e abro a
válvula do tanque acima da minha cabeça, despejando o ar no lift para
desacelerar a descida. Meus pulmões estão atingindo o volume residual,
aproximadamente do tamanho de pequenos punhos. Eles não se podem mais
comprimir sem afundar a parede do tórax. Para compensar isto, ocorre o que é
descrito como efeito mamífero. Já que os líquidos, ao contrário do ar,
não podem ser comprimidos, uma pequena quantidade de plasma sanguíneo se
transfere para os pulmões, evitando uma compressão adicional. Uma vez que
isto ocorra, a sensação de pressão no peito desaparece, restando apenas um
aperto. A compensação é possível, mas é mais difícil porque o ar da
minha respiração inicial foi comprimido para dentro das cavidades de minha
cabeça. Conforme vou mais fundo, a necessidade de compensar está sempre
presente, mas eu posso alcançar distâncias maiores com uma simples
compensação quanto mais fundo estiver, porque a pressão aumenta em volumes
menores. Neste ponto, o cérebro instrui o sistema circulatório a suprir
apenas os órgãos vitais – coração, pulmões e o sistema nervoso central
– com sangue. Minha frequência cardíaca cai para 45 batimentos por minuto
e cada batimento rouba energia vital. A 80 metros, passo pelos mergulhadores e
eles me dão um sinal audível para indicar a profundidade que atingi. Eu
aceno em resposta que estou OK."
O tórax e os pulmões são
bastante compressíveis. A compressibilidade dessas estruturas permite que a
pressão do ar nos pulmões se equilibre com a pressão hidrostática do
ambiente, protegendo os vasos intratorácicos e o coração do excesso do
gradiente de pressão. O represamento do sangue dentro do tórax fornece um
acréscimo à tolerância para o balanço dinâmico para a compensação da
diferença de pressão trans-torácica. No entanto, há limites de tolerância.
Ultrapassar esses limites significa lesão vascular e de cavidades cardíacas
por distensão e subsequente ruptura com desestruturação da arquitetura
pulmonar. São os barotraumas torácicos ou pulmonares da descida.
Os problemas relacionados à
pressão durante a descida, na sua forma mais grave, são os barotraumas
torácico e pulmonar. Eles são as piores consequências do desequilíbrio
entre as pressões intratorácicas e o meio externo relacionado às grandes
profundidades.
Inicialmente, acreditava-se que
a profundidade máxima alcançável por indivíduo derivasse de uma relação
da capacidade pulmonar total com o volume residual e que essa profundidade
seria em torno de 30 a 40 metros para humanos. A sucessiva quebra de recordes
em várias categorias do mergulho livre acabou por demonstrar que isso não
representava a realidade. A resposta adaptativa desses casos ainda não foi
totalmente esclarecida. Acredita-se que ela esteja na redistribuição do
sangue dos tecidos periféricos para os vasos intratorácicos e o coração e
que essa capacidade definiria a resposta individual. Não há modelos
experimentais que definam até quanto se pode tolerar para que não ocorra
super-distensão e ruptura dessas estruturas. Especula-se que sempre que se
mergulha profundamente algum grau de edema e de desestruturação da
arquitetura pulmonar ocorra.
A explicação dos limites de
profundidade alcançável por um mergulhador derivaria da aplicação da lei de
Boyle sobre os volumes de ar dos pulmões cheios ou vazios. Durante a descida,
o volume de ar guardado nos pulmões diminui de acordo com a lei de Boyle. O
limite de profundidade seria determinado pelo volume residual pulmonar. Os
pulmões não podem ser comprimidos além do seu volume residual mínimo. Desse
modo, a lei de Boyle pode ser usada para estimar o limite de profundidade do
mergulhador a partir do conhecimento da sua capacidade pulmonar total e do
volume residual pulmonar. A capacidade pulmonar total é o volume de ar
guardado nos pulmões após uma inspiração máxima e o volume residual é o
volume pulmonar após uma expiração máxima.
