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Entrevista: Arduíno Colasanti

Se não estou enganado, você participou como ator em alguns filmes. Isto procede ?

Vc não está enganado. Participei de 38 longas metragens, muitos deles ligados ao movimento chamado Cinema Novo. Além de ator trabalhei também na parte técnica, principalmente em filmagens (película 35 e 16mm) subaquáticas e, mais recentemente, com vídeo.

 

Quando e o que o levou a praticar o mergulho ?

Ainda na Itália, em '47, assisti ao que deveria ser um dos primeiros documentários sobre mergulho. De uma só vez me apaixonei pelo mergulho - extensão do meu amor pelo mar, com o qual nasci - e pelo cinema, mais especificamente, pelo documentário.

Assim que cheguei ao Rio, com 11 anos, comecei a frequentar a praia do Arpoador que, junto ao Clube dos Marimbás e ao Iate Clube do Rio de Janeiro, foi um dos polos de onde irradiou a caça submarina para o resto do Brasil. Em pouco tempo, com uma máscara da Casa da Borracha adaptada ao meu rosto com duas rolhas por baixo da tira. Aos 14 anos fabriquei uma fisga, com 17 escapei de uma série de mergulhos com um reciclador a O2 da Cressi, pouco depois, com o conhecimento adquirido em dois livros franceses, fui desentocar uma garoupa com um aparelho equipado com a válvula CG-45.

 

Chegando ao Brasil, como era o mercado do mergulho por aqui ?

Naquele tempo nem se sonhava com mercado. Mergulhar era fim a si mesmo, por puro prazer. 

 
Havia alguma dificuldade para se poder mergulhar na época ?

Além da falta de equipamento, até meados dos '50, havia muito pouco intercâmbio com mergulhadores de outros países, pouca literatura, nenhuma em português. Depois foram realizados os primeiros campeonatos internacionais. O Brasil partecipou do campeonato em Sesimbra e o pessoal voltou com as primeiras roupas de neoprene. Houve um intercâmbio de técnicas e de conhecimentos que continuou nos anos seguintes com a organização da CMAS da qual o Brasil participou e que foi presidida pelo Cousteau.

 

Até nos dias atuais, e em certas ocasiões, temos dificuldades em adquirir determinados tipos de equipamentos. Como você e seus amigos faziam para adquirí-los ?

Importação nem falar, não havia mercado que justificasse os infindáveis trâmites exigidos. Os pilotos da Panair, que voavam para a Itália traziam a cobiçada 'Ostrica", máscara da Cressi preferida pelo pessoal. Nadadeiras eram as Swim Fins cópia das Owen Churchill americanas. Equipamento autônomo só os muito ricos, que pouco usavam.

 

Quando você foi a Fernando de Noronha e como foi a incursão à ilha ?

Fui a Noronha pela primeira vez em '60 com Claudio Ripa, que depois de uma carreira brilhante como pescador de competição, estava se dedicando à foto sub. Só existiam dois barcos a motor na ilha. De manhã rebocavam a gente num caique, largavam num ponto, ficávamos mergulhando no folego fotografando principalmente cações atraídos com peixes arpoados. Além dos bicudos, que na época eram presença constante, 5 ou 6 sempre em volta, apareciam uns cações grandes, que não identifiquei. No fim do dia, os pescadores nos davam um reboque de volta. O curioso que nem soubemos dos golfinhos. Acho que ninguém comentou conosco porque achavam normal afinal estavam sempre lá.

 

Você participou em diversas reportagens. Qual delas consideraria inesquecível ?

Um trabalho que me traz as melhores lembranças foi um documentário que gravamos em Cuba, dirigido por Roberto Faissal e patrocinado por Marco Santarelli, filho do lendário pioneiro Américo. Mergulhamos em 8 áreas distintas, todos os mergulhos inesquecíveis - como um canto de parede absolutamente vertical, filmado desde não planejados 50m até seu início aos 5m - com o apoio de um pessoal muito competente e da maior simpatia.

 

Quais naufrágios explorou pela primeira vez e qual é a sensação de ver um navio "intocado" ?

O único navio que, tenho certeza, ninguém havia visto antes de mim foi o Barom Dechmont, o navio do Pecém no Ceará. A primeira intensa emoção que me provocou foi medo. Patiata, o pescador que, único na aldeia, sabia marcar o navio, me aconselhou a não cair porque "o peixe vai te cortar". Quando mergulhei e um cardume de bijupirás, parecendo cações, veio me investigar quase enguli o regulador. Depois foi só curtição. o navio inteiro, em pé, com um canhonzinho na frente outro atrás era lindo. Na água cristalina, que corria da proa para a popa, parecia estar navegando. Outros em que provavelmente fui o primeiro com máscara e nadadeiras já haviam sido explorados (na época não existia saque, era tudo legal, bastava obter a licença) muito antes por uma equipe de gregos que, me contaram, antes da II guerra, operaram de escafandro pesado por todo o NE. Também estive, fotografando, com a primeira equipe que operou em navios naufragados no Parcel de Manoel Luiz, mas minha maior emoção nesta área foi recuperar na Sardenha, inteirinha, uma antiga ânfora romana.

