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Mergulho e Hipertensão Arterial Sistêmica
O que é a Hipertensão Arterial Sistêmica
A hipertensão arterial sistêmica é uma doença
caracterizada pela presença de níveis de pressão altos e suas
consequências. É uma doença que se caracteriza fundamentalmente pelo
aumento da pressão do sangue nos vasos sanguíneos.
Ela ataca os vasos sanguíneos de maneira lenta e
progressiva. Provoca o envelhecimento precoce dos vasos, causando o
estreitamento e endurecimento das artérias. No final, leva à esclerose
vascular.
Quando acontece nas artérias do coração, leva à angina.
Se houver entupimento súbito, provocará o enfarte agudo do miocárdio. No
cérebro, se houver entupimento, temos a isquemia cerebral. Se a pressão for
muito intensa a ponto de romper os vasos, poderá provocar o derrame cerebral.
O entupimento e esclerose das artérias dos rins levam à paralisação destes
e então à necessidade de diálise.
Novas Classificações da Pressão Arterial
A pressão arterial sistêmica pode ser considerada uma
característica do ser humano e valores muito desviados de uma média são
considerados anormais, podendo estar associados à doença, no caso de para
mais, à hipertensão.
Segundo as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial
de 2002, considerava-se pressão arterial ótima a pressão sistólica menor
que 120 mm de Hg e a diastólica menor que 80 mm de Hg, sendo a pressão
considerada ainda normal a menor que 130 mm de Hg de sistólica e menor que 85
de diastólica.
Quando falamos de sistólica, nos referimos àquela mais
alta, que ouvimos no aparelho de pressão ao desinsuflar o manguito. É o
valor referente ao primeiro som que surge com o esvaziar do manquito. A
diastólica é a mais baixa, que some num determinado momento da medida,
esvaziando-se o manguito.
Com a recente divulgação científica do Seventh
Report of the Joint National Comittee on Prevention, Detection, Evaluation,
and Treatment of High Blood Pressure, nos Estados Unidos, os meios de
comunicação em geral passaram a levantar muitas dúvidas quanto aos novos
critérios diagnósticos de hipertensão arterial sistêmica.
A classificação anterior era mais extensa, tornava o
assunto mais complicado e gerava poucos resultados práticos. Vejamos: a
pressão arterial normal limítrofe apresentava valores entre 130 e139 mm de
Hg para a sistólica e entre 85 e 89 mm de Hg para a diastólica e servia para
identificar aqueles com risco de desenvolver hipertensão, candidatos à
vigilância e a praticar as orientações fornecidas no sentido de evitar o
desenvolvimento da doença. Acima de 140 mm de Hg de sistólica e 90 mm de Hg
de diastólica seria hipertensão arterial sistêmica ou hipertensão. A
partir daí, se subdividia em três estágios e uma entidade isolada, a
chamada hipertensão sistólica isolada. A classificação é um tanto
complexa.
A revisão dos dados da distribuição da pressão arterial
da população e sua associação com doenças geraram os novos critérios
simplificados de normalidade do VII Joint. Eles ficaram assim
determinados:
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Classificação da Pressão Sanguínea (PS) para adultos acima dos
18 anos de idade |
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Classificação da PS |
PS Sistólica, mm de Hg Máxima |
PS Diastólica, mm de Hg Mínima |
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Normal |
Menor que 120 |
Menor que 80 |
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Pré-hipertensão |
120-139 |
80-89 |
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Hipertensão Estágio 1 |
140-159 |
90-99 |
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Hipertensão Estágio 2 |
Maior que160 |
Maior que 100 |
A classificação ocorre após duas ou mais medidas da
pressão arterial sistêmica no consultório, estando o paciente relaxado e
sentado. Em contraste com a classificação do VI Joint, uma nova
categoria foi adicionada, designada pré-hipertensão, e os estágios 2 e 3
foram combinados. Pacientes com pré-hipertensão têm risco aumentado de
desenvolver hipertensão. Aqueles na faixa de 130/80 a 139/89 mm de mercúrio
têm o dobro do risco de desenvolver hipertensão em relação aos que
apresentam valores mais baixos. Provavelmente, esses dados observacionais
serão revisados pela Sociedade Brasileira de Hipertensão num novo consenso.