Por exemplo, um mergulhador com
uma capacidade pulmonar total de 5 litros e um volume residual de 0,83 litro
poderá alcançar aproximadamente 50 metros de profundidade de água salgada.
Para cada dez metros que o mergulhador desce, o peso da coluna de água sobre
ele é de aproximadamente 1 atmosfera de pressão. Logo, pela lei de Boyle, a
pressão máxima que o mergulhador poderá tolerar vezes 0,83 litro de volume
residual é igual a uma atmosfera vezes os 5 litros da capacidade pulmonar
total, ou seja, 6 atmosferas de pressão ou 50 metros de profundidade.
Apesar de haver limites
teóricos relacionados à capacidade pulmonar total e ao volume residual
pulmonar, por que, mesmo assim, os recordes de profundidade são quebrados?
Isso ocorre, pois lidamos com fenômenos biológicos e não matemáticos, como
tudo relacionado à fisiologia e à saúde do ser humano somente sendo
possível, pois outras variáveis estão envolvidas para que os pulmões possam
ser comprimidos além do volume residual.
A pressão da água força o
volume de sangue dos capilares da periferia, isto é, da pele, dos músculos e
dos órgãos intestinais, para os pulmões. Entrando um volume maior de sangue
no tórax, proporcionalmente menos espaço aéreo passa a existir e o ar dentro
dos pulmões pode ser comprimido a volumes menores. Volumes maiores que um
litro podem ser mobilizados ao pulmão a partir de determinadas profundidades.
Abaixo de 120 metros aproximadamente, um litro e meio de sangue é mobilizado
para dentro dos pulmões.
Os capilares pulmonares não
podem se expandir "ad eternum" e podem ser danificados num
mergulho profundo, provocando o barotrauma pulmonar. Antes disso, pode haver um
certo grau de edema alveolar e de interstício pulmonar. Cabe ressalvar que
não existem limites teóricos que não podem ser extrapolados, mas sim limites
individuais. Determinam esses limites a capacidade física do mergulhador
estabelecida geneticamente, o treinamento e as doenças prévias
cardiopulmonares.
"80 metros para 100 metros ... Retardando a
descida do sled, preparo-me para uma difícil compensação que está
por vir. Forço o ar da minha garganta em direção a minha boca e empurro
somente pequenas quantidades deste para o canal de meu ouvido. Está
começando a ficar mais escuro. Passo por mergulhadores novamente a 100
metros, concentrando-me intensamente para obter uma boa compensação após
outra. Estou relaxada, focada, controlada e pensando claramente."
O mergulhador deve diminuir a
velocidade de descida para ganhar tempo para melhor realizar as manobras de
compensação. À medida que a profundidade aumenta, as variações de volume
são menores. No entanto, o esforço compensatório aumenta e sua eficácia é
limitada, fazendo requerer a desaceleração. Por outro lado, como as
variações de volume são menores, as compensações realizadas são mais
duradouras.
"100 metro para 130
metros ... Eu desacelero o sled, utilizando um freio que agarra o
cabo. Preciso de mais alguns segundos para me assegurar de que fiz bem a
compensação. Se fiz bem, o resto do
mergulho será bom sem outra compensação. Com o meu peito tão comprimido,
minha roupa parece ter duas vezes o meu tamanho e meus músculos estão
demasiadamente estirados para empurrar o ar de qualquer lugar onde este possa
estar, então eu viro minha cabeça de um lado para outro para abrir os canais
e utilizo minha língua para empurrar o ar para meus ouvidos. Minha
frequência cardíaca está em torno de 30 batimentos por minuto. Estou
embaixo d’água há 1,5 minuto, mas não estou sentindo falta de ar. A esta
profundidade, o oxigênio no meu sangue está altamente concentrado. À medida
que passo pelos mergulhadores que estão mais no fundo, eles gritam incentivos
através de seus reguladores. Sei que estou perto. "
A compressão é intensa a
grandes profundidades e se faz notar como se a roupa estivesse
"folgada". O que ocorre é uma compressão das costelas e do espaço
intercostal. Além disso, o diafragma fica mais elevado. Os estudos demonstram
que esses atletas aumentam a capacidade de distensão muscular e flexibilidade
da parede torácica. O treinamento acaba aumentando a capacidade vital
pulmonar, realizando uma pressão inspiratória final maior e reduzindo o
volume residual pulmonar. Em suma, o treino aumenta a capacidade de estocar ar.