 

Qual a sua opinião quanto ao mercado atual, certificadoras de mergulho e operadoras ?

Acho ótimo que para tantos tenha se tornado fácil e seguro conhecer o mergulho. Equipamento mais adequado, ensino simplificado, que cobre o essencial e não se perde em firulas, operadoras dando apoio em qualquer local que dê condições. Uma beleza. O reverso da medalha é a inevitável exasperação do interesse econômico, que surge com a presença de um público abundante. A educação continuada, uma necessidade para quem quer realmente evoluir, pode iludir o desavisado que coleciona diplomas, mas não experiências na água.

 

Atualmente, o mergulho recreacional teve diversas regras alteradas como o limite de profundidade diminuido para os 18m. Você acredita que este limite seria o ideal ?

Não estava sabendo. Quem pensa alterar as regras, as seguradoras ? Onde? Quando ? Para quem ? Algumas Federações filiadas à CMAS, que ainda é forte na Europa, consideram que o mergulhador básico, 1 estrela, deve se limitar aos 20m e deve ser acompanhado por, no mínimo, um divemaster, o mergulhador 3 estrelas. Isto faz sentido para mim, não acredito que um curso básico capacite alguém a sair com outro igualmente inesperiente, pegar um barco próprio e cair onde acharem que está bom. Agora, 18 metros no máximo para o mergulho recreativo ?  Me faz pensar que é uma manobra para empurrar as pessoas para o mergulho técnico, ótimo negócio para a indústria, as certificadoras e as operadoras. Péssimo para os mergulhadores. Vem disfarçado de aumento de segurança e na verdade vai empurrar um montão de gente a saltar para a quase obrigatória próxima etapa. Agora, mergulhador técnico porque foi a 15m, pensa que é isso, é só fazer um montão de cursos que estará apto a emular os medalhões.

 

Com tanta experiencia em mergulho, você pôde ver como os procedimentos nos cursos básicos e avançados foram mudados. Você acredita que os alunos provenientes de um curso básico teriam as mesmas habilidades que um aluno formado na deca de 80 e 90 ?

Ontem como hoje muito além da certificadora X ou Y e de suas metodologias, acho que o que mais conta e contou é o instrutor e seu envolvimento pessoal com o aluno. Claro que ter material de apôio, bons textos e toda a experiência acumulada ao longo do tempo pelas certificadoras ajuda muito. O reverso da medalha é o curso voltado demais para o comércio, que descuida da formação real do mergulhador e, por não o ter, não consegue lhe repassar o entusiasmo que deveria alimentar nossa atividade.

 

Você atuou durante muito tempo na plataforma de mergulho na Urca, inclusive onde realizei meu primeiro curso em 1986. Teria idéia de quantos mergulhadores recreacionais e profissionais você ajudou a formar ?

Vc foi aluno do Rico? Eu dei aula no flutuante depois dele, a partir de 88. Foi neste momento que ganhei minha primeira qualificação CMAS como Instrutor uma estrela. Só que bem antes disto eu já ensinava. Na Subaquática Engenharia para profissionais mal formados, na FEMAR nos cursos do Cmt. Romariz, para tantos amigos, antes que uma carteira tivesse alguma utilidade prática no Brasil e em Jurujuba, Niterói desde 1974.

 

Arduino Colasanti, mergulha desde '50. Praticou caça submarina de competição até 61 tendo participado em dois Campeonatos Mundiais na equipe brasileira. Com a orientação de um manual da Cressi, em meados dos 50', sobrevive a um reciclador de circuito fechado a oxigênio (o limite de profundidade era fixado em 18m !!!). Pouco depois, forte de leituras, com uma garoupa entocada nas Maricás, aceita um aparelho que lhe é oferecido por um conhecido que passava de lancha. Cindro com uma torneiras em cada extremidade, uma a reserva, na outra uma válvula CG-45.

Envergando o equipamento dentro d'água tem que rodar para expulsar a água pela traquéia esquerda. A leitura havia sido atenta. Em 1960 participou do primeiro trabalho de mergulho realizado no Brasil com equipamento leve (máscara e nadadeiras) e a partir dai regularmente, mas não continuamente, até 1987, se envolveu com mergulho comercial. Fez mergulho raso, fundo (pouco, não gostou), supervisão, inspeção com ensaios não destrutivos (na minha opinião o filé no comercial). Começou dando aulas na Subaquática Engenharia, depois na Fundação de Estudos do Mar.

Há cerca de 30 anos começou a dar aula para mergulhadores, na época, chamados amadores, mas era só ensinar, não dava carteira, na época no Brasil não existiam operadoras e uma carteira era desnecessária. Em seguida formou Randal Fonseca, Lola Fritsche e Flávio Vicenzetto e com eles formou a AquaRio, a primeira operadora em Arraial do Cabo, só depois foi dar aulas na Urca, com o Tatalo.

 

Assista ao Vídeo onde Arduino Colasanti conta um pouco sobre a sua história:

 

Nota: Infelizmente no dia 21/02/2014, o Arduíno Colassanti faleceu no Rio de Janeiro vítima de uma parada cardíaca. Nós do Brasil Mergulho, prestamos nossos sentimentos à família e certos de que esse pioneiro do mergulho no Brasil fará falta à todos.














 
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