Portanto, com essa nova divulgação científica, devemos rever nossos valores
para seguir investindo em saúde e evitar a hipertensão.
O conhecimento dessas classificações é importante para o
diagnóstico tanto dos candidatos ao treinamento para o mergulho autônomo
quanto daqueles mergulhadores experientes que venham a desenvolver
hipertensão. Além disso, ela tornou-se importante para definir os objetivos
que se propõem a alcançar com o tratamento.
Prevenção da Hipertensão
Não podemos dizer que a pressão alta surja como
consequência de um fator isolado. Geralmente os hipertensos herdam a doença
dos pais. Mas não é só isso. A manifestação também depende de hábitos
não saudáveis como o excesso de sal na dieta, alcoolismo, obesidade e falta
de exercícios físicos.
O surgimento da pressão alta é facilitado pelo estilo de
vida. O peso excessivo é um deles. O aumento de peso pode ocorrer por alta
ingesta de alimentos que têm muitas calorias, pelo uso de bebidas alcoólicas
e também pela baixa prática de exercícios físicos.
Antes de ter de evitar as graves situações descritas,
deve-se evitar a própria pressão alta. Dessa forma podemos atuar de duas
maneiras. Uma é controlando a pressão alta. A outra é evitando que se venha
a ter pressão alta. Prevenir o aumento da pressão arterial ainda é o meio
mais eficiente de combater a hipertensão arterial.
Hipertensão e Mergulho
A população de mergulhadores apresenta a mesma
prevalência de hipertensão que a população em geral. Ela tem a mesma
probabilidade que a população em geral de ter ou vir a ter hipertensão. O
mesmo supomos acreditar ser válido para o estilo de vida, incluindo o excesso
de peso, o alcoolismo e também a baixa prática de exercícios físicos.
Como hipertensão é uma doença muito prevalente, ela é
uma das condições médicas mais comuns na população de mergulhadores. Um
estudo epidemiológico realizado pelo Dive Alert Network (DAN) sobre a
prevalência de doenças no mergulho recreacional evidenciou que a
hipertensão é a doença mais prevalente, chegando a 9,7 % da população
estudada. Salientamos que esse estudo apresenta limitações em função da
metodologia que pode superestimar a incidência da hipertensão na população
de mergulhadores. Além disso, não sabemos se a população que pratica
mergulho recreacional é, em termos epidemiológicos, semelhante à
população em geral.
A hipertensão também pode ser diagnosticada durante a
avaliação médica para a prática do mergulho. Pode ocorrer também que o
candidato a mergulhador já saiba que é portador de hipertensão e queira
saber se poderá ou não mergulhar. Além disso, o mergulhador poderá vir a
desenvolver, já como mergulhador formado e praticante, hipertensão ao longo
da vida. Ressalvamos que não é o caso de que ficou hipertenso como
consequência da atividade de mergulho. Nesses casos, a hipertensão poderá
ser primária como uma consequência das suas características genéticas
associadas ao seu estilo de vida. Ela também poderá surgir secundariamente
como consequência de uma outra doença que, na sua evolução ou quadro
clínico, leve à hipertensão.
Atualmente há evidências de que a pressão arterial tende
a se elevar com a idade. Isso se torna relevante à medida que, atualmente,
podemos observar cada vez mais pessoas de mais idade praticando ou buscando
aprender o mergulho autônomo amador. Nesses casos, os mergulhadores e
candidatos à prática do mergulho autônomo têm de controlar a pressão
arterial antes praticar a atividade.
Hipertensos em uso de certos medicamentos para o controle
da pressão alta devem ser previamente submetidos à avaliação médica
especializada para poder mergulhar. Estando a pressão controlada, as maiores
preocupações relacionam-se com os efeitos adversos da medicação, os danos
aos órgãos-alvo e a relação das disfunções destes com a atividade de
mergulho.
No Brasil, não há regulamentação em relação à
hipertensão e ao mergulho recreacional. Aliás, não há regulamentação
para qualquer problema médico específico em relação ao mergulho amador.