Com o treino, há um aumento da relação da capacidade pulmonar total com o
volume residual.
ARRITMIAS CARDÍACAS NO MERGULHO
LIVRE PROFUNDO
"130 metros a 160
metros ... A escuridão é fascinante. Viajo vagarosamente no sled,
todo o meu foco está em meus tímpanos. Minha frequência cardíaca cai para
15–20 batimentos por minuto. "
Como foi exposto anteriormente,
a bradicardia é uma resposta fisiológica ao mergulho. No entanto, muitas
arritmias são observadas no mergulho livre. Elas são variadas e vão desde a
intensa bradicardia fisiologicamente observada até taquicardias decorrentes da
estimulação dos receptores de estiramento do pulmão e de contrações
atriais e ventriculares prematuras. Acredita-se que o redirecionamento do
volume de sangue da periferia para o tórax, produzindo distensão dos vasos
intratorácicos e das cavidades cardíacas, seja o maior responsável pelas
arritmias observadas durante o mergulho em apnéia. Por si só, a distensão
das cavidades cardíacas é causadora de arritmias. Outros fatores causais
observados que ocorrem durante o mergulho, são a isquemia cardíaca
subendocárdica, o aumento do tônus vagal e o aumento da pré-carga cardíaca
pelo frio. A ocorrência de arritmias demonstra a nossa incompleta adaptação
ao mergulho.
Alterações do ritmo cardíaco
são mais pronunciadas no mergulho em água fria e em mergulhadores idosos.
Arritmias cardíacas podem ser importantes causas de afogamentos de idosos
durante o mergulho livre e mesmo durante o mergulho autônomo. Dessa maneira,
salientamos que a proteção térmica no mergulho livre é um item de
segurança.
ALTERAÇÕES RELACIONADAS AO
NITROGÊNIO: NARCOSE E DOENÇA DESCOMPRESSIVA
"O FUNDO ... Após uma descida de dois minutos,
há um audível "clunk" no momento em que o sled bate na base
do cabo. Meu coração bate uma vez a cada cinco segundos. Está escuro e
tranquilo. Não estou com medo. Atingi minha meta. Ergo meu braço para abrir
completamente a válvula do tanque, despejando ar rapidamente no lift.
Assopro um beijo para o mar e este é capturado pelas duas câmaras que gravam
todos os passos de minha jornada. O nitrogênio que foi dissolvido no meu
sangue faz com que eu me sinta quase muito bem, e eu arrisco alguns segundos
extras para admirar tudo. Depois de mais de 15 segundos, eu me estico e
desdobro o lift; ele parte das profundezas."
"130 metros ...O efeito narcótico do
nitrogênio em meu sangue é quase esmagador, mas eu ouço claramente os
mergulhadores gritando excitadamente incentivos enquanto passo subindo por
eles. Minha frequência cardíaca começa a aumentar lentamente
100 metros ... Eu me forço a ficar focalizada em
alguma coisa, qualquer coisa, para superar a leveza de minha cabeça. O som do
lift deslizando por sobre o cabo é hipnótico.
No retorno à superfície, o
processo se inverte. À medida que a profundidade diminui, a resposta
fisiológica estabelecida paulatinamente reverte. Ela é perceptível por uma
atleta altamente sensível, cuja sensibilidade foi adquirida durante um longo
período de adaptação às condições da manutenção da vida sob a água em
grandes profundidades. A quebra de um recorde desse nível e a capacidade de
descrevê-lo indicam um profundo autoconhecimento, conhecimento do que está
fazendo e controle adquirido a partir de muito treino.
Em mergulhos profundos em
apnéia, há a possibilidade, pelo menos teórica, de ocorrer narcose pelo
nitrogênio em função do aumento da pressão parcial desse gás no alvéolo e
consequentemente na circulação. Os limites atuais do mergulho competitivo
excedem em muito as profundidades nas quais se espera iniciar alterações
mentais e motoras que podem ser observadas no mergulho. Todavia, na prática, o
tempo de exposição do mergulhador em apnéia a altas pressões parciais de
nitrogênio é muito curto e, portanto, improvável de desencadear sintomas.
Há relatos de que, em compressões extremas dos pulmões a grandes
profundidades, haja uma redução da área alveolar efetiva para trocas
gasosas, o que diminuiria a entrada de nitrogênio para a circulação arterial
e evitaria a ocorrência de narcose. Também existe a possibilidade de que
ocorra narcose, mas ela é esquecida pelo mergulhador em função da própria
amnésia provocada por ela. As sensações descritas por Tânia podem não
estar relacionadas à narcose, mas aos efeitos de outros gases e à própria
euforia relacionada ao recorde que estava por ser quebrado, considerando o
pouco tempo de fundo. A narcose pelo nitrogênio que se observa nesses casos,
como no mergulho autônomo, pode cessar com a subida e consequente
diminuição da profundidade.
No mergulho livre, há relatos
de problemas neurológicos relacionados a alterações sensitivas, motoras e
visuais em mergulhadores em apnéia em vários países do mundo. A maioria dos
problemas foi resolvida espontaneamente ou foi tratada com sucesso com
recompressão. No entanto, algumas raras fatalidades ocorreram e acreditou-se
terem sido causadas por doença descompressiva.
Podemos dizer que na descida uma
pequena quantidade de nitrogênio entra na circulação. Essa pequena
quantidade de nitrogênio que foi distribuída em nosso corpo durante a
descida, deixa a circulação de modo mais lento. Isso torna possível a
ocorrência de doença descompressiva no mergulho em apnéia, dependendo da
quantidade de mergulhos, da profundidade alcançada e do tempo dos intervalos
de superfície.
Mergulho livre antes ou depois
de mergulho autônomo aumenta o risco de ocorrência de doença descompressiva.
A extensão disso não foi estabelecida e depende do quanto se mergulha num ou
noutro tipo de mergulho na mesma ocasião.
APAGAMENTO DA SUBIDA
Para finalizar o entendimento da
fisiopatologia do mergulho em apnéia, falta relatar os problemas relacionados
à subida.
No mergulho livre, à medida que
a profundidade aumenta, as reservas de oxigênio do pulmão tornam-se mais
disponíveis. Isso ocorre, pois a pressão ambiente maior acaba aumentando a
pressão parcial do oxigênio contido na mistura do ar alveolar. O mergulho
pode ficar mais longo e mais perigoso. O perigo decorre da possibilidade de
hipóxia na subida, que pode levar à perda da consciência e afogamento. O
decréscimo de pressão observado, durante o processo de emersão, a partir da
profundidade, após um mergulho acrescenta um perigo que não existe numa
apnéia realizada na superfície.
O "blackout" da
água rasa é melhor descrito por hipóxia da subida. A título de curiosidade,
o termo surgiu na Segunda Guerra Mundial quando mergulhadores britânicos,
usando equipamento de mergulho autônomo de circuito fechado, ficavam
inconscientes sem uma razão aparente ao submergirem. Quando o mergulho livre
ficou popular nos Estados Unidos e começaram a ocorrer mais casos de
apagamento na superfície e esses também ficaram sem explicação, o termo foi
adotado. Cabe ressalvar que os mecanismos fisiopatológicos do "blackout"
no mergulho em apnéia são distintos daqueles observados no mergulho com
aparelhos autônomos de circuito fechado.
No mergulho em apnéia, há uma
compressão do ar na descida com proporcional aumento das pressões parciais de
cada gás da mistura. Na subida, ocorre o inverso, a descompressão da mistura.