Nessas situações, cabe ao médico somente fazer recomendações. Salientamos
que países como o Reino Unido, França e Austrália apresentam regulação
específica em relação aos problemas de saúde relacionados ao mergulho
recreacional. Provavelmente, isso tem relação não só com o fato de
possuírem sistemas de saúde de excelente nível de organização, mas
também com a experiência dessas nações em relação a um maior número de
acidentes de mergulho e um melhor registro dos mesmos, bem como com a
preocupação com medidas preventivas.
Posições diferentes são mantidas em relação às
recomendações feitas ao candidato a mergulhador amador que é hipertenso e
ao mergulhador experiente que vem tornar-se hipertenso. No mergulho autônomo
amador há uma certa liberalidade controlada. Acreditamos que mergulhadores
que apresentam um bom controle da pressão arterial sem uma diminuição do
desempenho em resposta ao esforço físico, em baixo d’água, decorrente de
efeitos adversos de medicações, poderão estar aptos a mergulhar. Consultas
médicas regulares objetivando o controle e a prevenção de danos
secundários da hipertensão em órgãos-alvo a longo prazo são recomendadas.
No mergulho comercial, pelo tipo específico de atividade
que envolve riscos, cuja exigência física é maior, há um consenso de que
qualquer doença orgânica cardíaca deve ser causa de proibição para esse
tipo de mergulho até que o candidato ou mergulhador seja avaliado por um
cardiologista e esse considere o caso sem risco cardíaco. São avaliações
rigorosas em que o médico lança mão de exames laboratoriais sensíveis,
específicos e de alto valor preditivo para detectar qualquer alteração do
coração e sistema circulatório que o coloque em risco hemodinâmico, ou
seja, que identifique qualquer problema capaz de alterar o débito cardíaco e
que ponha em risco a própria vida do mergulhador, da sua dupla de mergulho e
de toda uma operação de mergulho. Sucintamente, em relação à hipertensão
nesse tipo de mergulho, não pode haver qualquer dano em órgão-alvo
provocado pela hipertensão, capaz de prejudicar o desempenho cardíaco. A
literatura técnica especializada coloca que a pressão de repouso não pode
ser maior que 140 mm de mercúrio de sistólica ou de 90 mm de mercúrio de
diastólica. Além desses parâmetros gerais, há de se considerar a
legislação trabalhista específica do setor relacionada à medicina do
trabalho. Cabe lembrar que o tratamento desse tema foge dos objetivos deste
texto.
Hipertensão e o Exercício Físico
Realizar atividade física moderada e com regularidade é
uma maneira de se manter sadio. Qualquer atividade que gaste energia, está
indicada para melhorar e manter a saúde. O exercício físico realizado de
forma regular contribui para reduzir o risco de pessoas com pressão ainda
normal virem a desenvolver pressão alta. A prática de exercícios físicos
regulares tem ação direta sobre a pressão arterial, reduzindo-a.
Exercícios muito intensos e acima do indicado têm pouco efeito sobre a
pressão arterial dos que já sabem que são portadores de pressão alta.
Os benefícios adicionais do exercício físico são a
diminuição do peso e o auxílio no controle das gorduras no sangue, no
abandono do fumo e no controle do estresse. A atividade física e os
exercícios regulares aumentam a confiança, a auto-estima e o prazer da
conquista. Dessa forma, o mergulho pode ser mais um instrumento para a busca
da saúde e a prática do mergulho autônomo menos arriscada.
Baixo nível de capacitação física está associado a
maior risco de óbito por doença coronariana e cardiovascular em homens
sadios independentemente de fatores de risco convencionais. Por isso, o
início da prática de exercícios deverá ser gradual e buscar uma
capacitação física progressiva.
Como o treinamento físico pode ser usado como medida
terapêutica para o controle da pressão arterial, ele é recomendado como
parte de programa de condicionamento para o aprendizado do mergulho. Isso é
especialmente válido nos programas de ensino de mergulho para mergulhadores
que já passaram da meia idade ou que desejam mergulhar e se apresentam
hipertensos ou com mau condicionamento físico.