Nos pulmões, a pressão parcial do oxigênio é a força de direcionamento que
empurra o oxigênio para a difusão no sangue. Na descida, há uma rápida
remoção de oxigênio e gás carbônico do alvéolo para o sangue. Na
profundidade de fundo, existe um gradiente de oxigênio do alvéolo pulmonar ao
sangue, mantendo a difusão desse gás para o sangue. Hipóxia ou deficiência
de oxigênio raramente é problema para o mergulhador na profundidade. O que
faz o mergulhador livre voltar para a superfície é o gás carbônico pelo
estímulo ao retorno da ventilação, como vimos anteriormente.
Normalmente, na superfície, o
fluxo normal do gás carbônico é da circulação para o alvéolo pulmonar a
favor de um gradiente de pressão. No mergulho, durante a descida, ocorre uma
inversão do fluxo de transferência, passando esse gás a fluir do alvéolo
para o sangue. Do início da descida até o término do tempo de fundo, ocorre
uma retenção de gás carbônico no sangue, produzindo hipercapnia. Isso torna
o padrão das trocas gasosas alveolares durante um mergulho diferente daquele
observado numa apnéia em pressão ambiente. Relembramos que, no sistema
nervoso central, o centro respiratório é estimulado pelo aumento da pressão
parcial de gás carbônico no sangue para desencadear a resposta ventilatória.
Na profundidade, pelo menos teoricamente, podem ser antecipados os estímulos
à contração involuntária do diafragma. Aparentemente, talvez pelo aumento
da pressão parcial do oxigênio, a sensação de desconforto da asfixia no
fundo não parece tão intensa.
No mergulho livre, acaba havendo
uma remoção mais rápida do oxigênio alveolar, que inicia na descida e
continua durante todo o período de permanência no fundo. Estudos demonstraram
que a pressão parcial do oxigênio alveolar final no mergulho é menor que a
pressão parcial do oxigênio alveolar final numa apnéia na superfície.
Portanto, provavelmente mais oxigênio é difundido pela compressão. Na
subida, ao final do tempo de fundo, a concentração do oxigênio alveolar
acaba ficando igual à do sangue do sistema venoso. A velocidade de variação
de profundidade na subida gera diferença de gradiente de pressão e leva ao
desequilíbrio entre a pressão de dentro com a de fora do alvéolo pulmonar e
na circulação sanguínea.
Durante a subida, com a
diminuição da pressão parcial do oxigênio alveolar, o gradiente pode ficar
no sentido da inversão do fluxo de oxigênio, dependendo do quanto foi
consumido durante o período no fundo. Quando o mergulhador sobe e a pressão
ambiente diminui, a pressão parcial do oxigênio também diminui e pode ficar
tão baixa que o oxigênio flui no sentido retrógrado do sangue para a luz do
alvéolo pulmonar. Nesse ponto, o mergulhador pode ficar num estado crítico de
hipóxia. Acrescenta-se à hipóxia resultante do consumo de oxigênio uma
hipóxia decorrente da inversão do fluxo de oxigênio do sangue para a luz do
alvéolo pulmonar. Com a subida e a diminuição da pressão ambiente, há uma
diminuição da pressão parcial de oxigênio no sangue mais rápida que a
esperada pelo simples consumo de oxigênio. Isso explica o porquê de a maior
parte dos apagamentos ocorrer quando o mergulhador está chegando à
superfície. O mergulhador deve saber dosar a velocidade de subida em função
do quanto de oxigênio ele gastou no fundo. Essa habilidade depende de treino.
Alguns modelos matemáticos de
análise da remoção do oxigênio alveolar para mergulhos em profundidades
maiores que 100 metros sugerem que outras possibilidades também devem ser
consideradas. Há algum indício de que nessas profundidades possa ocorrer, num
determinado momento, um fluxo de saída mais lento do oxigênio do alvéolo,
tornando a curva de saída de oxigênio alveolar não linear. Isso decorre de
uma possível inversão de fluxo no sentido de sair oxigênio do seguimento
venoso da circulação para o alvéolo, já que a pressão parcial do
oxigênio, nesse leito vascular, poderá estar maior que o normal e maior que
no alvéolo. A diminuição da velocidade da queda da pressão parcial do
oxigênio na última parte do mergulho profundo ofereceria alguma proteção
contra a hipóxia.