A prática de exercício físico é particularmente
importante no idoso, pois, além de ser importante no controle da pressão,
pode ser preconizada para se evitar hipertensão. Acredita-se que, com a
redução da massa muscular observada com o envelhecimento, há um aumento da
resistência vascular periférica. Com a diminuição da massa muscular,
ocorreria uma perda parcial da microcirculação no leito vascular
periférico, diminuindo a área total de luz vascular, que, por sua vez,
aumentaria a resistência vascular e consequentemente a pressão arterial.
Além disso, com o aumento da idade, haveria um aumento da sensibilidade
vasoconstritora no vasos arteriais. A vasoconstrição periférica por si só
é fator de aumento da pressão arterial sistêmica. Cabe destacar também
que, com o aumento da idade, há um enrijecimento do aparelho cardiovascular.
O exercício físico diminui a resistência vascular periférica por aumentar
a massa muscular. Além disso, há uma diminuição do tônus vascular de
grandes e médias artérias. Foi observado que programas de treinamento
prolongado diminuem o tônus da musculatura aórtica.
Devem-se particularizar os programas de condicionamento
físico para o controle da pressão no idoso. Há hipertensos idosos que
apresentam hipertensão moderada e que passam a ficar severamente hipertensos
durante a prática de exercícios intensos acima da sua capacidade de tolerar.
Parece ser o caso do mergulho não só por se expor a situações de grande
demanda de esforço, como mergulhar no frio, contra correntes ou mesmo quando
se acaba o mergulho longe da embarcação, mas simplesmente pelo fato de
submergir para mergulhar. A literatura cita episódios de edema agudo de
pulmão em mergulhadores com hipertensão não controlada enquanto
mergulhavam.
Naqueles que estão usando remédios para a pressão alta,
a prática de exercícios facilita o controle, reduzindo a dose de medicação
necessária para mantê-la em níveis adequados.
Avaliando o candidato a Mergulhador Recreacional e o Mergulhador que se
apresenta hipertenso
Qualquer pessoa que tenha sua pressão elevada acima de 110
mm de mercúrio de pressão diastólica ou 210 de pressão sistólica, deve
tratar a hipertensão antes mesmo de iniciar qualquer atividade. O mesmo é
valido para aqueles hipertensos mergulhadores que querem manter a atividade
que já lhe é familiar. Muito provavelmente, com esses níveis pressóricos,
independentemente dos níveis de pressão sem se exercitar, esse mergulhador
ou candidato a mergulhador deverá utilizar medicações anti-hipertensivas.
Medicações essas que deverão ser escolhidas de modo adequado ao perfil do
hipertenso.
A Australian Standard AS 4005.1-1992, que descreve
os critérios médicos adotados na Austrália para serem usados na avaliação
dos candidatos ao mergulho autônomo recreacional, limita que o candidato não
deve apresentar pressão arterial de repouso acima de 150 mm de mercúrio de
pressão sistólica e de 95 de diastólica. No entanto, alguns autores
australianos ponderam que o mais apropriado seria colocar que a pressão
estivesse dentro de valores normais para a idade do candidato ou mergulhador
formado. A legislação britânica para o mergulho recreacional coloca como
hipertensão bem controlada valores de 160/95 mm de mercúrio. Acreditamos que
esses valores deverão ser revistos em função dos novos valores divulgados
no VII Joint . Novas diretrizes específicas ao mergulho deverão ser
propostas à comunidade de mergulhadores desses países que têm
regulamentação específica.
Durante a avaliação, o médico deve examinar a causa da
hipertensão. Toda consulta médica é um momento de promoção da saúde.
Apesar de o candidato a mergulhador autônomo, muitas vezes, vir consultar com
um problema específico relacionado a sua capacidade de realizar um curso de
mergulho, o médico deve realizar uma boa avaliação, tendo por base a
história e o exame físico. A partir daí poderá identificar causas
específicas de hipertensão e fazer o encaminhamento ao profissional
especializado, além, é claro, de já definir o prognóstico do candidato em
relação ao mergulho.
No espaço da consulta, o médico avaliador também faz um
inventário da severidade da hipertensão, do comprometimento de órgãos-alvo
e das medicações em uso. Para o mergulho há uma importância especial na
avaliação do risco cardíaco, ou seja, do risco associado de doença das
artérias coronárias. Isso é particularmente importante à medida que,
durante o mergulho, o coração e a circulação são particularmente
exigidos.
Não é aceitável liberar para o mergulho pessoas que,
além de apresentarem níveis de pressão arterial elevados, mesmo sendo uma
hipertensão leve, evidenciam danos na circulação, coração, cérebro,
retina e rins.
Aqueles mergulhadores ou candidatos a mergulhadores que
não controlam sua pressão arterial com dieta com pouco sal (hipossódica),
perda de peso, abandono do álcool, exercícios e somente com o uso de
diuréticos, a princípio devem ser excluídos da prática, ou seja, mesmo
sendo hipertenso leve, deve haver uma boa avaliação e, conforme o caso,
permitir um mergulho restritivo. Isso torna evidente que todos os hipertensos
estágio 1 e 2 da classificação do VII Joint devem ser
excluídos.
Papel do Teste de Esforço
O teste de esforço é útil na avaliação do hipertenso
limítrofe entre hipertensão leve e estágio 1. Isso é particularmente
relevante no hipertenso idoso com hipertensão leve, mas que, durante a
prática de exercícios intensos, apresenta elevações da pressão de forma a
ficar severamente hipertenso.
O teste de esforço simula as exigências cardíacas do
esforço físico do mergulho. O registro da pressão arterial durante o teste
permite reconhecer como o indivíduo se comportará durante o mergulho. Num
teste considerado adequado, podemos observar um aumento da pressão sistólica
menos intenso proporcionalmente ao aumento da pressão diastólica. Um aumento
mais elevado na pressão sistólica do que na diastólica caracteriza uma
situação complicada. Indivíduos com hipertensão leve que apresentam
elevações importantes, significativas, da pressão sistólica durante o
exercício, devem ser considerados com reserva para o mergulho. Nesses casos,
um bom tratamento que, além do controle dietético e de peso, inclua um
programa de exercícios físicos, é indicado. Essa abordagem provavelmente
terá um grande índice de resgate da liberação ao mergulho num segundo
momento.
O Tratamento Anti Hipertensivo e o Mergulho
O maior problema relacionado com o tratamento da
hipertensão e o mergulho é que muitos anti-hipertensivos alteram a resposta
do aparelho cardiovascular ao esforço físico necessário na atividade.
Atualmente os resultados da pesquisa médica indicam que, a longo prazo, no
sentido de se evitarem danos em órgãos-alvo, a hipertensão deve ser bem
controlada. Além disso, têm-se como objetivo valores tão baixos quanto
140/80 mm de mercúrio para considerar a pressão arterial controlada. Isso
faz com que, muitas vezes, se mantenha medicação de uso continuado. No
entanto, a grande maioria daqueles que se apresentam para avaliação,
objetivando o mergulho recreacional, ou aqueles mergulhadores antigos que são
hipertensos leves, podem ter sua pressão controlada com mudanças de
hábitos. Muitas vezes, a dieta com pouco conteúdo de sal, o controle do
peso, o abandono do uso do álcool e a prática regular de exercícios
físicos podem levar ao controle da pressão arterial e a situação de risco
para o mergulho autônomo deixar de existir.
Sendo a medicação absolutamente necessária, cabe lembrar
que todos os remédios têm efeitos adversos e esses variam de medicação
para medicação. Além disso, muitas vezes, é necessário acrescentar uma
segunda droga para se obter um bom controle da pressão. Durante o tratamento,
muitas vezes, algumas drogas mostram-se menos efetivas que outras e acabam
sendo trocadas.
Em relação ao mergulho, os diuréticos tiazídicos
parecem ser os mais adequados. São drogas que, durante o uso crônico, não
alteram o débito cardíaco e têm, no uso continuado, o efeito de diminuir a
resistência vascular periférica. Cuidados durante o uso se relacionam à
hidratação e ao equilíbrio de eletrólitos do nosso corpo. O efeito adverso
mais importante é a diminuição do potássio no nosso organismo. No entanto,
esse efeito é facilmente controlável através da reposição desse íon
através da alimentação e, em casos indicados, com suplementação
específica medicamentosa. Outra ressalva é que os diuréticos também levam
à depleção de água. Isso é particularmente importante em relação ao
mergulho, pois nessa atividade há exposição ao sol e ao calor.