O treinamento para o mergulho em
apnéia produz uma redução do metabolismo aeróbio. Os atletas do mergulho
competitivo acabam desenvolvendo uma maior capacidade de produção de energia
pela via anaeróbia, produzindo uma maior tolerância à hipóxia. O aumento do
metabolismo anaeróbio quer dizer aumento da produção de energia metabólica
sem o uso de oxigênio.
Do mesmo modo que no mergulho
autônomo, se preconiza que o mergulho livre seja realizado em duplas. Isso é
particularmente válido durante treinamentos e no mergulho livre profissional
quando há situações limite.
BAROTRAUMAS DA SUBIDA
Com o retorno à superfície,
todo o gás distribuído nas várias estruturas que têm conteúdo aéreo, se
expande. O balanço de pressão com o meio externo pode estar desequilibrado em
algumas estruturas e ser suficiente para provocar descompensação com dano às
estruturas. É o caso da vertigem alternobárica da subida. O balanço de
pressão entre a orelha média e a cavidade oral pode ficar comprometido em
caso de obstrução da trompa de Eustáquio. No mergulho livre profundo, essa
obstrução pode ocorrer, na descida, por um barotrauma da orelha média, que
acaba por acumular uma quantidade de ar antes da sua obstrução total. Na
subida, como acaba não havendo comunicação entre as estruturas, o ar
pressurizado se expande e o aumento do seu volume produz lesões nas estruturas
da orelha média e interna, causando a vertigem alternobárica. Além da
vertigem, podem ocorrer outros sintomas como a náusea e a desorientação.
Nos treinamentos e manobras de
evasão de submarinos, pode-se observar que, quando os submarinistas são
subitamente comprimidos à pressão ambiente externa para fuga e depois
descomprimidos num intervalo de tempo relativamente curto até a superfície,
há o relato de euforia, desorientação e vertigem na subida.
Parece pouco provável que
ocorra barotrauma torácico da subida pois quando o mergulhador chega à
superfície, ele apresenta a mesma quantidade de ar que tinha quando iniciou o
mergulho. No entanto, no mergulho livre profundo, já foram descritos alguns
achados neurológicos compatíveis com embolia aérea. A sua ocorrência parece
ser pouco frequente, mesmo quando o mergulhador não sobe, exalando.
Hipoteticamente seriam êmbolos de ar decorrentes de barotraumas torácicos
ocorridos na subida. O mecanismo proposto para a ocorrência desse tipo de
barotrauma é que haja um curto período de tempo para a saída do sangue
represado nos vasos sanguíneos intratorácicos durante a descida e que esse
seja maior que o tempo necessário para haver uma hiperexpanção crítica
dentro do alvéolo pulmonar capaz de produzir lesão. Ou seja, por ainda
permanecer sangue dentro dos vasos pulmonares, algumas áreas do pulmão não
conseguem acomodar o ar em expansão que está dentro dele durante a subida.
Pontos de ruptura na intimidade da estrutura possibilitariam a entrada de ar na
circulação, causando embolia aérea.
A hiperinsuflação pulmonar
inicial realizada para maior estocagem de ar também poderia estar relacionada
aos barotraumas. A realização de hiperinsuflação poderia acarretar pequenas
fissuras na microestrutura pulmonar. Acredita-se que isso seja mais provável
ocorrer naqueles mergulhadores que já apresentam alguma doença pulmonar
prévia como a doença pulmonar obstrutiva crônica com bolhas de enfisema
associadas.
Além da embolia aérea, pode
acontecer que uma quantidade de ar penetre no espaço em volta do coração,
causando enfisema mediastinal, ou que entre no espaço pleural entre o pulmão
e a parede do tórax, produzindo pneumotórax.