Os beta bloqueadores são drogas comumente usadas na
abordagem inicial do hipertenso leve. Em relação ao mergulho, têm como
principal efeito adverso a diminuição da tolerância máxima ao exercício.
Por sua ação sobre o sistema nervoso autônomo, eles também podem estar
associados à intolerância ao frio e ao bronco-espasmo. Em relação à
intolerância ao frio, eles tornam-se importantes para os mergulhadores que
mergulham em águas frias. Já em relação ao bronco-espasmo, não podemos
esquecer que no mergulho autônomo respiramos ar frio e seco, que por si só
já provoca uma certa ação sobre as vias aéreas no sentido do
bronco-espasmo. Essas drogas, apesar de já existirem algumas com menos
efeitos adversos entre elas, devem ser usadas com cautela por hipertensos com
hipersensibilidade das vias aéreas. Ao mergulhador idoso pode ser
contra-indicada pelos efeitos sobre a circulação periférica.
Os bloqueadores de canais de cálcio são drogas com efeito
negativo sobre a contração miocárdica e também apresentam efeitos sobre a
tolerância ao exercício. Durante o seu uso, também foi registrado efeito
sobre o ritmo cardíaco, o que pode ser um problema em caso de esforço
excessivo durante o mergulho. Além disso, eles estão associados ao refluxo
gastro-esofágico. O refluxo sabidamente é um problema de muitos praticantes
de mergulho autônomo. Ele, muitas vezes, se manifesta durante o mergulho e
também está associado à roupa de mergulho apertada, ao excesso de peso e à
submersão com aumento da pressão externa. Outra colocação pertinente em
termos de efeitos adversos é a tontura que ocorre durante a mudança de
posição. A hipotensão postural que a medicação provoca, decorre da
própria ação da medicação sobre os vasos sanguíneos.
Para finalizar, em relação aos inibidores de enzima de
conversão, podemos dizer que são drogas relativamente seguras. Em relação
ao mergulho, o efeito adverso indesejável é a sua relação com a tosse que
pode ocorrer em muitos usuários e se tornar um inconveniente no mergulho. A
tosse pode favorecer a ocorrência, pelo menos, teórica de barotraumas. A
droga também está associada a bronco-espasmo, tontura e hipotensão
postural.
Analisando o uso das drogas disponíveis para o tratamento
da hipertensão e sua relação com um indivíduo específico, muitas delas
podem ser compatíveis com o mergulho, ou seja, muitas vezes, os efeitos
adversos descritos não são experimentados por muitos mergulhadores e o seu
desempenho de tolerância ao exercício embaixo da água não está afetado.
Geralmente são casos que passaram por uma intensiva avaliação cardiológica
específica para se ter segurança da liberação à prática do mergulho.
São mergulhadores que realizaram avaliações em que se lançou mão de
vários testes laboratoriais até se ter bem clara a relação da hipertensão
com o mergulhador e o uso de medicações. Nessas situações, sempre é
indicada a avaliação cardiológica regular e o seguimento continuado é
muito importante.
Conclusão
Concluindo, poderá praticar mergulho recreacional aquele
que apresentar hipertensão leve, sem evidências de dano em órgão-alvo
(coração, vasos, cérebro, retina e rins), sem fatores de risco excessivos
para doença cardíaca isquêmica, com adequado controle: preferencialmente
com dieta pobre em sal, controle de peso, exercício físico. Se o controle da
pressão necessita do uso de medicação anti-hipertensiva, a escolha da
medicação deve ser compatível com o mergulho. Em caso de uso de
medicação, a avaliação cardiológica aprofundada com testes laboratoriais
é necessária para que seja bem documentado que o uso da medicação não
compromete o desempenho cardíaco.
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London, Arnold, 2002; 56: 575-576.
Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de
oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou
doença relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado
em conjunto com o aconselhamento específico do médico de medicina do
mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência concebível
relacionada à leitura deste texto.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio,
localizada em Porto Alegre-RS.
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