CONCLUINDO
60 metros ... O lift puxa fortemente meus braços à medida que o volume de ar dentro
dele aumenta, puxando cada vez mais rápido. O ar dentro dos meus pulmões
está fazendo o mesmo, empurrando suavemente o plasma sanguíneo de volta à
corrente sanguínea.
30 metros ... Completamente submersa em uma enxurrada
de bolhas que estão escapando do lift, eu o desprendo do meu punho.
Minha cabeça desobstruiu, e minha frequência cardíaca está voltando ao
normal. Não preciso respirar, então eu prefiro nadar o resto do trajeto para
a superfície.
20 metros ... Meu
marido havia mergulhado, então nós podemos vir à tona juntos. Nós não
podemos nos tocar porque eu seria desclassificada. Devo me manter
completamente desassistida até que eu atinja a superfície e um minuto se
passe. Eu expiro suavemente assim que rompo a superfície."
"SUPERFÍCIE ... Chego da paz das profundezas
para a cacofonia dos espectadores na superfície. Existe um risco de cair
inconsciente, caso o mergulho não tenha ido bem, e isto invalidaria a
tentativa de recorde.
Na praia, submeto uma amostra de urina para teste das
substâncias controladas, ou proibidas. Uma vez que estes resultados forem
aprovados, o novo recorde mundial será oficial."
A resposta fisiológica cumpre
um papel importante para a extensão do tempo do mergulho em apnéia. Os
principais componentes dessa resposta são: diminuição da frequência e do
débito cardíaco, diminuição do fluxo de sangue da pele, dos músculos e dos
órgãos intestinais através da vasoconstrição, aumento do fluxo sanguíneo
ao coração, pulmões e cérebro, aumento da quantidade das células vermelhas
e aumento do metabolismo anaeróbio.
Sempre que um recorde é
quebrado, a margem de segurança entre um mergulho seguro e outro
potencialmente perigoso fica menor. Por muito tempo não eram noticiados
acidentes fatais e, recentemente, pudemos ouvir o relato de um que deixou todos
nós estarrecidos. Não foi coincidência que, precedendo esse acidente, na
última década, houve um aumento do número de atletas e de recordes que foram
quebrados sucessivamente. Hoje podemos observar a criação de várias
associações relacionadas ao mergulho em apnéia, que têm por objetivo não
somente a divulgação dessa modalidade de mergulho, mas também a segurança
através do treinamento e das pesquisas na área da fisiologia do mergulho. No
entanto, acidentes ainda acontecem.
Como em todos os esportes, o
treinamento aumenta o rendimento do atleta por aperfeiçoar a técnica. No caso
específico do mergulho em apnéia, é através do treinamento que se ampliam
as respostas fisiológicas naturais e se produz um aumento da tolerância à
asfixia.
É fantástica a capacidade do
ser humano de superar os limites biológicos previstos para a sua espécie. A
extrapolação desses limites não depende somente da capacidade orgânica
inata de um ou outro indivíduo da espécie. Ela é muito maior e depende de
muito treino. Possuímos o mais potente instrumento capaz de gerar adaptação,
que é o nosso sistema nervoso central. Com ele aprendemos não somente o
funcionamento do nosso organismo, mas também a sua desestruturação. Desse
conhecimento originam-se as medidas preventivas no sentido de se evitarem
doenças. Talvez outra igualmente potente seja a educação, que é fruto da
cultura humana. O entendimento da fisiopatologia do mergulho livre proporcionou
o melhor desempenho para a realização dessa atividade com relativa
segurança. Dele originaram-se as orientações para o treinamento e a
possibilidade de sucesso. O relato de uma atleta do porte de Tanya Streeter nos
sensibiliza profundamente em relação à odisséia que encaminhou. Ilustra-nos
e educa-nos para os grandes desafios, não só de um indivíduo, mas da
própria espécie humana. Também nos remete à nossa condição de
brasileiros, que com todas as nossas limitações de povo e nação, também
temos nossos grandes atletas no mergulho livre com o mesmo nível de
excelência de Tanya, como é o caso de Karoline Meyer, entre outros.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada.
O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura
deste texto.
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